Névoas da guerra rodeiam reuniões dos principais bancos centrais

A caminho de cortes nos juros (EUA e Inglaterra) ou de subidas (BCE e Japão) os principais bancos centrais vão pausar esta semana para avaliar o impacto da guerra no Médio Oriente.

ECO Fast
  • Os principais bancos centrais, incluindo a Reserva Federal e o Banco Central Europeu, enfrentam incertezas devido à guerra no Médio Oriente, adiando decisões cruciais.
  • As expectativas de aumento das taxas de juro mudaram significativamente, com a maioria dos bancos centrais agora a prever endurecimento da política monetária, exceto a Reserva Federal.
  • A persistência das pressões inflacionárias e a volatilidade dos preços da energia podem levar os bancos centrais a manter opções em aberto, aumentando a incerteza económica.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Há uma autêntica “bonança” de reuniões dos principais bancos centrais esta semana mas, com as névoas produzidas pela guerra no Médio Oriente, as principais decisões deverão ser de esperar para ver, ou melhor, esperar até poderem ver quando a incerteza se dissipar.

“A semana oferece aos principais bancos centrais a primeira oportunidade oficial para responder aos choques provocados pelo conflito no Médio Oriente“, referiu Sean Shepley, economista sénior da gestora de ativos Allianz Global Investors (GI).

Realçou que, com a Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos, o Banco Central Europeu (BCE), o Banco de Inglaterra (BoE), e o Banco do Japão (BoJ) a realizarem reuniões num intervalo de 24 horas, “os decisores de política monetária vão começar a traçar um caminho no meio de uma fonte indesejada de disrupção nos seus esforços para trazer a inflação de volta à meta de forma estável e sustentada”.

Os analistas do banco britânico Lloyds recordaram que os mercados do petróleo e do gás registaram uma “volatilidade extrema” na última semana, principalmente devido às restrições no Estreito de Ormuz. O petróleo Brent oscilou de quase 120 dólares por barril no início da semana para pouco menos de 80 dólares na terça-feira, antes de se estabilizar em cerca de 100 dólares, quase 40% acima dos níveis anteriores ao conflito iniciado pelos EUA e Israel com o ataque ao Irão no último dia de fevereiro.

Há duas semanas, previa-se que apenas o Japão e a Austrália subissem as taxas entre os oito bancos centrais mencionados; agora, prevê-se que todos, com exceção da Reserva Federal, endureçam a política monetária este ano

Lloyds Bank

Segundo o Lloyds, à parte do banco central da Austrália, onde os mercados atribuem atualmente uma probabilidade de cerca de dois terços a um aumento das taxas de juro, espera-se que todos os bancos centrais das economias do G7, juntamente com o SNE e o Riksbank sueco, mantenham as taxas de juro inalteradas. “No caso do BoE, isto representa uma mudança notável em relação a há duas semanas, quando os mercados estimavam uma probabilidade de 80% de um corte das taxas em março”.

A mudança nas expectativas para o conjunto deste ano tem sido ainda mais marcante, vincaram. “Há duas semanas, previa-se que apenas o Japão e a Austrália subissem as taxas entre os oito bancos centrais mencionados; agora, prevê-se que todos, com exceção da Reserva Federal, endureçam a política monetária”, escreveram.

Os bancos centrais enfrentam o desafio habitual dos choques de preços impulsionados pela energia, que empurram a inflação para cima, mas restringem a atividade económica e embora os decisores políticos muitas vezes “ignorem” os picos temporários, a persistência das atuais pressões sobre os preços não é clara. “As memórias do considerável excesso de inflação após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 também pesam bastante, reforçando a necessidade de manter as expectativas de inflação ancoradas para evitar efeitos mais persistentes”, concluíram.

É provável que os bancos centrais mantenham todas as suas opções em aberto, porque tal como todos nós, não fazem ideia de quando esta perturbação terminará

ING

Os economistas do banco de investimento neerlandês ING concordam no ‘congelar’ geral das taxas de juro. “É provável que os bancos centrais mantenham todas as suas opções em aberto, porque tal como todos nós, não fazem ideia de quando esta perturbação terminará”.

Para o ING o BCE “pode esconder-se atrás do facto de que as suas novas previsões, divulgadas juntamente com a decisão, já estarão bastante desatualizadas” quando forem publicadas, enquanto a Reserva Federal possa adiar a única redução de taxas prevista para 2027: “também pode invocar a incerteza – tanto a nível global como interno, após aquele relatório de emprego surpreendente”.

Leia aqui o que esperar das reuniões dos principais bancos centrais (em ordem cronológica das reuniões):

Reserva Federal

Anúncio: Quarta, 18 de março, 18h00 (de Lisboa)

Taxa atual: 3,50% a 3,75% (Federal Funds Rates)

Os EUA enfrentam talvez a situação mais desafiadora“, segundo Sean Shepley, da Allianz GI, que frisou que a queda no número de empregos criados nos setores não-agrícolas registada em fevereiro – menos 92.000, o que comparou com estimativas de entre menos 9.000 e mais 120.000 – revelou que o mercado de trabalho norte-americano continua fraco, sem indícios de que a melhoria do dinamismo cíclico se esteja a traduzir em novas contratações.

