Endometriose, a doença silenciosa responsável por quase 50% dos casos de infertilidade nas mulheres

  • Servimedia
  • 13 Março 2026

A endometriose é uma doença crónica, progressiva e incapacitante que afeta entre 10 % e 15 % da população feminina.

Longe de ser uma patologia minoritária, estima-se que afete mais de dois milhões de mulheres em Espanha e, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva sofre desta doença.

Os seus principais sintomas são menstruações incapacitantes e dor pélvica crónica. No entanto, o impacto vai muito além do sofrimento físico. A endometriose compromete diretamente a fertilidade feminina: estima-se que possa estar implicada em até 50% dos casos de infertilidade e aumente o risco de complicações gestacionais, como a pré-eclâmpsia ou o aborto espontâneo.

Apesar desta elevada prevalência, continua a ser subdiagnosticada. O tempo médio até se obter um diagnóstico ronda os nove anos. Um período em que muitas pacientes podem chegar a consultar até cinco profissionais diferentes — cuidados de saúde primários, ginecologia e outras especialidades — antes de receberem uma confirmação clara.

Este atraso no diagnóstico prolonga o sofrimento físico e emocional das pacientes e pode comprometer progressivamente a reserva ovariana e a capacidade reprodutiva da mulher, especialmente quando a doença avança sem tratamento.

DIAGNÓSTICO PRECOCE

Os especialistas insistem na necessidade de um diagnóstico precoce e de uma abordagem integral desde as primeiras suspeitas clínicas. Identificá-la nas fases iniciais permite controlar melhor a sua progressão e, quando necessário, planear a preservação da fertilidade. Como explica a doutora María de Matías Martínez, chefe adjunta do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Universitário Rey Juan Carlos, «a endometriose não apresenta sinais patognomónicos ou específicos, pelo que o diagnóstico é feito tardiamente. Embora existam alguns sintomas, como uma dismenorreia intensa que não cede com a medicação habitual, entre outros, que nos devem levar a consultar um especialista».

Em mulheres jovens com endometriose ou com risco de deterioração ovariana, a vitrificação de oócitos pode tornar-se uma ferramenta fundamental para preservar as suas opções reprodutivas futuras. Como esclarece o Dr. Manuel Albi, chefe do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia dos hospitais universitários Fundación Jiménez Díaz, Rey Juan Carlos, Infanta Elena e General de Villalba, e chefe do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Universitário La Luz, «a endometriose afeta a fertilidade devido a aderências, alterações anatómicas e pior qualidade dos oócitos. Afeta a reserva ovariana ao destruir tecido ovariano saudável por meio da inflamação. Por isso, a vitrificação de oócitos é uma estratégia de preservação da fertilidade recomendada em mulheres com endometriose, especialmente antes de cirurgias ováricas ou se a doença for progressiva. Tendo sempre em conta que em mulheres com menos de 35 anos se alcançam altas taxas de sucesso”.

Uma abordagem preventiva que se revela especialmente relevante num contexto social marcado pelo adiamento progressivo da maternidade, uma vez que a doença pode evoluir silenciosamente durante anos.

INVESTIGAÇÃO

Paralelamente aos avanços clínicos, a investigação científica está a centrar-se no papel da inflamação crónica e das alterações metabólicas na saúde endometrial. Não se trata apenas de uma doença ginecológica, mas de um processo complexo no qual intervêm fatores hormonais, imunológicos e metabólicos que podem influenciar tanto a sua evolução como o seu impacto na fertilidade.

Nesta linha, a ciência explora como o ambiente metabólico e o estado inflamatório podem modular a progressão de diferentes patologias do tecido endometrial. Estudos recentes, como o publicado na JAMA Network Open, observaram uma redução do risco de desenvolver cancro do endométrio em mulheres tratadas com agonistas do GLP-1 — medicamentos utilizados no tratamento da obesidade e da diabetes tipo 2.

Embora se trate de patologias distintas, estas descobertas reforçam a hipótese de que o ambiente metabólico pode desempenhar um papel relevante em diversas alterações do tecido endometrial, incluindo a endometriose. Integrar novas linhas de investigação com uma abordagem multidisciplinar permite melhorar o tratamento e aproximar-se de uma assistência mais precoce, personalizada e focada nas necessidades reais de cada paciente.

A Dra. Marta Romero, especialista em Medicina Interna da Unidade de Insuficiência Reprodutiva do IVI Madrid, explica que estas descobertas «abrem uma importante via de interesse, mas não substituem, em caso algum, o diagnóstico precoce nem a abordagem ginecológica adequada da endometriose, embora possam tornar-se uma ferramenta complementar em pacientes selecionadas». Neste sentido, a Dra. Moreno não os define como uma pílula mágica, «mas sim como uma opção terapêutica muito valiosa quando existe uma indicação clara, no âmbito de uma abordagem integral que inclua diagnóstico precoce, planeamento reprodutivo e controlo metabólico personalizado».

Num cenário em que a endometriose continua a ser diagnosticada tardiamente e a condicionar a qualidade de vida e a fertilidade de milhões de mulheres, avançar na compreensão dos fatores inflamatórios e metabólicos associados à saúde endometrial surge como uma das chaves para transformar a sua abordagem nos próximos anos. Quebrar o silêncio, reduzir os tempos de diagnóstico e apostar em estratégias personalizadas continua a ser o grande desafio pendente face a uma doença que continua a marcar o projeto reprodutivo de milhões de mulheres.

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