Exclusivo Optimal assegura proteção balística da NRP Escorpião e tem projeto “embrionário” para sistema de defesa anti-drone
A empresa nacional, que atua na área dos compósitos, produziu em 2025 a fuselagem de mais de 3.000 drones e aposta na defesa, setor onde já atua na proteção balística ou munições.

A Optimal Group ganhou o concurso da Marinha Portuguesa para instalar proteção balística na lancha de fiscalização NRP Escorpião, o primeiro passo para a expansão da solução de proteção balística em compósitos da empresa portuguesa no setor da Defesa. Depois da produção de fuselagem de drones, o grupo tem planos para a oferta de um produto chave na mão e ainda, em fase “embrionária”, um projeto de um sistema de defesa anti-aérea. Com cerca de 100 trabalhadores e cinco unidades de produção, a Optimal Group faturou 15 milhões no ano passado.
O projeto com a Marinha Portuguesa arrancou no ano passado, após ganharem um concurso para proteções balísticas para as metralhadoras Browning da NRP Escorpião. Ao concurso — num montante de 29.334,59 euros, em que 23.849,26 euros correspondem ao valor do fornecimento — concorreram a Shamrock e a BeyondComposite, tendo sido ganho pela Optimal Structural Solutions, empresa do grupo, segundo informação publicada no Portal Base.
“Conseguimos chegar a uma solução que teve tração no mercado, tanto que nós fomos a primeira empresa portuguesa a ganhar um concurso com a Marinha Portuguesa, a nível de produção balística”, destaca Guilherme Bastos, responsável comercial do Optimal Group.
O grupo, que produz peças em compósitos para setores que vão desde o automóvel ao aeroespacial, está há vários anos a desenvolver atividade no setor de Defesa, e vê neste contrato com a Marinha Portuguesa um potencial impulsionador deste segmento de negócio.
Já estamos a fazer a instalação [de proteção balística] num navio da Marinha portuguesa, num contrato comercial, e estamos a discutir várias propostas, quer a nível nacional, quer europeu.
Depois da aplicação dos painéis de proteção balística na NRP Escorpião, o próximo passo poderá passar pela aplicação da solução “aos restantes navios da classe, ou até mesmo ir para navios de classes superiores e até inferiores”, admite João Carvalho. “É um contrato que nos permite demonstrar que [a solução] está em utilização, já no mercado e tem-nos trazido até bastante relevância a nível internacional”, acrescenta o responsável pela área de inovação e defesa da Optimal Group.
“É muito bem visto esta colaboração com a Marinha — colaboração no sentido mais lato da palavra, porque não deixa de ser um contrato público —, tem-nos permitido demonstrar que temos capacidade para investigar, desenvolver, integrar, operacionalizar toda a cadeia e colocar mesmo em operação”, destaca.
“Neste momento, já estamos a fazer a instalação [de proteção balística] num navio da Marinha portuguesa, num contrato comercial, e estamos a discutir várias propostas, quer a nível nacional, quer europeu”, frisa. Nas “próximas semanas vamos estar a montar” os painéis na lancha de fiscalização.
Solução agnóstica à plataforma
A solução de painéis de proteção balística pode aplicar-se a navios, mas não só. “A plataforma para nós é completamente agnóstica. Só não pode ser, neste momento, para proteção pessoal, entenda-se coletes”, diz João Carvalho. E explica porquê.
“Não só porque as nossas soluções são rígidas, a proteção de colete tipicamente é maleável e é mais indústria têxtil do que propriamente de compósitos, e há certos níveis de deformação que são muito importantes atingir. Enquanto numa viatura podemos ter deformações com 20-40 milímetros por trás [do painel após impacto da munição], na proteção pessoal isso não é possível. E isso limita muito o tipo de soluções que oferecemos”, justifica.

Habitualmente, são usados materiais como metal na proteção balística. A da Optimal é feita por compósitos “para atingir a mesma performance de proteção, só que é mais leve”, destaca Guilherme Bastos. “Numa viatura, num tanque de guerra, num helicóptero, ou em alguma coisa que exija produção balística, ter uma solução mais leve, faz com que aquele meio se torne mais versátil, consuma menos combustível”, realça o responsável comercial.
A solução tem ainda outra “vantagem competitiva”. Guilherme Bastos explica. “A maioria das empresas que fazem produção balística faz chapas planas. Por exemplo, numa viatura, precisa colocar proteção na porta: abrem a porta e colocam a chapa. Pelo fato de termos aqui expertise ao nível de geometrias, numa porta cheia de geometria, conseguimos acompanhar isso com a proteção balística e isso nos traz uma vantagem competitiva”, descreve.
A solução cumpre os requisitos STANAG, um standard NATO que define os níveis de proteção balísticas para os ocupantes de veículos blindados. O standard vai de um a seis níveis de proteção, sendo que o primeiro é proteção “à arma mais corriqueira dos soldados, a arma NATO, o dois é o equivalente a uma Kalashnikov já com capacidade perfurante, perfurante e incendiária, três é o equivalente a uma sniper rifle, o quatro já será uma semiautomática em cima dos tanques, o quinto é munição de helicóptero e o seis de avião”, descreve João Carvalho. Neste momento, a Optimal tem soluções que vão até ao nível quatro.

