“Somos o país com o maior crescimento em estrelas Michelin. Turismo de Portugal devia comunicar isso no estrangeiro”

Lina Santos,

Rui Silvestre ganhou a segunda estrela Michelin, Francisco Quintas é um dos mais jovens chefs portugueses à frente de um restaurante estrelado. O que quer dizer este prémio?

Rui Silvestre, chef do Fifty Seconds

 

Com um olho na gala e outro no serviço. Foi assim a noite de terça-feira no Fifty Seconds, no topo da Torre Vasco da Gama, em Lisboa, a assistir à entrega de estrelas do Guia Michelin Portugal 2026. “A primeira pessoa que percebeu deu um grito um bocado alto no restaurante”. Depois partilharam entre todos e com os clientes, a boa notícia: o restaurante do grupo Sana acabava de ganhar a sua segunda estrela. No dia seguinte, Rui Silvestre e Leandro Lopes, chef do restaurante, voltaram da Madeira, onde decorreu a cerimónia, brindaram com a equipa e voltaram ao trabalho. “Temos de continuar a crescer e a evoluir”.

Mais responsabilidade doravante? “A responsabilidade tem a ver connosco e não com a Michelin, o guia não nos liga a dizer ‘portem-se bem’. A Michelin premeia os resultados conforme o desempenho no ano anterior e Fifty Seconds não é um restaurante onde as pessoas vão quando têm fome, é onde as pessoas vão para uma ocasião especial e ter um momento memorável”, nota o chef de Valongo, que viveu no Algarve a partir dos nove anos e formou-se na escola de hotelaria de Portimão.

O chef garante que nada muda com mais uma placa no restaurante – ainda que seja a de duas estrelas. “O maior impacto é sempre de zero estrelas para uma estrela e ainda não tivemos tempo para perceber. Também não estamos na melhor altura, estamos a viver um momento complicado no mundo. Aquilo que temos a certeza é que temos muitas reservas para as próximas semanas”.

O Fifty Seconds é o terceiro projeto estrelado do chef Rui Silvestre, depois dos algarvios Bon Bon, em Lagoa, e Vistas, em Portimão (ele próprio foi, em 2015, o mais jovem chef a vencer a distinção). Depois da primeira estrela, o número de clientes subiu 50% no primeiro restaurante e 80% no segundo. Com duas estrelas, Rui Silvestre diz que o caso é diferente.

“O tipo de cliente que vem para ter uma experiência diferente. Não é um iniciante, não é um curioso. Com uma estrela, aparecem muitos clientes curiosos e que vêm para celebrar; nas duas estrelas continuamos a ter estes clientes, mas temos aqueles que já sabem ao que vêm, que são conhecedores de vinhos e produtos e que já viajam muito para comer, que vêm de fora. Esta é a minha perceção tendo em conta o que o Guia diz. Uma estrela: vale a pena parar. Duas: Vale o desvio. Se um americano estiver em Madrid, vale a pena vir a Portugal”.

Na gala deste ano, 34 restaurantes portugueses entraram para a lista de recomendados, dois são BIb Gourmand e dez restaurantes ganharam a sua primeira estrela. Apenas o Fifty Seconds ascendeu às duas estrelas, ao lado dos oito que a ostentam.

Ao todo, 34 restaurantes portugueses entraram para a lista de recomendados, dois são BIb Gourmand e dez restaurantes ganharam a sua primeira estrela. Apenas o Fifty Seconds ascendeu às duas estrelas, ao lado dos oito que a ostentam.

Rui Silvestre, 40 anos diz que o número o faz pensar “que o futuro da gastronomia está assegurado”.

“A Michelin está a construir muito bem a base de uma pirâmide”, reflete, ao telefone com o ECO. “Gostava que Portugal tivesse um restaurante três estrelas, por mim devia acontecer… o ano passado, mas também consigo perceber que somos um país relativamente jovem na alta cozinha, uma grande percentagem não percebe o que fazemos. As pessoas continuam a achar que é passar fome e uma roubalheira. Temos de aprender também a educar os nossos filhos para que no futuro os restaurantes possam ter mais clientes”, nota.

“Acho que está a ser construída uma pirâmide para sustentar a alta gastronomia em Portugal. Os que têm uma vão ter duas. e quando essa metade da pirâmide estiver sólida haverá espaço para as três”.

