Indústria antecipa impacto “gravoso” nos custos. Prolongar do conflito abre porta a despedimentos e fechos
Conflito no Médio Oriente acelerou escalada dos preços da energia, com reflexo nos custos de produção. Empresários não descartam cenários como fecho de unidades e despedimentos se situação se agravar.
- O conflito no Médio Oriente, que já dura 12 dias, está a provocar um aumento significativo nos preços do petróleo, afetando a indústria portuguesa.
- Os representantes empresariais alertam que o aumento dos custos de produção poderá levar a despedimentos e encerramentos de unidades, especialmente nas pequenas e médias empresas.
- A incerteza prolongada poderá resultar em uma diminuição da procura externa e um abrandamento da economia portuguesa, impactando negativamente o investimento e o consumo.
O conflito no Médio Oriente, que entrou no 12.º dia, conduziu a uma escalada dos preços do petróleo até níveis que não eram visitados desde 2022, ano marcado pela invasão russa à Ucrânia. Uma situação que está a deixar em alerta a indústria portuguesa, que antecipa um impacto “gravoso” nos custos de produção e avisa sobre impacto nos preços e na economia. Dependendo da duração do conflito, representantes empresariais admitem que cenários “mais graves” como despedimentos e fechos de unidades tornam-se uma “possibilidade real”.
“O recrudescimento do conflito no Médio Oriente tem gerado uma instabilidade geopolítica e económica significativa, com repercussões diretas e indiretas para as empresas portuguesas“, realça José Eduardo Carvalho, em respostas ao ECO. O presidente da AIP destaca que “o aumento dos preços dos combustíveis e do gás natural tem um impacto direto nos custos de produção e nos custos de transporte marítimo, que já registam disrupções e aumentos”. E avisa: “Se o conflito no Médio Oriente se prolongar e a escalada de custos persistir, os cenários mais graves, como despedimentos e fechos de unidades, tornam-se uma possibilidade real“.
Se o conflito no Médio Oriente se prolongar e a escalada de custos persistir, os cenários mais graves, como despedimentos e fechos de unidades, tornam-se uma possibilidade real (…) A implementação de medidas de apoio e a monitorização contínua da situação são cruciais para mitigar os riscos de uma quebra nas exportações, despedimentos e encerramentos de unidades, caso o conflito se prolongue.
Os ataques lançados pelos EUA e Israel ao Irão levaram a uma série de ataques de retaliação por parte do Irão e fecharam o Estreito de Ormuz, um importante canal por onde passa diariamente cerca de 20% do petróleo consumido a nível global. Uma situação que fez disparar os preços do petróleo e do gás natural, com impacto numa mudança de perspetivas para a evolução dos preços e, consequentemente, uma inversão na política monetária dos bancos centrais mundiais.
Para o responsável, “as pequenas e médias empresas (PME), com menor capacidade financeira para absorver choques de custos, são as mais vulneráveis ao risco de insolvência”. Perante aquilo que classifica uma “ameaça multifacetada para a economia e as empresas portuguesas” — a escalada dos preços do petróleo e do gás, a disrupção das cadeias de abastecimento e o consequente aumento dos custos de produção e transporte colocam uma pressão significativa sobre a rentabilidade e a competitividade das empresas — , o presidente da AIP defende que “a implementação de medidas de apoio e a monitorização contínua da situação são cruciais para mitigar os riscos de uma quebra nas exportações, despedimentos e encerramentos de unidades, caso o conflito se prolongue”.
Com os setores mais dependentes de energia e com maior exposição a mercados externos mais “mais vulneráveis” à crise no Médio Oriente, José Eduardo Carvalho argumenta que há duas soluções para mitigar a subida do preço e a pressão dos mercados: utilização das reservas de combustíveis e ajustes do ISP e da taxa de carbono. “Tornam-se ainda necessários apoios diretos do Governo às empresas mais afetadas pelo acréscimo de custos energéticos, a fim de evitar paragens de atividade e a consequente perda de postos de trabalho“, avisa.

Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP, reforça que “além do impacto direto, que será particularmente gravoso para as empresas mais intensivas em energia, os aumentos dos custos de produção acabarão por repercutir-se (mesmo que não na totalidade) nos preços, dando origem a um inevitável movimento de contágio à generalidade dos preços“, à imagem do que aconteceu em 2022, quando rebentou a guerra na Ucrânia.
“Esse é o risco mais grave para a economia portuguesa e, de uma forma geral, para as economias europeias, caso o conflito se prolongue com o consequente aumento dos preços do petróleo e do gás natural”, alerta. “Sabemos bem quais são as consequências da inflação e das políticas que seriam necessárias para a combater”.
“A dimensão do impacto económico é ainda muito incerta, dependendo da amplitude e da duração do conflito, mas não são de excluir cenários que levem ao encerramento de empresas, com reflexos no emprego”, reconhece o diretor-geral dos “patrões”.
“O agravamento dos custos operacionais para o setor empresarial terá necessariamente, mais cedo ou mais tarde, reflexos no nível de preços de venda, dependendo da capacidade de cada setor em absorver tais custos nas suas margens“, considera a AEP. Segunda a associação empresarial, “os setores mais afetados deverão ser os setores mais dependentes do comércio internacional e do consumo energético, onde se destaca de forma clara a indústria transformadora”.
O agravamento dos custos operacionais para o setor empresarial terá necessariamente, mais cedo ou mais tarde, reflexos no nível de preços de venda, dependendo da capacidade de cada setor em absorver tais custos nas suas margens.
“A incerteza associada a um eventual agravamento das tensões tende a ter efeitos negativos mais abrangentes, nomeadamente através do adiamento de decisões de consumo e investimento por parte dos agentes económicos, o que poderá refletir-se numa menor procura externa e, consequentemente, num abrandamento da economia portuguesa“, explica a AEP.

