Kristin: Tensão entre autarca de Leiria e Governo prossegue. Nuno Melo é o novo interveniente

Câmara de Leiria responde a Nuno Melo, depois de ministro levar conversas de Whatsapp ao Parlamento. Um episódio mais numa troca de palavras que inclui "pequena política" e um "jardim zoológico"

A intervenção da Força Aérea logo após a passagem da depressão Kristin é o mais recente capítulo de uma acesa troca de palavras entre Gonçalo Lopes e elementos do Governo, e à qual se junta nesta sexta-feira o PSD em defesa do Executivo da AD. ESTELA SILVA/LUSAESTELA SILVA/LUSA

A relação conturbada entre o presidente da Câmara de Leiria e o Governo de Luís Montenegro tem novo capítulo desde esta quinta-feira, quando o ministro da Defesa, Nuno Melo veio acusar Gonçalo Lopes de “pequena política”.

Interpelado pelo seu colega de partido João Almeida, o governante veio mostrar uma folha impressa com cópia da conversa com Gonçalo Lopes, para esclarecer se ligou ou não ao autarca após a passagem da depressão Kristin. Nuno Melo fez uma compilação das medidas propostas pelas Forças Armadas e recusadas pela autarquia. Já na manhã desta sexta-feira, a Câmara de Leiria veio responder, em comunicado, ao qual respondeu a distrital do PSD de Leiria com outro comunicado.

Na folha A4 mostrada no Parlamento, com as conversas trocadas por Whatsapp com Gonçalo Lopes no dia 29, prova-se, segundo o ministro, que Gonçalo Lopes ligou a Melo, mas este não atendeu, por estar a voar desde a Turquia. Assim que o avião de Melo aterrou, a primeira pessoa a quem ligou foi ao autarca socialista, mas este “não atendeu”, assegura Nuno Melo.

Leiria não quer discutir telefonemas quando ainda há leirienses sem comunicações. Queremos união e recursos para construir o concelho e quero agradecer às Forças Armadas pela elevação institucional e pelo trabalho exemplar que fizeram no terreno

Gonçalo Lopes

Presidente da Câmara Municipal de Leiria

Já nesta sexta-feira, o autarca socialista veio esclarecer, em declarações à Lusa, que “Leiria não quer discutir telefonemas quando ainda há leirienses sem comunicações. Queremos união e recursos para construir o concelho e quero agradecer às Forças Armadas pela elevação institucional e pelo trabalho exemplar que fizeram no terreno”.

A distrital do PSD de Leiria demorou menos de duas horas a escrever que o autarca, que é também o líder da Federação Distrital socialista de Leiria, optou por um “discurso de natureza marcadamente partidária e de afirmação pessoal”.

O presidente da Câmara Municipal de Leiria, Gonçalo Lopes, durante a remoção de detritos provocados pela passagem da depressão Kristin, no centro da cidade de Leiria, 31 janeiro 2026. MANUEL DE ALMEIDA/LUSAMANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Esta não é a primeira vez que existe atrito entre o autarca socialista Gonçalo Lopes e elementos do Governo da AD. Depois de, nas primeiras duas semanas, ter criticado os governantes e outros políticos de Lisboa, assinalando o “carrossel de pessoas a vir a Leiria como se um jardim zoológico se tratasse” e dizendo que “se isto tivesse acontecido na casa de quem nos governa, a resposta teria sido mais rápida e se calhar teria sido outra”, Gonçalo Lopes até já admitiu que talvez não tenha sido feliz na primeira afirmação.

Miguel Pinto Luz, colega de Nuno Melo no Governo, afirmou, a esse propósito, entender “o momento crítico que os senhores autarcas estão a viver, e muitas vezes o coração está junto à boca”.

A 27 de fevereiro, o autarca denunciou, em entrevista à Lusa, o que considera ser um atirar de responsabilidades do Governo para as autarquias quando se faz depender a entrega dos valores de apoios às populações de auditorias realizadas pelas autarquias nas habitações.

Entretanto, o ministro da Economia e Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, falando nas jornadas parlamentares do PSD em Viana do Castelo, veio atirar para os municípios as responsabilidades pelo atraso no pagamento de indemnizações: “Temos 25 mil candidaturas a apoios, no valor de 143 milhões de euros, e o dinheiro que chegou às mãos das pessoas ainda é muito pouco. Porquê? Porque está a demorar o processo de avaliação a cargo das Câmaras Municipais”, afirmou Castro Almeida.

