Do estádio ao castelo, Câmara de Leiria teve prejuízos de 243 milhões com depressão Kristin
Mês e meio depois da depressão que registou ventos acima de 200 km/h, as contas do património municipal somam-se às de habitação e empresas. Autarca aponta para total de 1.000 milhões de euros.

A Câmara Municipal de Leiria calcula em 243 milhões de euros o valor dos prejuízos em equipamentos municipais, nas infraestruturas das coletividades, equipamento religioso e órgãos do Estado, causados pela passagem do “comboio de tempestades”, de que a depressão Kristin, a 28 de janeiro, foi o expoente máximo. O valor pode ser superior, admite o autarca, já que do lado do Estado não é certo que os danos se fiquem pelos 22,9 milhões de euros identificados, incluindo no tribunal da cidade e no quartel de bombeiros.
Numa conferência de imprensa a decorrer nesta quinta-feira no castelo mandado erguer por D. Afonso Henriques há quase 900 anos, o presidente da autarquia, Gonçalo Lopes, afirmou que “um impacto vem confirmar que Leiria ficou no epicentro desta tragédia” e “esta é uma catástrofe ao nível” de outras europeias, como a ocorrida em Valência há ano e meio.
Se for necessário contrair empréstimos bancários para iniciar esta reconstrução, assim o iremos fazer. A Câmara de Leiria vai, na próxima semana, fazer uma consulta ao mercado para contrair um empréstimo.
“A escolha do Castelo de Leiria para o local desta conferência de imprensa, não é apenas simbólico”, salientou Gonçalo Lopes. “É o equipamento municipal que poderá vir a ter o maior volume de investimento, já estimado em 10 milhões de euros, que resulta de uma intervenção delicada, uma vez que é um património classificado e com intervenções que obrigam ao acompanhamento da tutela”. No total, a cultura e património exigem 15 milhões de euros.
O impacto no castelo é “só igual ao registado em 1755 aquando do terramoto, e agora, verificado no dia 28 de janeiro de 2026 com a tempestade Kristin, [o que] dá para perceber a dimensão que esta tempestade teve no nosso território”.

O autarca, que falou aos jornalistas com troncos de árvores destruídas em pano de fundo, deixou uma perspetiva da destruição: “todo o nosso concelho ficou abalado nas suas infraestruturas fundamentais, de mobilidade, escolares, desporto, cultura, saneamento básico, espaço público. Não houve uma única freguesia que não tivesse sido afetada”.
Até esta quinta-feira, foram gastos pela autarquia 13,3 milhões de euros, dos quais 9,2 milhões com despesas como a reparação de escolas, limpeza e desobstrução de vias, reparações de centros de saúde e de telhados.
Em Leiria ainda há estradas intransitáveis, e a estimativa para a recuperação é de 85 milhões de euros para investir “nos próximos anos”. Em taludes e muros de suporte e contenção serão empregues 7,9 milhões de euros. No saneamento básico – abastecimento de água, sistemas de drenagem e saneamento básico – há necessidade de investir 5,4 milhões na recuperação. Para a manutenção e conservação do espaço público exigem-se 3,1 milhões de euros, a que se soma a reparação de ruas na freguesia mais afetada (aquela que concentra a maioria da área urbana), é de 2,7 milhões de euros. Só no que concerne à Câmara, a fatura é de 193,4 milhões de euros.
O impacto real no território é significativamente superior ao que apresentámos aqui, de 243 milhões de euros, o que coloca o concelho de Leiria como um dos principais concelhos afetados por esta tragédia. […] Juntando este levantamento, que não inclui a floresta, e o outro que já tínhamos anunciado, um cálculo que é feito por estimativa, por nós, que tem a ver com o peso do prejuízo nas habitações e na economia, podemos estar a falar de um prejuízo, só no concelho de Leiria, na ordem dos 1.000 milhões de euros.
Para lá do castelo, a maior parcela do investimento, “há uma segunda rubrica que impacta nesta destruição, que é o nosso parque escolar, onde as principais escolas do segundo e terceiro ciclo foram profundamente afetadas, e cuja solução não é a simples reconstrução, é fazer edifícios resilientes para o futuro”. Este “será o investimento mais importante de Leiria nos próximos anos. Algumas destas escolas estão ainda a funcionar em contentores e pavilhões desportivos provisórios”, nota o presidente da Câmara de Leiria. A parcela para escolas é de 30 milhões de euros. Noutra das competências assumidas pelas autarquias, a saúde requer 6 milhões de euros para centros de saúde.

Foram analisadas 1900 ocorrências no concelho, um trabalho que o autarca classifica de “profundo, responsável, que nos permite apresentar não só os problemas nos nossos edifícios, nas nossas infraestruturas, mas começar desde já a planear as nossas prioridades”.
Para lá de equipamentos da esfera pública, somam-se as habitações, as empresas e floresta. Sobre as primeiras, Gonçalo Lopes diz que “há problemas profundos” e que “20% das casas que acionaram apólices no âmbito destas tempestades estão em Leiria. Quando estamos a falar de uma recuperação, o grande desafio é que haja proporcionalidade nos apoios ao investimento, e mais do que a reconstrução, à transformação no território que foi massacrado”. No total, salienta Gonçalo Lopes, “o impacto real no território é significativamente superior ao que apresentámos aqui, de 243 milhões de euros, o que coloca o concelho de Leiria como um dos principais concelhos afetados por esta tragédia”.
Para Gonçalo Lopes, a missão não passa por reconstruir tudo à imagem de 27 de janeiro, véspera da passagem da depressão Kristin. “Temos que voltar a construir equipamentos, estradas, edifícios capazes de conseguir vencer catástrofes. Este é o grande desafio para Leiria e para a região e para o qual é necessário o apoio a exemplo do que foi feito em 2010 na Madeira”, nota.
Tal como o ECO/Local Online já tinha avançado, o orçamento da autarquia terá de ser refeito. “O peso destes estragos é muito superior ao orçamento do município. Temos um orçamento na ordem dos 180 milhões de euros, temos uma dívida bancária de 7 milhões de euros, uma capacidade de endividamento bancária capaz. Aquilo que era o dinheiro que tínhamos pensado para determinado tipo de iniciativas para este ano, foram afetas logo naquelas três semanas, corresponde àquele montante dos 13,4 milhões de euros de investimento. O orçamento do município para esta ambição não será suficiente e, naturalmente, não vamos estar parados”. Para tal, “se for necessário contrair empréstimos bancários para iniciar esta reconstrução, assim o iremos fazer. A Câmara de Leiria vai, na próxima semana, fazer uma consulta ao mercado para contrair um empréstimo”.
Contando que já reuniu com os responsáveis da autarquia de Valência, o autarca de Leiria diz que se não fizesse esse crédito bancário, teria de ficar parado.
Notícia atualizada às 10h45
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