Ricardo Silva, presidente da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, destaca que “todas as áreas estão a ser afetadas pelos aumentos do gás natural e o impacto na energia elétrica”, notando que “não vimos ainda o impacto direto”, o que vai acontecer “no final de março” quando surgirem as primeiras faturas. “Isto são impactos diretos nas indústrias”.
“Há ainda os impactos indiretos. A maior parte da matéria-prima vem de fora, do sudeste Asiático. Vamos sofrer aumentos de preços de várias naturezas. Prevejo aumento de 10 a 15% dos preços”, calcula. O líder dos têxteis admite que “se o conflito se prolongar por cinco ou seis semanas, os custos vão subir de forma muito drástica“.
Questionado sobre se o conflito poderá precipitar o fecho de unidades, ou despedimentos, Ricardo Silva não afasta este cenário: “Se esquecermos esta situação da guerra, já estávamos num cenário negativo. É mais uma camada de incerteza, a situação não vai melhorar”.
Sobre os constrangimentos que estão a travar o envio de peças acabadas, sobretudo do continente asiático, Ricardo Silva refere que a indústria têxtil portuguesa pode beneficiar com o “negócio de proximidade”. Uma oportunidade insuficiente para compensar os efeitos negativos do conflito.

Para a indústria metalúrgica e metalomecânica, o “campeão das exportações” nacionais, fechou 2025 com um novo recorde de 24.169 milhões de euros de vendas ao exterior, a situação que se vive está a ser acompanhada com “muita atenção e alguma apreensão, não com alarme”, diz Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP).
“O aumento do custo do petróleo aumenta o custo da energia e o custo das matérias-primas“, reconhece, acrescentando que “as empresas têm alguma capacidade de gerir stocks”, pelo que “nos próximos meses não vão sentir impacto” de constrangimentos no fornecimento.
Apesar de admitir que “a guerra é sempre preocupante”, Rafael Campos Pereira mostra-se esperançoso que o conflito não seja duradouro e elogia a capacidade de resistência da indústria do metal nacional. “As empresas do setor têm ultrapassado com sucesso dificuldades iguais ou maiores. Tem acontecido muita coisa e temos resistido a todas as dificuldades e constrangimentos”, sustenta.

No setor dos moldes, um dos setores fortemente afetados pelo temporal que afetou o Centro do país, Manuel Oliveira, secretário-geral da CEFAMOL — Associação Nacional da Indústria de Moldes, também expressa “alguma apreensão e expectativa” em relação ao impacto do conflito na indústria. Mais do que os efeitos diretos nas empresas, o representante dos moldes alerta para os “efeitos a nível internacional”. Conflito “pode condicionar novos investimentos e o lançamento de novos produtos e aí vai afetar a atividade do setor” que fornece grandes multinacionais, nomeadamente construtoras automóveis ou empresas da cadeia de valor.
“Tudo tem a ver com o prolongar desta situação”, nota, acrescentando que os “combustíveis vão impactar a competitividade”. Para Manuel Oliveira o grande risco é, porém, os problemas ao nível das cadeias internacionais, de quem o setor depende. “Se afetar os nossos clientes vai afetar a indústria”, reforçando que “o atraso ou a suspensão do lançamento de novos produtos” pode ser um problema para as empresas nacionais de moldes.
O alumínio, que foi altamente penalizado pela imposição de tarifas por parte dos EUA, indica que “toda a incerteza geopolítica gerada em torno do conflito, assim como as fortes subidas verificadas nos preços do gás e do petróleo e seus derivados, têm trazido um enorme stress às indústrias do setor“, aponta José Dias, presidente da Associação Portuguesa do Alumínio (APAL).
Toda a incerteza geopolítica gerada em torno do conflito, assim como as fortes subidas verificadas nos preços do gás e do petróleo e seus derivados, têm trazido um enorme stress às indústrias do setor.
Quanto aos principais riscos, José Dias identifica dois: “uma potencial perturbação no funcionamento das indústrias em resultado da interrupção das cadeias logísticas internacionais das quais continuamos ainda a ser muito dependentes; e uma necessidade de aumentos exponenciais que cubram os custos operacionais, em resultado do elevado impacto que os custos energéticos têm na nossa indústria, e desta forma condicionar a competitividade dos nossos produtos”.
“Caso esta situação se prolongue por mais algumas semanas, pelo menos a redução temporária de postos de trabalho será algo que me parece inevitável“, admite. Por outro lado, “neste momento a indústria encontra-se apenas a reagir às perdas resultantes dos aumentos dos custos das energias”. Mas, caso a situação não se altere, a indústria “terá igualmente que fazer repercutir junto do mercado, todos os custos resultantes de outros efeitos previsíveis, tais como o aumento dos custos de transporte e quebras de produtividade”, remata.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Indústria antecipa impacto “gravoso” nos custos. Prolongar do conflito abre porta a despedimentos e fechos
{{ noCommentsLabel }}