Exclusivo Souto de Moura rejeita fazer projeto para estação do TGV em Santo Ovídio

Arquiteto está contra a construção da estação enterrada em Santo Ovídio imposta pela APA e recusou fazer o projeto. Tal como o consórcio do TGV e a Câmara de Gaia, defendeu estação à superfície.

Eduardo Souto Moura é o arquiteto da estação da alta velocidade em Campanhã e da ponte sobre o rio Douro.Lusa

Eduardo Souto de Moura rejeitou fazer o projeto de arquitetura para a estação de comboios da alta velocidade em Gaia, apurou o ECO. O arquiteto, escolhido pelo consórcio AVAN Norte para o primeiro troço do TGV entre o Porto e Lisboa, tem sido muito crítico da construção de uma estação enterrada em Santo Ovídio, considerando que teria “um sem número de perigos”.

A localização da estação da linha de alta velocidade Porto-Lisboa em Gaia tem suscitado polémica. O consórcio liderado pela Mota-Engil começou por entregar um projeto de execução com uma estação à superfície em Vale do Paraíso, que foi rejeitado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) por ser diferente do previsto no estudo prévio que serviu para a emissão da Declaração de Impacte Ambiental (DIA).

O novo projeto de execução que vai ser entregue pelo AVAN Norte este mês já prevê a estação em Santo Ovídio, conforme avançou o ECO. O arquiteto é que já não será Eduardo Souto de Moura, que discorda desta solução.

“Para além dos argumentos técnicos de não gostar da estação enterrada, Gaia está a rebentar pelas costuras e ter uma estação a 60 metros de profundidade, e alguns sítios a 70, é um sem número de perigos ou possíveis acidentes“, afirmou o arquiteto vencedor do Prémio Pritzker em 2011, durante uma apresentação da proposta do consórcio em dezembro.

Na mesma ocasião, defendeu a opção por Vale do Paraíso. “Promove a cidade e estabelece uma âncora para o desenvolvimento de Gaia que está caótico – e ainda vamos meter mais trapalhadas no centro da cidade”, argumentou, acrescentando que a “estação a céu aberto é mais barata, e pode ter um conjunto de equipamentos como um bom parque de estacionamento, aproximação à autoestrada, escritórios, centro comercial”. Eduardo Souto de Moura é também o arquiteto responsável pela estação da alta velocidade em Campanhã e pela ponte sobre o rio Douro que levará o comboio do Porto para Gaia.

O arquiteto não é o único a preferir Vale do Paraíso. Essa é também a solução defendida pelo presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Menezes. Numa entrevista ao ECO, em fevereiro, disse que havia um “consenso” de PSD, PS, Iniciativa Liberal, Chega e CDS em relação à localização da estação em Vilar do Paraíso.

Em Santo Ovídio não cabe lá uma caixa de fósforos, quanto mais uma estação de alta velocidade.

Luís Filipe Menezes

Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia

“Em Santo Ovídio não cabe lá uma caixa de fósforos, quanto mais uma estação de alta velocidade”, disse o autarca, acrescentando que “as obras vão implicar fechar o tráfego em Santo Ovídio durante quatro anos”, incluindo o acesso ao hospital de Gaia. E, tal como Souto de Moura, alerta para os possíveis riscos: “Também não há nenhum estudo de segurança feito e de evacuação das pessoas se houver um problema a 80 metros de profundidade”.

A localização em Vale do Paraíso também tem detratores. Associação das Empresas da Zona Industrial de São Caetano (AESC) contestou esta opção por implicar “um número substancialmente superior de expropriações (cerca de 135, contra 40 no plano oficial), afetando de forma crítica o tecido económico, habitacional e comunitário da região”. Santo Ovídio tem, além disso, a vantagem de ficar perto da estação de metro da linha Amarela, garantindo a intermodalidade.

APA também chumbou travessia dupla

A localização da estação em Gaia não é o único ponto de discórdia. O consórcio colocou no projeto de execução duas pontes para a travessia do Douro em vez de uma só ponte rodoferroviária. Solução que também não passou no crivo da Comissão de Avaliação e da APA. Quer Luís Filipe Menezes quer o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, querem apenas a construção da ponte ferroviária.

Nós vamos submeter a nova versão do RECAP [Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução] este mês. A nova versão tem a estação em Santo Ovídio. Não vou falar mais sobre a estação.

Carlos Mota Santos

CEO da Mota-Engil

O contrato de concessão do primeiro troço foi assinado com a AVAN Norte – que integra ainda a Teixeira Duarte, a Casais, a Alves Ribeiro, a Conduril e a Gabriel A.S. Couto – no final de julho. A construção estava prevista arrancar em janeiro.

Apesar destes atrasos, Carlos Mota Santos, CEO da Mota-Engil, assegurou à margem do Capital Markets Day, que se realizou na passada quarta-feira, que o prazo para a conclusão da construção (2030) será respeitado.

“Não tenho a menor das dúvidas”, disse. “Nós vamos submeter a nova versão do RECAP [Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução] este mês. A nova versão tem a estação em Santo Ovídio. Não vou falar mais sobre a estação”.

A primeira Parceria Público-Privada da linha de alta velocidade Porto-Lisboa ligará a Estação da Campanhã até Oiã, no distrito de Aveiro, e terá 72 quilómetros. A APA decidiu em dezembro pela não conformidade de dois dos seis subtroços, obrigando o consórcio a apresentar um novo projeto.

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