Preços dos materiais e mão-de-obra travam construção. Obras públicas caem 41% no arranque do ano

Apesar de estar mais protegido do problema das tarifas e dos conflitos geopolíticos, o setor sente o impacto colateral destes problemas com a incerteza a levar ao adiamento de novas obras.

Os elevados preços dos materiais e a falta de mão-de-obra são uma ameaça ao crescimento do setor da construção, aponta um relatório da Crédito y Caución. A seguradora de crédito avisa que estes dois fatores têm “um forte impacto nas margens de lucro e nos prazos de entrega”. Quanto ao tema das tarifas e às tensões geopolíticas, apesar de não afetarem diretamente o setor, avisa que podem levar a uma redução dos gastos com construção comercial.

A Crédito y Caución refere que o setor da construção “enfrenta ameaças significativas que dificultam o seu crescimento, como a escassez de mão-de-obra e os preços elevados dos materiais”. O relatório divulgado esta quarta-feira pela seguradora de crédito antecipa que o setor da construção crescerá apenas 1,6% na Europa este ano, impulsionado pelo segmento residencial, e abaixo dos 2,3% estimados para 2026 a nível mundial.

O relatório conclui que o subsetor residencial será impulsionado pelos cortes nas taxas de juro aprovados pelo Banco Central Europeu. Contudo, esta análise não deverá ter ainda em consideração as mudanças de expectativas para as taxas de juro, após os ataques no Médio Oriente.

Com os preços da energia a escalarem, devido à guerra no Irão, os mercados já estão a descontar duas subidas de 25 pontos base das taxas de juro do Banco Central Europeu ainda este ano e os contratos de empréstimo à habitação cujas condições vão ser revistas no próximo mês vão já sofrer o impacto do aumento das tensões geopolíticas, com as prestações a aumentarem.

No que diz respeito àquilo que classifica como as principais ameaças ao setor, a seguradora de crédito prevê que “na Zona Euro e no Reino Unido, os custos dos materiais continuarão mais elevados do que no passado e a escassez de mão-de-obra é estrutural“. “Ambas as questões têm um impacto negativo nas margens dos fabricantes e no risco de crédito corporativo, que se mantém elevado na maioria dos mercados europeus”.

Sobre as tarifas e as tensões geopolíticas, o relatório destaca que o setor sofre o seu “impacto colateral”. “As questões comerciais globais aumentaram a incerteza empresarial, levando a uma redução dos gastos com construção comercial em muitos países”. “Este facto, juntamente com os elevados custos de produção e a falta de mão-de-obra, está a dificultar o seu crescimento”, remata.

A falta de mão-de-obra tem sido um dos principais problemas do setor em Portugal, que continua a recorrer a imigrantes para colmatar estas falhas. Perto de completar um ano desde que entrou em vigor, os processos de contratação submetidos ao abrigo da chamada ‘via verde’ para a imigração “duplicaram” só nos últimos três meses, assim como o número de imigrantes para quem foi requerido visto, com a construção a liderar os pedidos, segundo revelou ao Expresso o presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário (CPCI).

Entre as entidades que já recorreram à ‘via verde’ estão grandes construtoras, como a Mota-Engil, a Casais ou a DST. Os números de trabalhadores imigrantes, ainda que ascendentes, chocam com a carência de 80 mil trabalhadores no setor, estimativa feita pelo também presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas Nacionais (AICCOPN).

Obras públicas caem 41% no arranque do ano

Apesar de o relatório apontar risco de menos obras no mercado residencial, em Portugal foram as obras públicas que arrancaram o ano em queda. Segundo dados divulgados esta quarta-feira pela AICCOPN, os concursos de empreitadas de obras públicas promovidos em janeiro diminuíram 33% em número e 41% em valor face ao período homólogo.

A associação realça, porém, que janeiro é um “período historicamente sujeito a elevadas flutuações”. Os dados do mais recente Barómetro das Obras Públicas da AICCOPN apontam ainda que, acompanhando a tendência observada nos concursos promovidos, os contratos de empreitadas de obras públicas celebrados registaram um desempenho também condicionado pela “dinâmica específica” do primeiro mês do ano.

Assim, o valor total de contratos de empreitadas celebrados e registados no Portal Base totalizou em janeiro os 190 milhões de euros, valor que corresponde a uma quebra de 46,1% em comparação com o mesmo período do ano passado.

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