Rangel insiste que “Portugal não está nem vai estar envolvido” no conflito do Médio Oriente
Ministro dos Negócios Estrangeiros recusa qualquer envolvimento português na guerra contra o Irão e critica alívio de sanções à Rússia pelos EUA, que descreveu como um desenvolvimento "não positivo".
Confrontado com os apelos dos EUA para um maior envolvimento dos países da NATO na guerra no Médio Oriente, o ministro dos Negócios Estrangeiros português afirmou que “Portugal não está nem vai estar envolvido neste conflito”. “Não vamos participar neste conflito”, insistiu Paulo Rangel, múltiplas vezes, em declarações aos jornalistas a partir de Bruxelas.
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A administração Trump quer que os países da NATO e outros, incluindo a China, forcem a abertura do Estreito de Ormuz, por onde passava um quinto do petróleo mundial antes do início dos ataques dos EUA e Israel contra o Irão. O trânsito neste importante ponto de passagem tem estado praticamente interdito, devido à ameaça de ataques pelo Irão.
“Tudo aquilo que se possa fazer para desobstruir o Estreito de Ormuz e permitir a liberdade de navegação é positivo. Há imensas coisas que se podem fazer no plano político, diplomático e é nesse plano que Portugal está e que estará também, julgo eu, a União Europeia”, sublinhou o governante português. Instado a reagir às ameaças do Presidente dos EUA, Donald Trump, que prometeu consequências aos países da NATO que recusem apoiar os EUA, Paulo Rangel disse: “Da minha parte não merece reação absolutamente nenhuma.”
“Tenho falado com todos os ministros meus homólogos no Golfo no sentido de procurarmos uma solução que possa evitar a escalada. Esse é o ponto principal de todos. E o segundo é voltar à mesa das negociações”, indicou o ministro dos Negócios Estrangeiros, reiterando: “O envolvimento de Portugal está fora [de questão], como está desde o início. Não subscreveu nem está neste conflito.”
Apesar de o ministro recusar o envolvimento direto de Portugal, o país está indiretamente envolvido devido à utilização pelos EUA da Base das Lajes, na ilha Terceira, nos Açores, por onde têm passado aviões reabastecedores e também caças norte-americanos. No início deste mês, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, confirmou no Parlamento que Portugal concedeu autorização aos EUA para o uso das Lajes em operações de natureza defensiva ou de retaliação, desde que proporcionais, que visem exclusivamente alvos militares.
Guerra ainda pode escalar
Sobre a posição dos restantes países da União Europeia, Paulo Rangel afirmou que “há um amplo consenso no sentido de que tudo o que possamos fazer para ajudar a superar este bloqueio ou manipulação da liberdade de navegação no Estreito de Ormuz é fundamental”. “Todos estão dispostos, especialmente aqueles que mais meios têm, incluindo diplomáticos, a cooperar nesse sentido. Obviamente que isso não implica deslocação de meios militares para o Estreito de Ormuz”, disse.
Reconhecendo que o conflito já está a produzir “desvantagens”, nomeadamente “na economia das famílias”, o ministro afirmou que a escalada da guerra “é um risco que não se pode descartar”.
“Nós sempre fomos favoráveis à via negocial, compreendendo que era uma via difícil, compreendendo que o Irão é uma grave ameaça, como aliás se viu”, afirmou.
Seguidamente, Rangel atirou ao Irão, pela atitude de atacar os países vizinhos: “Quando o Irão responde contra os países que são países vizinhos que não estavam envolvidos, e que alguns até tinham sido bastante duros a condenar justamente essa intervenção, isso demonstra que o Irão é um país não confiável. Porque até aqueles estados que podiam fazer bons ofícios a travar este conflito foram atacados.”
Alívio de sanções à Rússia pelos EUA é “não positivo”
O chefe da diplomacia portuguesa foi ainda questionado sobre o alívio de sanções à Rússia pelos EUA, depois de a administração Trump ter permitido a compra de petróleo russo já em trânsito até ao dia 11 de abril. Sobre este facto, Rangel declarou: “É algo que, sinceramente, julgo que é um desenvolvimento não positivo.”
“A Rússia, pela própria natureza das coisas, já teria uma vantagem pela subida dos preços do petróleo. Aliviar sanções à Rússia tem um efeito sobre o conflito na Ucrânia que é um efeito negativo”, apontou.
Quanto à posição da Hungria, que está a travar um empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e o 20.º pacote de sanções, Rangel afirmou ser “muito lamentável” a posição do regime de Viktor Orbán. São “duas matérias paralisadas, para não dizer num impasse, por causa da Hungria”, lamentou.
(Notícia atualizada às 16h26 com referência ao uso pelos EUA da Base das Lajes, nos Açores)
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