Exportações de madeira e mobiliário recuam 2% em 2025. Vendas para os EUA sobem 4,4%

Apesar das exportações terem caído 2%, o presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário garante ao ECO que as tarifas de Trump não derrubaram o setor. Vendas para os EUA subiram 4,4%.

As exportações portuguesas de madeira e mobiliário alcançaram os 2.956 milhões de euros em 2025, o que representa uma diminuição de 2% em relação ao ano anterior. Apesar desta quebra global, as vendas para os EUA cresceram 4,4%. É caso para dizer que a guerra comercial não derrubou o setor.

Em 2025, a fileira da madeira e do mobiliário representou 3,7% das exportações nacionais de bens e 2,5% das importações nacionais de bens, com uma balança comercial positiva de 120 milhões de euros, segundo os dados da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP), partilhados com o ECO.

No topo da lista de melhores destinos para o cluster estão Espanha, com uma quota de 35%, França (25%) e Alemanha (5%). As vendas para os EUA e Reino Unido estão a ganhar tração ao representarem também 5% das exportações desta fileira em 2025.

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Em termos de segmentos, o melhor desempenho vai para as embalagens de madeira, com um crescimento de 7% face a 2024, seguido dos painéis de madeira, com uma subida de 6%, a carpintaria e outras obras de madeira, com um aumento homólogo de 4% e o carvão vegetal, com um aumento de 3%. Por outro lado, a serração em madeira registou o pior desempenho com uma quebra de 7% face a 2024, seguido do mobiliário (-5%) e iluminação (-4%).

Fonte: AIMMP

Por outro lado, as importações cresceram 7% para 2.836 milhões de euros em 2025. “A pior notícia, do ponto de vista interno, é um crescimento anormal das importações de madeira imobiliária em Portugal, ou seja, uma deterioração muito forte da nossa balança de transações, da nossa balança comercial. Estamos nos mínimos históricos e isso preocupa-me”, admite o presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal, Vítor Poças.

Tarifas “ilegais” de Trump não derrubam o setor

A guerra comercial, entretanto ilegalizada pelo Supremo Tribunal, não está a penalizar as empresas portuguesas da fileira, que viram as exportações para os EUA subir 4,4% o ano passado. “Trump tomou posse em janeiro de 2025 e em novembro as exportações de Portugal para os EUA já estavam quase a alcançar os valores da totalidade do ano de 2024, designadamente no mobiliário, colchoaria e iluminação”, contabiliza ao ECO o líder da AIMMP Vítor Poças justifica que “a aplicação de taxas maiores aos países asiáticos criou alguma vantagem competitiva para as empresas portuguesas”.

A diretora de operações e projetos da AIMMP, corrobora a ideia do líder da associação e realça que “o mercado dos EUA continua a ser incontornável porque tem dimensão, consumo elevado e apetência por importações”, resume Joana Nunes, na conferência “Expandir para crescer: mercados emergentes na internacionalização da madeira e mobiliário”, que decorreu a semana passada na Exponor no âmbito da feira inPROJECTA-Furniture, Hotel and Interior Design.

O mercado dos EUA continua a ser incontornável porque tem dimensão, consumo elevado e apetência por importações.

Joana Nunes

Diretora de Operações e Projetos da AIMMP

Fundada em 1958 em Paços de Ferreira, a Animovel emprega 90 pessoas e exporta 75% da produção para mais de 60 países. Os EUA integram a lista dos dez principais clientes da fabricante de móveis, com o diretor de projetos a contabilizar ao ECO que as vendas para o mercado norte-americano representam 12% da faturação. Duarte Correia sublinha que as “exportações para os EUA estagnaram, mas que está assim há dois anos”.

“Mesmo com a guerra comercial continuamos a vender para os EUA, ainda que a previsão era dobrar as vendas, o que não aconteceu”, assegura o porta-voz da Animovel, que marcou presença na inPROJECTA.

Mesmo com a guerra comercial continuamos a vender para os EUA, apesar que a previsão era dobrar as vendas, o que não aconteceu.

Duarte Correia

Gestor de projetos da Animovel

A Elastron, um dos maiores fornecedores de revestimentos para a indústria de estofos na Europa, viu as exportações diretas para os EUA diminuírem 34% em 2025, apesar do CEO destacar que as “exportações indiretas aumentaram com o crescimento de mercados como a China e o Vietname (principais fornecedores de estofo dos EUA) “. As vendas (diretas e indiretas) para os EUA, mercado onde o grupo Elastron está presente há dez anos, representaram cerca de 10% do volume de negócios em 2025.”

Questionado se a guerra comercial impactou as vendas para os EUA, o CEO da Elastron, José Carlos Oliveira, evidencia que o grupo tem “vindo a reforçar a sua aposta em mercados como o Vietname, a par do crescimento sustentado da unidade na China”. O ano passado, a Elastron Portugal, que emprega 249 trabalhadores, exportou para 68 mercados e faturou 30 milhões de euros.

Mobiliário e madeira têm 8 milhões para acelerar exportações

O Inter Wood & Furniture é um projeto de internacionalização gerido pela AIMMP para o setor das madeiras e do mobiliário que apoia empresas portuguesas interessadas no desenvolvimento de estratégias de internacionalização para novos mercados em crescimento. Ao longo dos anos, este programa, iniciado em 2008, já apoiou mais de 400 empresas, através de 140 ações em mais de 50 mercados, com incentivos até 50%.

O projeto Inter Wood & Furniture (2025-2027), apoiado por fundos europeus, tem um montante global aprovado de 7,8 milhões de euros e um incentivo aprovado de 4,2 milhões de euros.

