Países já apelam à redução do consumo de combustíveis. Conheça os possíveis contra-ataques à escassez

Já há países a apelar a uma redução do uso de combustíveis, para prevenir a escassez de petróleo. Saiba que medidas são aconselhadas pela AIE para controlar a procura.

A libertação de reservas de petróleo não é a única arma que os países membros da Agência Internacional de Energia têm no menu para combater os receios de escassez e de aumento dos preços do petróleo, no contexto de conflito no Médio Oriente. As restrições ao consumo são outra delas, que já está a ser aplicada em alguns países asiáticos, e cujo ‘eco’ já chegou à Dinamarca. Conheça o que está a ser feito e que restrições são sugeridas pela AIE em situações de aperto energético.

“O que os dinamarqueses devem, por favor, por favor, por favor, fazer é: se houver algum consumo de energia de que possam abdicar, se não for estritamente necessário pegar no carro, então não o façam”, apelou o ministro Clima, Energia e Serviços Públicos da Dinamarca, Lars Aagaard, esta quinta-feira, numa entrevista a uma rádio local, citado pela CNBC.

"O que os dinamarqueses devem, por favor, por favor, por favor, fazer é: se houver algum consumo de energia de que possam abdicar, se não for estritamente necessário pegar no carro, então não o façam.”

Lars Aagaard

Ministro Clima, Energia e Serviços Públicos da Dinamarca

Estas declarações são feitas num contexto de preocupações com uma escassez iminente de produtos petrolíferos, na sequência do ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão. E não é o primeiro apelo a ressoar desde que o conflito no Médio Oriente começou. No Vietname, o ministro da Indústria e Comércio pediu que as empresas adotassem trabalho remoto quando possível, de forma também a reduzir o movimento em transportes individuais, as Filipinas implementaram uma semana de trabalho de quatro dias em algumas das agências governamentais, e uma associação automóvel do Reino Unido (AA UK) também pediu que os condutores eliminassem as deslocações “não essenciais”.

Estes apelos acontecem porque o conflito no Médio Oriente afetou a circulação no Estreito de Ormuz, que é controlado pelo Irão. Este estreito é uma artéria vital para a circulação de ouro negro no mundo: uma média de 20 milhões de barris por dia de petróleo bruto e de produtos petrolíferos transitou por este estreito em 2025, o que representa cerca de 25% do comércio mundial de petróleo por via marítima, de acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE). Ao mesmo tempo, a AIE frisa que “as alternativas para que os fluxos de petróleo contornem o Estreito de Ormuz são limitadas”.

E os entraves à circulação do petróleo causam dois receios: por um lado, o impacto que pode ter na segurança de abastecimento a nível global, e por outro a subida dos preços do ouro negro e seus derivados, que se sente muito diretamente na carteira dos consumidores e, indiretamente, na inflação.

Uma das respostas mais significativas foi anunciada esta quarta-feira: os 32 países que são membros da AIE concordaram libertar um recorde de reservas de petróleo – 400 milhões de barris, mais do dobro do último recorde – de forma a contrariar a escassez e a subida de preços. Uma ação coordenada que ainda não tem um momento definido. A arma está carregada, mas não foi disparada. A AIE prevê a criação de reservas de petróleo, por parte dos respetivos membros, equivalentes a 90 dias de importações líquidas, e na sequência do grande choque petrolífero dos anos 70. “Garantir a segurança energética tem estado no centro da missão da AIE desde a sua criação em 1974, na sequência da crise do petróleo de 1973”, afirma a entidade.

Na mesma comunicação, a AIE avança quatro outras medidas às quais os países podem recorrer em situações de aperto, “para mitigar os impactos de uma disrupção da oferta de petróleo”. A primeira hipótese levantada são as “medidas de restrição da procura”. Estas, explica a agência, podem ter intensidades diferentes. Numa abordagem mais ligeira, como a adotada na Dinamarca, podem passar por campanhas de informação pública que promovam reduções voluntárias, Contudo, também podem ser postos em cima da mesa cenários de restrições à circulação automóvel ou racionamento de combustível.

As economias avançadas representam quase metade da procura global de petróleo e muitas delas, são obrigadas, enquanto membros da AIE, a ter planos de restrição da procura de petróleo prontos como parte das suas medidas de resposta a emergências, lê-se no site da agência internacional.

Dos domingos sem carros ao corte nas viagens de negócios

O último ‘aperto energético’ sentido na União Europeia não está muito distante: aconteceu em 2022 e 2023, na sequência da invasão da Rússia à Ucrânia. Foi precisamente a 18 de março de 2022 que a agência internacional divulgou “um plano de 10 pontos” com propostas de ações de restrição de consumo que permitem amenizar o impacto das disrupções. “Podem alcançar reduções significativas na procura de petróleo numa questão de meses”, promete a AIE. Aliás: se totalmente implementadas nas economias avançadas, a procura por petróleo diminuiria em 2,7 milhões de barris por dia no espaço de quatro meses, o equivalente à procura de todos os automóveis na China.

O plano, uma vez que a maioria da procura de petróleo provém do setor dos transportes, concentra-se em formas de utilizar menos petróleo para a deslocação de pessoas e bens. E não se esgotam na atuação dos governos nacionais: também governos regionais e locais podem promover a respetiva implementação, ou serem adotadas voluntariamente por cidadãos e empresas. As medidas são as seguintes:

  1. Reduzir os limites de velocidade nas autoestradas em pelo menos 10 quilómetros por hora. Poupa cerca de 290 milhares de barris por dia (mb/d) de consumo de petróleo nos automóveis e 140 mb/d nos camiões.
  2. Teletrabalho até três dias por semana, sempre que possível. Um dia por semana poupa cerca de 170 mb/d. Três dias poupam cerca de 500 mb/d.
  3. Domingos sem carros nas cidades. Todos os domingos poupam cerca de 380 mb/d. Um domingo por mês poupa 95 mb/d.
  4. Tornar o uso de transportes públicos mais barato e incentivar deslocações a pé e de bicicleta. Poupa cerca de 330 mb/d.
  5. Alternar o acesso de carros particulares às estradas nas grandes cidades (sistema de rodízio). No fundo, criar critérios para limitar a circulação de determinados carros em determinados dias. Poupa cerca de 210 mb/d.
  6. Aumentar a partilha de carros e adotar práticas para reduzir o consumo de combustível. Poupa cerca de 470 mb/d.
  7. Promover a condução eficiente em camiões de mercadorias e na entrega de bens. Poupa cerca de 320 mb/d.
  8. Utilizar comboios de alta velocidade e noturnos em vez de aviões, sempre que possível. Poupa cerca de 40 mb/d.
  9. Evitar viagens aéreas de negócios sempre que existam opções alternativas. Poupa cerca de 260 mb/d.
  10. Reforçar a adoção de veículos elétricos e mais eficientes. Poupa cerca de 100 mb/d.

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