Mota-Engil dá primeiros passos na exploração de minas próprias
Primeiras exportações de mina de ferro nos Camarões devem avançar este ano. Projeto no Malawi está em fase de prospecção. Nos serviços à indústria petrolífera, a Venezuela volta a estar no radar.
A Mota-Engil já está há alguns anos envolvida na atividade mineira, como uma empresa que presta serviços a grandes empresas do setor. Agora prepara-se para dar os primeiros passos na exploração de minas próprias. Já este ano, deverão sair dos Camarões as primeiras toneladas de minério de ferro.
A área de mineração foi uma das estrelas da apresentação, esta quarta-feira, do plano estratégico 2026-2030 da Mota-Engil, a quem o rótulo de construtora faz cada vez menos sentido. Esta atividade, centrada em África, onde tem 11 contratos, gerou uma receita de 732 milhões de euros para a empresa em 2025, com uma margem choruda de 30% (EBITDA).
A empresa portuguesa está focada sobretudo na extração e movimentação dos materiais rochosos para terceiros, mas está, devagar, a entrar também na exploração própria. Tem sete licenças de exploração em África e a primeira entrará em operação este ano. “Temos um projeto pequeno de ferro que irá entrar em operação nos Camarões”, revelou o administrador executivo, Manuel Mota.
Vamos começar a exportar ferro dos Camarões provavelmente ainda este ano. É um projeto com um grande potencial, mas com uma questão logística bastante complexa. Vamos começar por fazer de 1 a 3 milhões de toneladas por ano.
“Vamos começar a exportar ferro dos Camarões provavelmente ainda este ano. É um projeto com um grande potencial, mas com uma questão logística bastante complexa. Vamos começar por fazer de 1 a 3 milhões de toneladas por ano“, explicou. As reservas inferidas e prováveis são de um bilião de toneladas.
A avançar está também a Chilwa Minerals, uma empresa de exploração de terras raras e areias pesadas no Malawi, onde a Mota-Engil tem 34% e que está cotado na bolsa australiana. “Está na fase de prospeção e a começar a entrar na fase de capital intensivo“, afirmou Manuel Mota.

“Temos alguns investimentos também em Angola, numa fase mais anterior, de cobre manganês, ouro, cobalto. Mas isso é muito, muito greenfield, até porque Angola é um mercado novo nessa área”, refere o administrador executivo.
“Estamos a fazer alguns investimentos e vão surgindo oportunidades, temos que acompanhar”, afirma Manuel Mota, acrescentando que esta estratégia significa “subir na cadeia de valor” da atividade mineira.
“Conhecem a situação da mina de Barroso? Acho que em qualquer outro continente já estaria construída. Na Europa, se calhar vai precisar de mais 20 anos. Espero que não, porque é um excelente projeto.
A atividade mineira em Portugal não faz parte da equação, apesar das elevadas reservas de lítio no país. “Eu acho que é muito difícil investir quando a realidade ambiental não o permite”, respondeu. “Conhecem a situação da mina de Barroso? Acho que em qualquer outro continente já estaria construída. Na Europa, se calhar vai precisar de mais 20 anos. Espero que não, porque é um excelente projeto”, aduziu.
O primeiro contrato de serviços para a exploração de minas remonta a 2018, em Moçambique. São agora 11, quase todos já fora da fase inicial de lançamento, o que para a Mota-Engil promete “maior rentabilidade nos próximos anos”.
A Mota-Engil reclama o primeiro lugar no ranking da prestação de serviços às mineiras em África, mas as ambições estendem-se também à América do Sul. “Na zona andina, com as mudanças geopolíticas, têm havido muitos investimentos significativos na parte de mineração, tanto no Peru como no Chile, como na Argentina, que era uma zona um bocadinho inexplorada, também se calhar por questões financeiras”, explica Manuel Mota.
“Hoje é um mercado que se tem tornado muito atrativo, para players como a Rio Tinto, como a Glencore, como o Lundin Group, e outras que têm investimentos significativos, por isso temos que acompanhar esses investimentos, se quisermos prestar serviços nessa área“.
Na mira da Mota-Engil está também a aquisição da brasileira Bahia Mineração (Bamin), que tem a concessão de um projeto que integra uma mina de ferro, uma linha férrea e um porto no estado brasileiro da Baía. “Estamos a olhar para o projeto”, afirmou Manuel Mota, acrescentando que se trata de um negócio com sinergias para o grupo, por ter uma componente mineira, de infraestrutura e portos. Só em construção são “quatro ou cinco mil milhões”.
A área de mineração centrou as atenções no Capital Markets Day, com um dos analistas a questionar se a Mota-Engil admitia a entrada de investidores para ajudar a financiar os investimentos. Uma hipótese que Manuel Mota não afastou.
“Abrir capital é uma possibilidade. É uma coisa que estamos a considerar. Tivemos aproximações nesse sentido”, admitiu Manuel Mota, administrador da empresa, durante o Capital Markets Day, em que foi apresentado o plano estratégico para 2026-2030.
O gestor salientou mais tarde, à margem do evento, que “não existe nenhum compromisso nesse sentido” e que “não está no plano estratégico”. “Perguntaram-me se nós considerávamos abrir, depende das propostas que nos façam”, acrescentou.
Venezuela volta ao radar
A mineração integra a área de “recursos naturais” da Mota-Engil, onde cabem ainda os serviços para a exploração de petróleo, onde a empresa vê um elevado potencial de crescimento. Já opera no Brasil, Angola e Nigéria, com contratos de manutenção ou mesmo construção de infraestruturas, onde se inclui um projeto de 700 milhões de euros para a Petrobras no Rio de Janeiro.
E está a olhar para outros países, como a Guiana, o Suriname e até a Venezuela, agora que os Estados Unidos assumiram o controlo da exploração petrolífera.
“Com as mudanças que há, existe a possibilidade de a Venezuela voltar a ser um mercado. Deixou de contratar, deixou de fazer. É uma economia que em termos de produção de petróleo caiu significativamente. Abrindo o mercado, acho que faz sentido olhar“, afirma Manuel Mota.
O plano estratégico, denominado “Focus 2030”, tem como objetivos levar o volume de negócios dos 5,3 mil milhões para os 9 mil milhões de euros, chegar a 360 milhões de euros de resultado líquido (4% de margem líquida) e manter a margem EBITDA acima dos 18%.
O CEO, Carlos Mota Santos, afirmou que a área de engenharia e construção vai continuar a ser o principal “motor de crescimento”. “Além de ser uma atividade absolutamente crítica, continua a ser o dínamo também para os outros negócios”.
O CEO, Carlos Mota Santos, afirmou que a área de engenharia e construção vai continuar a ser o principal “motor de crescimento”.
“Além de ser uma atividade absolutamente crítica, continua a ser o dínamo também para os outros negócios”. Para as outras três áreas – concessões, circularidade e recursos naturais –, o gestor antecipa um equilíbrio. Em termos de regiões, Europa, África e América Latina deverão ter contributos semelhantes, mas Carlos Mota Santos. Sobre a última, salienta “um polo muito forte que é o México e outro polo muito forte que queremos sobressair nos próximos anos que é o Brasil”.
As ações da Mota-Engil subiram 4,6% na sessão de ontem, reagindo à apresentação do plano de investimento, e quadruplicaram de valor desde o início de 2023. A empresa está avaliada em 1,74 mil milhões de euros. Manuel Mota considera que continua “bastante subvalorizada”.
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