O Ministro da Presidência, António Leitão Amaro (C-R), acompanhado pelo Comissário Europeu da Energia e Habitação, Dan Joergensen (C), e pela Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho (C-L), visita as zonas afetadas pela tempestade Kristin a 30 de janeiro de 2026. CARLOS BARROSO/LUSACARLOS BARROSO/LUSA

Gonçalo Lopes não perdeu tempo e, em declarações à agência noticiosa, foi contundente: “Eu acho que há um profundo desconhecimento por parte do ministro daquilo que tem sido o esforço dos municípios, não só no período da calamidade, como se ficou a perceber bem, mas agora nesta fase de pós-calamidade. Não conseguiu ainda percecionar aquilo que tem sido feito e as condições em que tem sido feito”. O autarca socialista prosseguiu: “Esse tipo de atitude que o Governo insiste em concretizar, que é apresentar soluções milagrosas sem as prever antecipadamente, cria, para quem está no terreno a resolver, uma necessidade de fazer um esforço tremendo para gerir expectativas elevadas que foram criadas por anúncios indevidamente preparados, refletidos e articulados com as autarquias”.

Temos 25 mil candidaturas a apoios, no valor de 143 milhões de euros, e o dinheiro que chegou às mãos das pessoas ainda é muito pouco. Porquê? Porque está a demorar o processo de avaliação a cargo das Câmaras Municipais.

Manuel Castro Almeida

Ministro da Economia e da Coesão Territorial

Ao autarca de Leiria juntou-se, no mesmo tom, a Comunidade Intermunicipal (CIM) de Leiria, liderada por um autarca social-democrata, Jorge Vala, de Porto de Mós: “A CIM considera profundamente injusta e desleal a tentativa de imputar às autarquias responsabilidades por atrasos num processo cujas regras, estrutura e modelo de funcionamento foram definidos, unilateralmente, pelo Governo”.

Já este mês, Gonçalo Lopes, falando no podcast Perguntar Não Ofende, de Daniel Oliveira, criticou o Governo por não ter acionado os meios europeus. “Acionavam os mecanismos e vinham mais geradores, vinham reparar redes. Escusávamos de ter dado uma dose louca de sacrifício a um povo. Parece que estávamos de castigo”.

Nuno Melo levantou de novo a temperatura

No rastilho para mais um episódio da troca de acusações entre autarca e Governo, Nuno Melo fez, na audição no Parlamento desta quinta-feira, uma resenha das propostas de ajuda a Leiria, que, assegura, não foram aceites: a 1 e 2 de janeiro, recusou drones aéreos, a 3 recusou uma cozinha de campanha e mais de 90 elementos da Marinha, os quais, perante a dispensa em Leiria, seguiram para concelhos vizinhos. O município recebeu as nove camas de campanha requisitadas, assegurou Nuno Melo.

A 29 de janeiro, dia em que Nuno Melo regressou da Turquia, o chefe do Governo esteve em Leiria ao lado do presidente da Câmara, que o ministro da Defesa acusa de não ter atendido o seu telefonemaHugo Amaral/ECO

Já nesta sexta-feira, a Câmara Municipal de Leiria, num comunicado, vem dizer que “na sequência das declarações esta quinta-feira proferidas pelo senhor ministro da Defesa Nacional na Assembleia da República, o Município de Leiria considera importante esclarecer, com rigor factual, a sequência de acontecimentos ocorrida durante os dias mais críticos da tempestade Kristin”.

Logo no dia da ocorrência, 28 de janeiro, foi instalado um posto de comando no município, estabelecida “coordenação operacional com todas as entidades de proteção e socorro” e fornecidas refeições “a operacionais e militares” no Seminário de Leiria.

O contacto com as unidades militares sediadas no concelho, uma prerrogativa que Nuno Melo salientou pertencer aos municípios, ocorreu a 28 e 29, explica a autarquia. “Esses contactos tiveram como objetivo avaliar a possibilidade de mobilização de meios militares”, mas, “devido aos danos provocados pela tempestade nas próprias instalações militares e às dificuldades de comunicação registadas nesses dias, não foi possível mobilizar meios dessas unidades” – como o ECO/Local Online verificou no próprio dia 29 durante a reportagem por Leiria e Marinha Grande, na Base Aérea de Monte Real havia edifícios destelhados e quedas de árvores, e havia militares a movimentarem-se em torno desses danos.