Como a Reserva Federal tem um mandato duplo (tem como objetivos tanto a inflação como o nível máximo de emprego possível), está exposta a riscos em ambos os sentidos. “Consequentemente, há motivos muito fortes para manter em pausa face ao aumento dos preços da energia, a fim de recolher mais informações”.

Depois de três cortes seguidos nas taxas de juro no final de 2025, de 25 pontos base cada, a Fed em janeiro iniciou uma pausa que deve continuar este mês segundo analistas e investidores. A grande questão é quando é retomará os cortes. Esta sexta-feira os mercados refletiram otimismo sobre esse momento ser em setembro e não em outubro, com dados do Governo a revelarem que a inflação medida pelo indicador de referência do Fed – um aumento de 2,8% em termos homólogos no índice de preços das despesas de consumo privado em janeiro – não ficou tão elevada como se temia no início do ano.

Banco do Japão

Anúncio: Quinta, 19 de março, 03h00 (de Lisboa)

Taxa de juro atual: 0,75%

De 64 economistas consultados pela agência Reuters, todos vêem o banco central liderado por Kazuo Ueda a manter inalterada a taxa de juro nos 0,75% na próxima reunião. Mas o inquérito também revelou que é provável que o banco nipónico suba o custo do iene para 1% até final de junho.

Dada a forte dependência do Japão do petróleo do Médio Oriente, o Banco do Japão poderá sentir-se mais compelido a aumentar as taxas de juro, uma vez que os preços mais elevados do crude e a desvalorização do iene aumentam os custos das importações.

Dos 44 economistas que indicaram um mês para o próximo aumento das taxas de juro, junho foi a escolha mais frequente, com 32%. Outros 30% optaram por julho, enquanto 27% escolheram abril. “O Banco do Japão provavelmente não conseguirá adiar o ritmo dos aumentos das taxas de juro para evitar um enfraquecimento ainda maior do iene“, afirmou Chiyuki Takamatsu, economista-chefe da Fukoku Mutual Life Insurance, citado pela Reuters.

Banco de Inglaterra

Anúncio: Quinta, 19 de março, 12h00 (de Lisboa)

Taxa de juro atual: 3,75%

O aumento dos preços da energia tornou altamente improvável uma redução das taxas de juro em março, referiram os analistas do ING. “Além disso, é provável que o banco mantenha as suas opções em aberto na próxima semana, à espera de esclarecimentos sobre a duração prevista da crise”.

“A questão fundamental é a distribuição dos votos; prevemos um resultado de 7 a 2 a favor da manutenção das taxas, mas um número maior de membros a votar a favor de uma redução constituiria uma surpresa dovish”, salientaram.

Sean Shepley, da Allianz GI recordou que a política monetária da instituição governada por Andrew Bailey continua restritiva e o desemprego tem vindo a aumentar há mais de dois anos; por isso, ao contrário do BCE, a probabilidade de novas subidas das taxas de juro parece baixa. “No entanto, os mercados perderam a confiança nas duas descidas das taxas que se esperavam anteriormente para este ano”, admitiu.

Banco Central Europeu

Anúncio: Quinta, 19 de março, 13h15 (de Lisboa)

O ‘bom lugar’ de Christine Lagarde permanece intacto por enquanto, mas a sala de pânico está aberta“, escreveu Carsten Brzeski, do ING. A presidente do BCE vem dizendo há meses que o banco central da Zona Euro está nesse lugar agradável onde não tem de mexer nas taxas, justificando assim uma pausa que já vai em cinco reuniões.

Para Brzeski, o BCE deverá manter a política monetária inalterada, “mas o recente aumento dos preços do petróleo e a escalada do conflito no Médio Oriente significam que qualquer discussão sobre reduções das taxas está fora de questão”.

O ‘bom lugar’ de Christine Lagarde permanece intacto por enquanto, mas a sala de pânico está aberta

ING

O choque reavivou memórias dolorosas de 2022, quando o BCE subestimou a persistência da inflação impulsionada pelos preços da energia“, adiantou, explicando que embora o contexto atual seja menos alarmante, o Conselho do BCE procurará evitar repetir os erros do passado.

Na visão dos analistas do LLoyds, “Lagarde deverá alertar contra reações exageradas, ao mesmo tempo que sublinha a disponibilidade para responder aos riscos de subida da inflação”.

Olhando mais para a frente, os futuros sobre taxas de juro apontam em pleno para um aumento do custo do euro até ao final de julho e cerca de 55 % de probabilidade de um segundo escalar até ao final de dezembro.

No entanto, os economistas inquiridos pela Reuters entre 9 e 13 de março mantiveram a sua opinião de longa data de que as taxas se manterão estáveis. Mais de 90% — 67 em 72 — esperam que o BCE mantenha a taxa de depósito em 2% até 2026 — uma perspetiva inalterada desde outubro. Apenas três previram um aumento este ano, enquanto dois esperavam pelo menos um corte.

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