OPA da Bondalti. “Sim” dos acionistas abre porta à criação de “campeão” na Europa
Após dois anos a perder rentabilidade, gigante espanhola Ercros prepara-se para passar a ser controlada pela Bondalti após o fim da OPA. Química lusa quer criar grupo capaz de enfrentar choques.
Dois anos depois de ter anunciado uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a Ercros, a Bondalti pode finalmente olhar para o futuro. Com os resultados preliminares a confirmarem que a oferta foi aceite por mais de 50% dos acionistas, o mínimo fixado para que a operação tivesse sucesso, a química portuguesa detida pelo Grupo José de Mello tem via aberta para criar “um grupo industrial europeu com dimensão suficiente”, com capacidade para superar os grandes desafios que o setor enfrenta. Mas primeiro é preciso “limpar a casa” e pôr a Ercros a dar lucro, depois de dois anos de prejuízos.
Ainda sem se conhecerem os dados finais da OPA cujo período de aceitação terminou na última sexta-feira, dia 13 de março, a Bondalti adiantou esta manhã, em comunicado ao regulador dos mercados espanhol (CNMV), que “de acordo com a informação preliminar prestada pelo Banco Santander, na qualidade de banco agente da Oferta, o nível de aceitação da Oferta ultrapassou os 50% dos direitos de voto efetivos da Ercros”.
Um resultado que surge num momento difícil para o setor químico na Europa, que continua a enfrentar múltiplos desafios. Já quanto à situação financeira da própria Ercros, os resultados da química espanhola deterioraram-se de forma muito significativa nos últimos dois anos.
A Ercros agravou em mais de 4,5 vezes os prejuízos em 2025, terminando o ano com um resultado líquido negativo de 53,6 milhões de euros, um número que compara com prejuízos 12 milhões de euros em 2024 e lucros de 27,6 milhões em 2023, os resultados conhecidos quando a Bondalti lançou a sua OPA, a 5 de março de 2024.
No lado da química portuguesa, os lucros também têm vindo a cair, mas a empresa lusa mantém níveis de rentabilidade sustentáveis, com um resultado líquido acima de 41 milhões de euros em 2024 – ainda não foram divulgados números de 2025.
Quanto às receitas, as receitas da empresa catalã desceram 5,4%, passando de 700,3 milhões de euros para 662,7 milhões, no ano passado. E as perspetivas não são animadoras. “De forma geral, existe forte pressão sobre volumes, preços e margens devido à atual situação de ‘excesso de oferta'” no mercado, explica a Lighthouse – Instituto Español de Analistas, um dos dois bancos de investimento que seguem a empresa, num research divulgado após a apresentação de resultados.
“Neste ambiente, a Ercros espera uma recuperação da procura (primeiro em volumes e posteriormente em preços) durante o 2.º semestre de 2026, embora isso dependa de uma ‘resolução razoável da atual crise tarifária e da implementação do Plano de Apoio à Indústria Química Europeia’. Isto implica que a visibilidade de uma possível recuperação em 2026 é ainda muito baixa. Até à data deste relatório, tal recuperação ainda não começou“, avisam os especialistas.
Crise mais profunda e prolongada
Para a Lighthouse, o consenso do mercado aponta para uma crise que se revelou “mais profunda e prolongada do que inicialmente previsto pelo mercado”.
“Após três anos de fraqueza (2023–2025), as expectativas apontam ainda para uma recuperação gradual, embora a visibilidade continue limitada a curto e médio prazo (2026-2027)”, detalha.
Face a esta conjuntura, a equipa de analistas nota que o preço da oferta implica múltiplos de cerca de 26 vezes as estimativas EV/EBITDA para 2026 e 15 vezes para 2027, o que compara com rácios de 6,7 vezes e 6 vezes, respetivamente, face ao setor europeu. “A oferta avalia o negócio da Ercros acima dos múltiplos atuais do setor, reforçando a ideia que, na ausência da oferta, o preço da ação tenderia provavelmente a convergir para níveis mais alinhados com os das empresas comparáveis do setor“, refere a análise.
Os especialistas reconhecem que, “nos próximos 12 a 24 meses, a recuperação da indústria química dependerá de uma melhoria do ciclo industrial europeu (maior procura) e do impacto do Plano de Ação Europeu para a Indústria Química (publicado em julho de 2025), cuja eficácia não deverá fazer-se sentir antes do segundo semestre de 2026”.
“Uma melhoria sustentada da procura, juntamente com a concretização efetiva do encerramento de capacidade produtiva, será fundamental para uma normalização mais sólida do setor“.
Há ainda a contabilizar os elevados custos energéticos – cuja pressão aumentou nas últimas semanas devido ao conflito no Médio Oriente – e o quadro regulamentar europeu (incluindo o Sistema de Comércio de Emissões e as metas de descarbonização), que “continua a atuar como um fator de pressão para a indústria química, principalmente através do impacto nos custos energéticos e nas necessidades de investimento industrial. Isto resulta numa perda relativa de competitividade face a outras regiões”.