O chef lança a ideia. “Portugal é o país do mundo com o maior crescimento de estrelas Michelin. É uma validação espectacular, devíamos usar isso como comunicação. O Turismo de Portugal devia comunicar isso no estrangeiro”.

“Daqui a cinco anos vamos ser muito maiores e precisamos disso para sermos reconhecidos. O Rui Paula, o José Avillez, o Henrique Sá Pessoa são porta-vozes da nossa gastronomia e quando tivermos um chef três estrelas também o será. Isso vai acontecer inevitavelmente”, diz.

“Temos a felicidade de sermos muito amigos a maior parte de nós. Quando subi ao palco, percebeu-se a felicidade de alguns deles porque sabem o quanto era importante, aturaram algumas horas de telefonemas ao longo do ano”. É um cenário também descrito por Francisco Santos, que venceu o prémio de Young Chef na gala Guia Michelin Portugal 2026.

“Estamos focados na satisfação do cliente e em trazer a melhor experiência possível”

A estrela confirmou-se também no Largo do Paço. Esta terça-feira, alguns clientes entraram num restaurante de fine dining, em Amarante, e saíram de um restaurante do Guia Michelin. Onze meses depois da reabertura, o espaço da Casa da Calçada recupera a mais importante distinção gastronómica e o seu chef, Francisco Quintas, converte-se num dos mais jovens chefs a consegui-lo, aos 27 anos.

Mal refeito da noite da gala de entrega das estrelas, que aconteceu na Madeira, Francisco Quintas atende o telefone ao ECO já em solo continental e depois de ter celebrado com a equipa do restaurante da Casa da Calçada, em Amarante. “Já falámos sobre os objetivos, sempre a pensar em frente. Estamos focados na satisfação do cliente e em trazer a melhor experiência possível”, diz. Sabe, e não esconde, que estar no Guia Michelin Portugal 2026 “é uma responsabilidade”.

Francisco Quintas, chef do Largo do Paço

 

Uma responsabilidade sobre os ombros de apenas 29 anos, mas com experiência de mais de uma década. “A formação é onde começo a contar”, diz o chef. Aos 15 anos começou. Antes disso, “com 10, 11 anos já cozinhava bolos nas festas festas de família”, com a avó e as tias. “Gostava de experimentar”. Para os pais foi uma surpresa ir estudar para uma escola de hotelaria. “Trabalhei muito, sempre me esforcei, para lhes mostrar que era a sério”. Foi nessa altura, ainda estudante, que conheceu a cozinha do Largo do Paço pela primeira vez.

Depois do curso de cozinha, Francisco Quintas passou pelo Aquavit, em Londres, teve outras experiências internacionais e acabaria por voltar à Casa da Calçada. “Fiz parte do meu percurso aqui com o chef Tiago”, diz. Tiago é Tiago Bonito, que este ano também conquistou uma estrela pelo trabalho no Éon. “Tenho uma empatia muito grande com ele”, diz Francisco Quintas.

Depois do encerramento do restaurante, rumou ao 2Monkeys, em Lisboa, e pouco mais de um ano, a oportunidade de voltar a Amarante tornou-se um facto. “Adoro a cidade e esta é uma casa que me diz muito, quero honrar a casa e o seu nome”, afirma. Abriram há 11 meses.

A estrela traz uma responsabilidade, aceita Francisco Quintas, e também “mais clientes”. “Está escrito que traz até 30% mais de clientes”, diz. Já tinham reservas para os dias a seguir à entregue do prémio, mas também receberam novas.

Haverá espaço para 44 restaurantes com uma estrela Michelin e oito com duas? “Acho que há espaço e clientes”, contrapõe. Até porque o Largo do Paço contraria a estatística (fica fora das zonas onde se concentram a maioria dos restaurantes galardoados, Lisboa e Porto), mas confirma a recomendação do Guia Michelin: “Merece a visita”. “Vai ser bom para nós”.

E depois disto, volta a dizer Francisco Quintas, concentrar-se no restaurante. “Não penso em mais projetos. Penso no Largo do Paço, tenho uma responsabilidade gigante. O meu foco é o Largo do Paço, continuar a trabalhar para elevar a experiência dos clientes. É preciso estar cá e envolver as equipas”.

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