João Bento: “No meu futuro, não serei mais executivo. Sinto a missão completamente cumprida”

  • ECO
  • 16 Março 2026

Foi académico durante muitos anos e depois dedicou-se à gestão. Hoje, João Bento é CEO dos CTT, e partilha a sua trajetória numa altura em que se prepara para a sucessão do seu cargo.

João Bento, CEO dos CTT, é o 69º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Está a pouco mais de um mês de deixar este cargo ao seu sucessor, mas garante sentir-se feliz e realizado com todo o seu percurso profissional, quer enquanto académico, quer como gestor.

“Eu formei-me em engenharia das estruturas, fiz mestrado em engenharia das estruturas e depois doutorei-me em coisas de IA, no final dos anos 80. Mas eu nunca cheguei bem a ser engenheiro porque fiz a minha vida profissional como académico. No técnico, ainda constituí uma empresa, uma software house para desenvolver sistemas de apoio ao projeto das infraestruturas”, começou por dizer.

Contudo, acabou por vender essa startup pouco tempo depois porque percebeu que “se quisesse ter uma carreira de sucesso académico”, tinha que se concentrar mais no técnico. Assim o fez, mas sem nunca deixar de “manter uma relação aberta com a sociedade”: “Tive sempre a preocupação de procurar trazer problemas com algum interesse para os meus alunos. Acabei por fazer muito trabalho de consultoria a partir do técnico, quer com a administração central e regional, quer com empresas”.

Num desses projetos, passou pela Brisa, onde ajudou a definir uma política de sistemas de informação na empresa. “Passado uns meses, fui desafiado para ir ajudar a lançar a Brisatel. A Brisa tinha as condutas na autoestrada e tinha o direito de as iluminar com fibra, então quis criar um operador de operadores – a Brisatel – para isso. Eu resolvi aceitar a proposta em part-time, mas depois de quatro meses desafiaram-me para me juntar à equipa da Brisa e eu fui“, contou.

Apesar de ter aceite o convite, confessa que não se sentia preparado: “Eu não tinha, de todo, as ferramentas. Quando me juntei à Comissão Executiva da Brisa, um dos meus cunhados, que é professor de finanças, pediu-me para comprar um livro financeiro e ler pelo menos dois ou três capítulos. Mas eu nunca me preparei. Durante muito tempo dizia que era uma espécie de gestor amador, mas por outro lado tinha uma forma de olhar para os problemas com grande liberdade, que é uma coisa que os engenheiros fazem“.

Esta liberdade acabou por fazer a diferença ao longo da sua trajetória profissional, na qual somou também funções executivas nos grupos José de Mello e Champalimaud. Mas reconhece que o lugar onde esta skill lhe ajudou mais foi naquele que considerou ser o seu maior desafio profissional: a Efacec. “O desafio Efacec foi muito difícil. Foi o período profissional mais desafiante da minha vida. Havia a ideia de que podia haver fragilidades, mas ninguém – nem quem me convidou, nem eu próprio quando aceitei – tinha a consciência de que a situação era tão difícil como depois se veio a verificar”, revelou.

“Foi um projeto diferente, onde tentei resgatar um conjunto de situações muito difíceis, quer de investimentos que tinham sido feitos com menor sensatez, quer de projetos em que a empresa se empenhou e para os quais não estava preparada. Havia perdas potenciais associadas a projetos em que a Efacec se tinha envolvido e que eram insuportáveis para a empresa e para os seus acionistas. Portanto, foi uma trajetória muito longa“, continuou.

 

Ainda assim, apesar de sentir “o medo de falhar”, garante que nunca pensou desistir: “Fui muitas vezes para a cama sem saber como é que se iam pagar salários a 5500 pessoas na semana seguinte. E, felizmente, nunca atrasamos um salário, mas tive momentos de muita aflição. Para piorar, a crise da Efacec ocorreu em simultâneo com a crise financeira, então tínhamos os bancos internacionais a saírem e os bancos nacionais a aguentar a empresa. Em todo o caso, eu nunca considerei desistir. A Efacec que deixamos para quem veio a seguir era a Efacec que eu gostava de ter recebido“.

Saiu, por isso, com a sensação de dever cumprido. Mas o desafio profissional que se seguiu também estava relacionado com uma empresa que passava por um “momento delicado”, os CTT. “Hesitei aceitar porque ainda tinha algumas cicatrizes da vida difícil que tive na Efacec e não tinha a certeza de estar suficientemente descansado para outra luta. Mas aceitei porque pensei que era a última oportunidade que tinha para fazer alguma coisa com impacto enquanto executivo”, explicou.

Nos CTT, o desafio estava relacionado com a queda abrupta no correio físico, o que obrigava a pensar em soluções de transição para que a empresa continuasse a ser viável e para que se recuperassem essas perdas: “Quando eu entrei, em 2019, o correio caía 7% a 8% ao ano e assim continuou. Nós chegamos a entregar mais de seis milhões de cartas por dia e hoje, num dia bom, entregamos pouco mais do que um milhão“.

“Em 2018, o correio valia 78% da nossa receita e 145% da nossa margem, mas em 2024 estes números tinham caído para 40% e 20% respetivamente. Ainda assim, isto aconteceu num quadro em que as receitas em geral cresceram muito, cerca de 80%, e a margem geral cresceu cerca de 80% também, isto porque encontramos outros mercados, conseguimos crescer e aumentamos substancialmente a nossa rentabilidade. Foi verdadeiramente um processo de transformação da empresa e num período relativamente curto“, referiu.

Depois de atravessado o desafio, os resultados foram, mais uma vez, positivos e isso dá ao CEO a segurança de afirmar que os CTT estão agora “totalmente em condições”. Para o futuro, acredita que a empresa se irá expandir para mais geografias e que as cartas continuarão a existir, ainda que em muito menor quantidade: “Daqui a 10 anos, eu vejo os CTT muito mais relevantes e maiores. Acho que as cartas vão estabilizar num valor residual, mas é provável que sejam entregues da mesma forma que se entregam hoje as encomendas. Por outro lado, o comércio eletrónico vai continuar a crescer no mundo e nós vamos continuar a convergir com a Europa mais a norte. Portanto, há espaço para crescer”.

Já relativamente ao seu próprio futuro, João Bento assegura que não voltará a assumir funções executivas, “apesar de ter sido muito feliz como gestor”. Acrescentou, ainda, que prefere sair do cargo numa altura em que se sente “plenamente apto” e com a certeza de que deixou a empresa “com um futuro muito melhor”. “Até ao dia 30 de abril, eu serei o CEO dos CTT, mas o meu futuro é um futuro em que eu não serei mais executivo. Eu decidi, no início deste mandato, que, se tudo estivesse a correr bem, este seria o meu último mandato, até porque coincidia com os meus 65 anos. Sinto a missão completamente cumprida“, concluiu.

Pode assistir ao episódio completo aqui:

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan.

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