João de Mello, presidente da Bondalti, está consciente das fraquezas que vai herdar na empresa espanhola, mas está confiante que a empresa lusa vai conseguir inverter o mau momento da Ercros. Muito crítico da atual gestão, o líder da companhia portuguesa disse, recentemente, à imprensa espanhola que o atual conselho de administração da Ercros “não está a fazer nada” e dá como exemplo estes dois anos de OPA: “Estão a dizer que a culpa, a inatividade e a descida dos resultados se devem à OPA da Bondalti. Não é assim”.
O líder da Bondalti está confiante que vai conseguir pôr a Ercros a gerar valor novamente. “A empresa está mal, temos de enfrentar essa realidade e, depois de um trabalho bem feito, o crescimento continuará“, admite.
Para João de Mello, ambas as empresas saem vencedoras ao unir esforços para criar um campeão europeu, capaz de enfrentar os desafios do setor, sujeito à pressão de concorrentes asiáticos, especialmente da China.
Todos os anos fala-se do “ano da recuperação”, mas este nunca chega, porque a concorrência da China e dos EUA é muito elevada. Por isso, a única forma é unir esforços e ganhar dimensão, de modo a diluir os custos. E também para poder acrescentar valor à operação conjunta, por exemplo, através da negociação de matérias-primas.
“O setor químico na Europa tem atravessado tempos muito difíceis nos últimos anos. Todos os anos fala-se do “ano da recuperação”, mas este nunca chega, porque a concorrência da China e dos EUA é muito elevada. Por isso, a única forma é unir esforços e ganhar dimensão, de modo a diluir os custos. E também para poder acrescentar valor à operação conjunta, por exemplo, através da negociação de matérias-primas“, adiantou em entrevista ao La Vanguardia.
Os analistas da Lighthouse destacou que o EBITDA entre 2016 e 2021, “anos que podem ser considerados “normais” ou de meio de ciclo, excluindo 2020”, “falam por si quanto à verdadeira capacidade de geração de resultados dos ativos e da gestão da Ercros: atingindo um EBITDA médio de 62 milhões de euros, com uma margem média de 9%”.
Números que contrastam com os 5,9 milhões de euros obtidos em 2025, “ou com a nossa expectativa de 17 milhões de euros para 2026 (uma margem de 2,6%)”.
A elevada qualidade dos ativos da Ercros está atualmente mascarada por uma combinação de fatores (procura e preços deprimidos e custos energéticos elevados) que escondem o seu verdadeiro potencial de resultados
“Por outras palavras, a elevada qualidade dos ativos da Ercros está atualmente mascarada por uma combinação de fatores (procura e preços deprimidos e custos energéticos elevados) que escondem o seu verdadeiro potencial de resultados“, destacam os analistas.
Com presença em Espanha há mais de duas décadas, a Bondalti conta com uma unidade de tratamento de águas em Alfaro (La Rioja) e uma fábrica de cloro em Torrelavega (Cantábria), onde emprega mais de 250 pessoas. Com a aquisição da Ercros, a empresa portuguesa – que se assume já como ibérica – vai reforçar a sua presença na região e no setor na Europa, dotando a empresa combinada de um conjunto de ativos sólidos em várias áreas.
Enquanto a Bondalti se assume como a maior produtora ibérica de cloro e líder europeia em vendas de anilina, a Ercros tem também uma forte presença no mercado de derivados de cloro (cloro, soda cáustica, PVC, hipoclorito, ácido clorídrico), produtos químicos intermédios e produtos para a indústria farmacêutica.
O facto de ambas as empresas serem fortes no mercado de soda cáustica e hipoclorito de sódio levou a autoridade da concorrência espanhola, a CNMC, a considerar, numa primeira análise, que o setor económico afetado pela concentração das duas empresas é o fabrico de produtos básicos de química orgânica e inorgânica e identificou riscos para a concorrência destes dois mercados.
A CNMC concluiu, na segunda fase de investigação, que “no mercado de soda cáustica, onde a entidade resultante deterá quotas de mercado superiores a 30% a nível nacional, descartou-se a existência de riscos à concorrência devido à presença de outros operadores e à pressão competitiva exercida pelas importações”.
Quanto ao hipoclorito de sódio, a autoridade “concluiu que a operação representa um risco para a concorrência nas áreas das fábricas analisadas e nas áreas onde existe sobreposição entre as fábricas, particularmente entre a fábrica de Torrelavega e as de Sabiñánigo e Vila Seca”.
No entanto, os compromissos apresentados pela empresa portuguesa foram suficientes para convencer a CNMC a aceitar a oferta, sem a necessidade de ficar sujeita a condições impostas pela autoridade da concorrência. A química portuguesa comprometeu-se a fornecer hipoclorito de sódio a preços de custo por um período de cinco anos, prorrogável até um máximo de 15 anos.
Com a integração da Ercros, a Bondalti juntará às cerca de 250 pessoas que emprega em Espanha, os 1.344 funcionários da química espanhola. Um número que a empresa portuguesa garante que irá manter, pelo menos, durante um ano. O mesmo acontece com as 10 unidades da empresa em Espanha.
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