Destroços junto à Base Aérea Nº 5 (BA5) Monte Real, após a passagem da depressão Kristin, Leiria, 29 de janeiro de 2026. No dia em que o ECO/Local Online esteve em reportagem na Marinha Grande e em Leiria, os militares da Base Aérea procediam a limpezas e reparação de telhados CARLOS BARROSO/LUSACARLOS BARROSO/LUSA

Sem assinalar a data em concreto, o comunicado da autarquia refere que “desde os primeiros dias da operação” a Marinha chegou ao território, “através de fuzileiros, mobilizados na sequência de contacto direto entre o Estado-Maior da Armada e o Município de Leiria”.

Sobre a presença de militares para vigilância aos geradores distribuídos pelo território (e que chegaram a ser alvo de tentativa, ou mesmo efetivação, de roubo em mais que um município), que Nuno Melo diz ter sido recusada, a autarquia refere que a 1 e 2 de janeiro “o dispositivo operacional entendeu não ser necessário esse reforço, uma vez que PSP e GNR tinham sido reforçadas desde 29 de janeiro e mantinham capacidade de resposta no concelho”. Esses militares “poderiam ser úteis” noutro lado, refere o comunicado do Executivo de Gonçalo Lopes.

A 2 de fevereiro, como tinha dito o ministro da Defesa, os drones aéreos foram recusados. Nesse momento, esclarece a Câmara, “o dispositivo já dispunha de meios próprios e equipamentos da Unidade Especial de Proteção e Socorro da GNR, pelo que essa capacidade adicional não foi considerada necessária nesse dia, tendo vindo a ser utilizada posteriormente”.

Que o senhor presidente da Câmara de Leiria se tenha empenhado, também não fez mais do que é suposto. Agora, que para enaltecer o seu próprio esforço, não tenha resistido a apoucar repetidamente alguns daqueles que mais o ajudaram, isso é que não parece bem.

Nuno Melo

Ministro da Defesa Nacional

A 3 de fevereiro, considerou-se em Leiria que a cozinha de campanha era desnecessária. “Desde 28 de janeiro, o Município assegurava o fornecimento regular de refeições a operacionais e militares nas instalações do Seminário de Leiria, sem qualquer constrangimento logístico”, esclarece o comunicado do Executivo leiriense, salientando que os próprios militares mobilizados para este concelho e outros vizinhos usavam esse serviço para as suas refeições.

Ainda a 3 de fevereiro, terça-feira, seis dias após a tempestade, a autarquia recusou a oferta de 90 militares da Marinha porque “o dispositivo já contava com cerca de 90 fuzileiros integrados nas operações, inseridos num contingente global superior a 700 operacionais no terreno”. Uma vez mais, a autarquia entendeu que “esse reforço poderia ser mais útil noutros concelhos afetados, o que veio a acontecer”.

Na fita do tempo detalhada pela autarquia, refere-se que “os meios militares que vieram a ser empenhados entraram num concelho onde o dispositivo de coordenação já se encontrava plenamente montado e em funcionamento, com Posto de Comando ativo, comunicações estabelecidas e capacidade logística assegurada pelo Município, incluindo combustível, alimentação e equipamentos disponibilizados para apoio às missões que vieram a ser executadas”.

Os destroços de um bar na Praia da Vieira, concelho da Marinha Grande, espelha a força da tempestade Kristin. Parte do contingente e meios oferecidos pelas Forças Armadas a Leiria foram dispensados para poderem acudir às necessidades de outros municípios, alega a Cãmara de LeiriaHugo Amaral/ECO

O comunicado do município socialista fecha com a garantia da existência de “articulação permanente” com as Forças Armadas, assinala ser público o reconhecimento dado, “reafirma o profundo respeito institucional” e diz que “o essencial deve permanecer na cooperação institucional que sempre caracterizou a resposta a esta emergência”.

Especificamente sobre as palavras depreciativas de Nuno Melo, o autarca de Leiria, que nunca é citado no comunicado, não se manifesta neste. De recordar o que o ministro afirmou, no Parlamento: “que o senhor presidente da Câmara de Leiria se tenha empenhado, também não fez mais do que é suposto. Agora, que para enaltecer o seu próprio esforço não tenha resistido a apoucar repetidamente alguns daqueles que mais o ajudaram, isso é que não parece bem. Porque nos grandes momentos a pequena política não pode prevalecer sobre aquilo que é mais relevante”.

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