“Só oferecemos soluções testadas, certificadas e que conseguimos garantir que ninguém vai realmente sofrer dano. Isto é um produto que protege vidas e não podemos cut corners“, reforça o responsável pela área de inovação e defesa do grupo
Para isso, a Optimal faz a sua testagem/certificação em laboratórios independentes. “Isso hoje em França ou Inglaterra. Levamos o nosso material e eles fazem uma sessão de tiros que seguem o standard, depois de validado, temos um certificado de que a nossa solução está apta para que o cliente possa utilizar”, explica Guilherme Bastos.
Produzir drones e no futuro… rockets
O trabalho na área de proteção balística para o setor de defesa começou em 2019-2020, mas não só. Começaram a entrar no setor dos drones que, a partir de 2022, com a guerra da Ucrânia registou um boom na procura. Ao nível dos drones, “fornecemos Estados Unidos, a Europa toda, porque toda a gente compra dos mesmos modelos, praticamente”, refere João Carvalho.
“No ano passado produzimos mais de três mil fuselagens completas para drones, para cinco clientes globais, sendo três militares e dois civis”, adianta Guilherme Bastos, sem adiantar nomes por questões de confidencialidade. Mas, se até agora a ação do grupo estava na entrega de fuselagem dos drones, há planos para dar um novo passo.
“Temos alguns protótipos, numa fase de desenvolvimento e produção, para ter produtos, mas que não concorrem com esses clientes, justamente para ter produtos chave na mão que complementem” a oferta, explica o responsável comercial do grupo.
“Muita procura que vem, por exemplo, da Ucrânia, alguma os nossos clientes já conseguem atender, mas tem outra que os nossos clientes não fazem — nem têm interesse em fazer — e nós pensamos: ‘já temos todo o know-how a nível de produção, da fuselagem, por que não ter uma solução Optimal’?, justifica Guilherme Bastos, não adiantando ainda uma data para a entrega desse produto.
O que estamos a querer desenvolver é intercetores de alta velocidade para a defesa, por exemplo, anti-aéria. Estamos a falar de coisas com um custo relativamente controlado. A ideia não é fazer rockets de milhões, porque aí a MBDA e outros players europeus e americanos fazem-nos já há décadas, mas tentar entrar no mercado com um produto que seja mais competitivo, essencialmente, anti-drone.
Outra das áreas em que o grupo está a trabalhar na Defesa é ao nível de munições para artilharia. “Aí, quer no lado das plataformas, quer no lado das munições, os compósitos estão tradicionalmente fora. É tudo muito indústria de metal pesado, e começámos a entrar e a tentar desmistificar um pouco esta visão”, relata João Carvalho.
Neste segmento de “munições de grande calibre, estamos neste momento a trabalhar — não diria fornecer, não é um contrato comercial, porque eles não mudam as cadeias de fornecimento para novas — com França e com a Alemanha”, refere o responsável de inovação e defesa.
O passo seguinte é o desenvolvimento de um produto no setor dos rockets. “Do ponto de vista do produto completo, o que estamos a querer desenvolver é intercetores de alta velocidade para a defesa, por exemplo, anti-aéria. Estamos a falar de coisas com um custo relativamente controlado. A ideia não é fazer rockets de milhões, porque aí a MBDA e outros players europeus e americanos fazem-nos já há décadas, mas tentar entrar no mercado com um produto que seja mais competitivo, essencialmente, anti-drone, um dos grandes desafios, neste momento, na Ucrânia e no Médio Oriente, e que cada vez vai ser mais. É aí que estamos a querer focar este nosso desenvolvimento”, explica José Carvalho.
O projeto está ainda numa fase “embrionária”. “Passamos aqueles testes no ARTex [exercício operacional do Exército Português], no REPMUS [exercício operacional da Marinha Portuguesa], e agora estamos num processo mais interno de repensar o design, repensar aquilo que tínhamos. Vamos dar um passo atrás, redesenhar tudo para poder transformar num produto acabado”, aponta. Por isso, ainda “vai levar uns anos” até colocar um produto final cá fora.
Num momento em que na Europa o foco tem sido o reequipamento das Forças Armadas, com Bruxelas a avançar com pacotes de financiamento como o programa de empréstimos SAFE no qual Portugal garantiu uma fatia de 5,8 mil milhões de euros — o primeiro cheque de 876 milhões vai chegar em março —, o foco comercial da empresa para a venda das suas soluções tem destinatários específicos.
“No setor da defesa, temos olhado muito, de uma maneira bastante plural, para todos os players que estão a querer trabalhar com Portugal”, adianta Guilherme Bastos.
“Estamos neste momento a falar com players alemães, franceses e austríacos” com estes dois últimos em fases de conversações mais avançadas, diz o responsável comercial, sem referir nomes.
Comercializar o ‘trator do mar’ da Marinha
A instalação da proteção balística no NRP Escorpião não é o único projeto recente que a companhia desenvolveu para a Marinha. O grupo esteve também envolvido na produção da estrutura do ‘Trator do Mar’, um drone de superfície, tendo já sido entregue quatro unidades.
“O projeto correu muito bem com a Marinha Portuguesa. Nós, como é algo que nós fizemos para a Marinha, pedimos autorização para fazer uma pequena maquete dessa embarcação para levar às feiras. E temos vindo a ser abordados por muitas entidades em feiras na perspetiva de terem uma plataforma onde vão colocar sistemas deles”, conta António Reis, CEO da Optimal Group. Identificámos na altura “cinco potenciais clientes”.

Desafiamos a Marinha a explorar isto em conjunto, a chegar a “um acordo, seja um sistema de royalties ou comprarmos o IP, estávamos basicamente abertos a qualquer solução que permitisse comercializar o produto, tendo em vista criar valor para nós, para a Marinha e para Portugal”, relata o CEO da Optimal.
“Estamos a falar sobre isso e ainda não se materializou. Sabemos que é uma ambição da Marinha que alguns dos produtos que se lá se desenvolvem sejam comercializados e industrializados para irem para o mercado e, para isso, a Marinha procura parceiros”, diz. “Continuamos disponíveis para isso, se vai acontecer ou não depende da Marinha, mas o nosso interesse mantém-se.”
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