Mercado de manutenção de aviões deverá registar boom até 2036
Produção de aeronaves não está a acompanhar crescimento de procura: será necessário 12 anos para colmatar atrasos de resposta das encomendas, aponta relatório da Oliver Wyman.
Um bilião de dólares. É este o valor de receitas que se estima que a aviação comercial tenha atingido no ano passado, impulsionada por um recorde de 5,2 mil milhões de passageiros a nível mundial. Mas a produção de aeronaves não está a acompanhar este crescimento e as últimas estimativas apontam que será necessário mais de uma década para repor atrasos nas encomendas. Com a frota ‘envelhecida’, os gastos com manutenção deverão atingir 193 mil milhões na próxima década, praticamente o dobro dos registados antes da pandemia, aponta o relatório “Global Fleet and MRO Market Forecast 2026 – 2036″, da Oliver Wyman.
“O setor enfrenta uma oferta restrita de peças, apesar da forte procura das companhias aéreas, o que mantém os ativos de manutenção, reparação e revisão (MRO) atraentes para investidores num contexto de aumento dos preços. O envelhecimento da frota global, impulsionado por atrasos na produção, combinado com uma utilização recorde, está a elevar a procura de manutenção a um superciclo. Isso cria um ambiente complexo onde a gestão eficaz da manutenção e o investimento estratégico são essenciais para sustentar as operações e impulsionar o crescimento”, aponta Brian Prentice, partner da Oliver Wyman, citado no relatório.

No início do ano, havia cerca de 17 mil encomendas de aeronaves pendentes, um ‘atraso’ que, a manterem-se os atuais níveis de produção, levará 12 anos a dar resposta. Com mais horas de voo — em média, cada avião regista uma subida anual de 2% — e aeronaves mais ‘envelhecidas’ — no ano passado, a idade média de uma aeronave era de 13 anos, mais um ano e meio do que em 2024 —, o mercado de MRO deverá registar um boom de crescimento na próxima década: os gastos mundiais com manutenção atingiram 136 mil milhões de dólares em 2025, mais 8% do que em 2024, e até 2036, deverão superar 193 mil milhões de dólares, praticamente o dobro dos gastos registados em 2019, aponta o relatório da Oliver Wyman.
Falta de matérias-primas e escassez de talento
Falta de matérias-primas, volatilidade geopolítica (incluindo tarifas), e uma crescente procura de aeronaves militares e de defesa levou a atrasos na entrega de aviões comerciais. Outro fator que está a impactar a capacidade de entrega das empresas é a escassez de profissionais.
“À medida que a última geração do baby boom deixa o mercado de trabalho, levando consigo sua experiência, o setor enfrenta dificuldades para atrair e reter gerações mais jovens de trabalhadores bem formados. Cerca de 41% dos mecânicos certificados nos EUA têm mais de 60 anos, e aproximadamente 45.000 mecânicos irão aposentar-se na próxima década”, alerta o relatório. A reforma de profissionais do setor — sem haver uma renovação — afeta igualmente os profissionais do tráfego aéreo, bem como em cargos de gestão.
No início de 2026, a frota de aeronaves comerciais, excluindo a Rússia, era de 30 mil aviões. Daqui a dez, a Oliver Wyman estima que existam cerca de 41 mil, valor que representa uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 3,2%.

“Esse crescimento está seis anos abaixo da nossa previsão pré-pandemia. Problemas na cadeia de fornecimento irão limitar a produção anual de aeronaves em todo o mundo até, pelo menos, 2030, representando mais de 6.000 novas aeronaves que, de outro modo, teriam sido produzidas. Na segunda metade do período previsto, um ritmo mais acelerado de entregas fará com que as idades de aposentadoria voltem aos seus níveis históricos normais”, alerta o relatório.
A Índia registará a maior taxa de expansão da década ao nível da sua frota, com um crescimento anual de 7,1%, seguida pelo Médio Oriente (5%), Europa de Leste (4,4%) e Europa Ocidental (2,1%). A China será o mercado que mais aeronaves acrescentará em termos absolutos, e os aviões de fuselagem estreita reforçarão o seu domínio, passando de 63% em 2025 para 69% da frota total em 2036.

A dificuldade em assegurar as encomendas com a rapidez desejável é transversal às companhias. Tanto a Airbus — que detém 49% das encomendas, um total de 7.600 unidades — como a Boeing (38%, para um total de 4.900 aeronaves) têm registado esse desafio. E não há sinais que a situação se inverta nos tempos mais próximos.
“Em 2025, tanto a Airbus quanto a Boeing tentaram aumentar a produção nas suas plataformas, mas foram prejudicadas por restrições na cadeia de fornecimento e problemas de produção. Enquanto a Airbus pretende produzir 75 aeronaves A320 por mês até 2027, produziu apenas 54 por mês até o final de 2025 e espera-se que os atrasos continuem. A Boeing tem como meta 57 unidades mensais do 737 em 2026, mas um aumento na taxa de produção para 42 por mês foi aprovado pela FAA apenas no quarto trimestre de 2025″, aponta a consultora no relatório.

Por tipologia de aeronaves, o A320 e o 737 “irão dominar as entregas de aviões na próxima década, representando 65% do total de entregas”.
Gastos com manutenção vão subir
Com frotas mais envelhecidas, o segmento de manutenção deverá registar uma subida no seu volume de negócios, antecipa a consultora. “Uma frota mais antiga precisa de mais manutenção e mais peças de reposição. Essa procura elevou os preços tanto das peças quanto da mão de obra, prolongando o superciclo que começou após a pandemia no segmento de manutenção, reparo e revisão do mercado (MRO)”, destaca a Oliver Wyman.

“A procura global por MRO foi de 136 mil milhões de dólares em 2025, um aumento de 8% em relação aos 126 mil milhões de dólares de 2024. Até o final da próxima década, esperamos que os gastos cheguem a quase 193 mil milhões de dólares — cerca do dobro do valor em 2019. Em regiões com frotas mais antigas — América do Norte, Europa Ocidental e África — os gastos com manutenção superarão o crescimento da frota”, pode ler-se no relatório.
A manutenção de motores concentra o maior volume, com 70,1 mil milhões de dólares em 2026, seguida pela manutenção de estruturas, com 27,8 mil milhões, pelos componentes, com 24 mil milhões, e pela manutenção de linha, com 17,7 mil milhões.

Mas nem tudo são boas notícias para o setor MRO. Também aqui falhas na cadeia de abastecimento — incluindo materiais como titânio —, bem como desafios técnicos na área de motores estão a impactar as entregas. “A escassez de matérias-primas e a falta de mão de obra qualificada elevaram os custos”, aponta a consultora.

Em resposta à consequente perda de flexibilidade, as companhias aéreas estão a adotar diversas estratégias para garantir a capacidade. “A tendência de integração vertical da manutenção e formação de parcerias colaborativas, como as joint ventures da Lufthansa Technik, a expansão das capacidades internas da Delta TechOps e a aquisição de capacidades de manutenção de fuselagem pela EasyJet, continuará“, considera a Oliver Wyman.
O superciclo de MRO também “impulsionou a atividade de fusões e aquisições, com múltiplos de EBITDA de até 15 vezes, em comparação com as médias históricas de 10 a 12 vezes”, destaca a consultora.
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