Kristin: Leiria aprova crédito de 25 milhões e chumba portal da transparência

  • Lusa e ECO
  • 16 Março 2026

Autarquia já formalizou o empréstimo necessário para fazer face aos prejuízos da tempestade. Executivo chumbou proposta da oposição para canal de controlo dos apoios pagos.

Gonçalo Lopes ganhou as eleições de outubro com maioria absoluta. O seu Executivo aprovou, sozinho, o novo empréstimo da autarquia e, em simultâneo, chumbou a vontade da oposição de contar com um portal da transparência relativo aos apoios às vítimas da depressão KristinLusa

A Câmara de Leiria aprovou nesta segunda-feira a contração de um empréstimo de 25 milhões de euros para financiar a recuperação na sequência do mau tempo e investimentos estruturantes, em escolas, saúde, estradas e economia.

Na reunião extraordinária do executivo municipal, o presidente do município, Gonçalo Lopes (PS) explicou que o empréstimo visa fazer face aos prejuízos de 193,4 milhões no património municipal que a depressão Kristin, em 28 de janeiro, provocou e para “garantir a execução de investimentos estruturantes”.

“Optou-se por contratar este empréstimo de médio e longo prazos destinado a financiar investimentos (…) para a recuperação de infraestruturas afetadas, mas também dar continuidade à estratégia de desenvolvimento do concelho”, declarou o autarca.

Na mesma reunião, a oposição tentou fazer passar um portal da transparência destinado a tornar pública a informação relativa aos apoios municipais na sequência da tempestade. A intenção do PSD, acompanhada pelo Chega, de criar a secção dedicada à pós-depressão Kristin na área da transparência municipal no portal da autarquia acabou chumbada pela maioria socialista na Câmara de Leiria.

“Face à falta, em fonte pública, de uma lista exaustiva dos edifícios municipais danificados pela tempestade Kristin e de estimativas claras e detalhadas sobre custos, critérios de recuperação e financiamento, propõe-se a criação, no portal da transparência municipal, de uma área temática pós-Kristin, onde essa informação seja centralizada e acessível a todos, reforçando a transparência e a participação cidadã no processo de recuperação”, referia-se na proposta social-democrata.

Nuno Serrano (PSD) referiu números dados pelo presidente, Gonçalo Lopes, e dados do portal BASE, que centraliza a informação dos contratos públicos, insistindo que os eleitos sociais-democratas gostariam de saber “o que é que se gasta, onde se vai gastar”.

“São assuntos muito importantes e que nós gostaríamos de esclarecer”, declarou o vereador, referindo a importância da informação para os munícipes, para as muitas pessoas que apoiaram Leiria e para as entidades que vão gastar dinheiro no concelho.

Já Luís Paulo Fernandes (Chega) lembrou que, na semana passada, numa reunião com o seu grupo parlamentar e a Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria, na qual participou Gonçalo Lopes, este falou da necessidade de transparência dos apoios do Governo.

“Quando o senhor presidente pede transparência aos grupos parlamentares para que intercedam junto do Governo, não tenho dúvidas de que hoje acompanhará esta proposta”, declarou Luís Paulo Fernandes, também deputado, salientando que a transparência também será boa “para fundamentar e negociar junto do Governo os apoios”.

O sítio na Internet da Câmara de Leiria tem uma secção dedicada à transparência municipal e outra ao Reerguer Leiria na sequência do mau tempo.

O presidente do município, Gonçalo Lopes, considerou que a proposta do PSD parte do princípio de que a autarquia “não é transparente no seu próprio portal”, garantindo que a Câmara “tem, não só no portal existente, mas também naquilo que é a sua atividade diária, um nível de transparência e escrutínio que é reconhecido”.

“Essa é a nossa postura e ação diárias”, assegurou o autarca socialista, sustentando que a própria oposição, assim como a Assembleia Municipal, fiscaliza a ação da Câmara e tem acesso a documentos.

Questionando-se se “é suficiente”, o autarca admitiu que a Câmara vai ter de aumentar a informação à medida que haja mais ações no âmbito da resposta ao mau tempo, mas rejeitou a duplicação de informação.