Na conferência “Expandir para crescer: mercados emergentes na internacionalização da madeira e mobiliário”, Joana Nunes, diretora de operações e projetos da AIMMP, sublinha que os mercados prioritários no âmbito deste projeto são Europa (Alemanha, Reino Unido, França, Espanha, Itália), América do Norte (EUA e Canadá), Médio Oriente (Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita), Ásia Pacifico (Japão) e África do Sul.

Presidente da AIMMP, Vítor PoçasAIMMP

A diretora de operações e projetos da AIMMP detalha que a grande maioria das empresas participantes do Inter Wood & Furniture são pequenas empresas (53%), médias (34%) e micro (13%).

No âmbito deste projeto, a AIMMP diz já ter organizado este ano a presença portuguesa no Canadá (Toronto), Reino Unido (Birmingham), Alemanha (Hanover) e Espanha (Saragoça). Em abril seguem-se as feiras nos Emirados Árabes Unidos (Dubai) e Marrocos (Meknès), em maio será nos EUA (Las Vegas), Espanha (Costa Brava) e França (Nice). Para o mês de junho a fileira estará presente em França (Nice e Nantes), Dubai, África do Sul (Cidade do Cabo) e EUA (Chicago). De setembro a novembro, as ações de promoção vão decorrer na Arábia Saudita (Riade), EUA (Dallas), Alemanha (Bad Salzuflen), Reino Unido (Londres), EUA (Nova Iorque) e Espanha (Valência).

Fileira aposta em mercados emergentes

Com a filosofia “não se deve meter todos os ovos no mesmo cesto”, as empresas da madeira e do mobiliário estão a apostar em mercados emergentes. “A AIMMP fez apostas arriscadas e tivemos o arrojo de começar a escolher outros mercados, nomeadamente o Médio Oriente e estamos a apostar no Canadá e muito nos EUA“, diz o líder da associação que representa o setor em entrevista ao ECO. Vítor Poças diz que na mira para os próximos anos está a América Latina e África Austral.

A AIMMP fez apostas arriscadas e tivemos o arrojo de começar a escolher outros mercados, nomeadamente o Médio Oriente e estamos a apostar no Canadá e muito nos EUA.

Vítor Poças

Presidente da AIMMP

A Apacheco, empresa de mobiliário fundada há 44 anos em Paços de Ferreira, no distrito do Porto, exporta 50% da produção para mais de 60 países, sendo os principais mercados Venezuela e França, com o mercado nacional a pesar cerca de 50% das vendas.

Com vendas de 2 milhões de euros em 2025 e 25 colaboradores, a empresa começou a preparar a entrada no Médio Oriente em 2023. Atualmente já estão a trabalhar na Arábia Saudita de forma “residual”, mas o objetivo é que as vendas “sejam expressivas nos próximos anos”, assegura a diretora executivo da Apacheco que em 2015 decidiu, juntamente com o irmão João Pacheco, agarrar o projeto de família para dar um novo boost à empresa.

A gestora, e filha do fundador Avelino Pacheco, considera que as “economias são são voláteis e as empresas têm que se adaptar“. A título de exemplo, diz que em “2015 a Angola era o maior mercado da Apacheco e que passados ​dez anos a faturação não deve chegar a 1%”.

Presente em três mercados, mais centrados na Europa, a Portilame — que se dedica à construção em madeira — tem em mãos um projeto a decorrer em Moçambique, a estrutura da cobertura de um templo sagrado. “Toda a cobertura será executada em madeira, sendo que todo o material foi produzido em Portugal”, descreve ao ECO David Simão, CEO da Portilame, que acredita que “até 2050 a população africana duplique” e que é “sem dúvida uma oportunidade que devem aproveitar”.

Com vendas próximas de 15 milhões de euros e 90 colaboradores, a Portilame tem dois projetos em parceria com a corrente Carmo Wood, a residência para estudantes em Guimarães (que está praticamente concluída) e outro alojamento para estudantes em Coimbra que deverá estar concluído no final do ano.

Embora a exportação pese apenas 5% das vendas, a internacionalização é uma ambição, mas com “as parcerias e sinergias corretas”, sublinha o CEO da Portilame ao ECO, à margem da conferência “Expandir para crescer: mercados emergentes na internacionalização da madeira e mobiliário”, que decorreu a semana passada na Exponor no âmbito da feira inPROJECTA.

Conferência “Expandir para crescer: mercados emergentes na internacionalização da madeira e mobiliário”, com a presença de David Simão (CEO Portilame), Rita Pacheco (diretora executivo da Apacheco), diretor executivo do Grupo Jota Barbosa Interiores (Samuel Santigo) e Vítor Poças (presidente da AIMMP).

“A internacionalização pode ser o nosso maior enterro“, diz o líder da Portilame, justificando que os empresários “pensam que uma solução imediata é ir para fora, ganhar o projeto e depois há de saber-se como é que se vai executar, isso não é assim. Primeiro temos que conhecer o mercado, criar as parcerias certas e permanecer nesses mercados por longo prazo”, afirma David Simão.

Com mais de 45 anos de experiência no setor mobiliário e design de interiores, o Grupo Jota Barbosa Interiores fatura três milhões, emprega 27 pessoas e exporta 67% da produção para 47 países, essencialmente para o Reino Unido, Nigéria e Arábia Saudita.

“A partir de 2010 começamos a deixar de pensar só em Portugal, Angola, Suíça e França e começámos a olhar para o o mundo, também fruto da necessidade e da bolha imobiliária de 2008”, diz Samuel Santiago, diretor executivo do Grupo Jota Barbosa Interiores. O gestor antecipa que a “Europa vai ser inundada por produtos da Malásia, China, Vietname, Turquia” e que o caminho das empresas portuguesas passa pela “diferenciação, pelo valor acrescentado e pelo serviço que prestamos”.

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