Nuno Serrano realçou que esta proposta não parte do pressuposto de que não há transparência e Luís Paulo Fernandes considerou que a maioria está a perder uma boa oportunidade, até porque “o senhor presidente hoje aqui disse que vai ser melhorado”.

Gonçalo Lopes acrescentou que será disponibilizado o plano de ação, medidas e despesas, e desafiou a oposição a pedir informação aos serviços municipais sobre os valores já gastos na resposta ao impacto do mau tempo.

Empréstimo para amortizar no próximo mandato

Referindo que o endividamento bancário atual do município é de sete milhões de euros, com dois empréstimos, o mais longo para amortizar até 2032, o autarca adiantou que no futuro empréstimo a carência é de três anos e o prazo de 15, com taxa Euribor indexada a seis meses e possibilidade de amortização antecipada sem penalização.

Entre as obras que o executivo considerou “mais importantes” incluir no empréstimo estão escolas na Maceira e em Colmeias, destruídas pelo mau tempo.

Na área da economia, “há um forte prejuízo” no desenvolvimento da estratégia de desenvolvimento económico do município, dada a destruição de “muita indústria”, assinalou.

Para dar “um sinal do lançamento da dinâmica económica”, são considerados os investimentos da 2.ª fase do Parque Empresarial de Monte Redondo e o espaço para trabalho partilhado no antigo edifício da EDP, na cidade de Leiria.

Juntam-se a intervenção no Centro de Saúde Gorjão Henriques, na sede do concelho, a construção do estaleiro municipal na antiga Exelis que foi “totalmente destruído” e algumas estradas.

“Esta operação de financiamento constitui uma resposta imediata, responsável, estratégica”, garantiu Gonçalo Lopes.

O vereador do PSD Nuno Serrano afirmou que em janeiro o executivo votou um saldo de gerência de 41 milhões, “impostos que foram cobrados aos leirienses que não foram utilizados pela Câmara”, adiantando não entender como é que “a autarquia, com 41 milhões de euros nos cofres, vá fazer um empréstimo”.

“Aquilo que a Câmara devia fazer era primeiro gastar os recursos que tem”, argumentou, sustentando que Leiria ainda há de receber dinheiro das seguradoras e “outras formas de financiamento ou apoios”, quer de entidades nacionais ou fundos europeus.

Para Nuno Serrano, “essas possibilidades deveriam primeiro ser esgotadas e só depois, em caso de necessidade de dinheiro para resolver os problemas”, avançar com o empréstimo.

“Esta narrativa de colar este empréstimo à Kristin está errada, não faz sentido”, salientou.

Luís Paulo Fernandes (Chega) fez também referência ao saldo de gerência e observou que, perante esta ação da maioria, o município “deixa de ter argumentos e fundamentos para negociar com o Governo”.

Para Luís Paulo Fernandes, os responsáveis do Governo e da Estrutura de Missão Recuperação da Região Centro do País avaliarão esta decisão como “estão a desenrascar-se”.

“Tenho quase a certeza absoluta de que o executivo [municipal], com esta forma de se desenrascar, vai ficar sem capacidade de negociação”, insistiu.

Gonçalo Lopes respondeu que o processo de reconstrução “não se faz com adiamento de financiamento”, e o município tem “mesmo de acelerar”, e avisou que 25 milhões não vão chegar para reerguer rapidamente Leiria.

“Vinte e cinco milhões de euros é uma gota, é só para não estarmos paralisados”, garantiu, acrescentando que a autarquia mantém a estratégia de desenvolvimento que tinha para 27 de janeiro, um dia antes de a depressão ter atingido gravemente o concelho.

Segundo o presidente da Câmara, “é um empréstimo estratégico, não é só de reconstrução”, adiantando que se, entretanto, chegarem apoios amortiza-se o empréstimo.

Os vereadores do PSD e do Chega votaram contra.

Em 06 de março, Gonçalo Lopes anunciou que o município iria pedir este empréstimo, para fazer face às despesas com a depressão Kristin.

A semana passada, foi anunciado que os prejuízos causados pelo mau tempo rondam os mil milhões de euros.

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