Três em cada quatro jovens sem literacia financeira acham que sabem tudo

O Banco de Portugal revela que Portugal está perto da média europeia em literacia financeira, mas identifica uma falha estrutural que começa nas gerações mais novas e alastra-se aos adultos.

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  • Portugal apresenta um nível de literacia financeira próximo da média da zona euro, mas apenas 13% dos cidadãos responde corretamente a questões básicas.
  • O Banco de Portugal revela que a pontuação global de literacia financeira é de 63,4%, com comportamentos financeiros prudentes, mas deficiências no conhecimento.
  • O banco central refere que a promoção da literacia financeira é crucial para o bem-estar individual e a igualdade de oportunidades, exigindo avaliação contínua dos programas implementados.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Portugal regista um nível de literacia financeira “próximo da média da área do euro”, mas esconde uma falha estrutural: só 13% dos portugueses consegue responder corretamente a sete perguntas básicas sobre finanças.

É este o retrato que o Banco de Portugal publica esta segunda-feira no Boletim Económico de março de 2026, precisamente no dia em que arranca a Semana da Formação Financeira (16 a 21 de março), uma iniciativa nacional promovida pelo Plano Nacional de Formação Financeira.

O Banco de Portugal revela que o indicador global de literacia financeira coloca Portugal com uma pontuação de 63,4%, em linha com a média dos 17 países da área do euro que participaram no inquérito da OCDE.

A Alemanha destaca-se no topo deste ranking com 76% (13 pontos percentuais acima da média), enquanto Itália ocupa o último lugar com 53,3%. Mas quando se decompõe o indicador, Portugal fica acima da média nos comportamentos e nas atitudes financeiras, e abaixo da média no conhecimento — a componente mais determinante para tomar decisões informadas.

“O padrão de comportamento [de poupança] reflete prudência, mas pode traduzir limitações no conhecimento financeiro e na compreensão das características dos diferentes instrumentos de poupança e investimento”, escrevem Hugo Reis, Sharmin Sazedj e Lara Wemans, autores do relatório.

Na base do documento do Banco de de Portugal estiveram os resultados do 4.º inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa de 2023 enquadrados no 2023 International Survey of Adult Financial Literacy, que abrangeu 1.510 indivíduos, e ainda os resultados do módulo do PISA 2022 dedicado à literacia financeira dos estudantes de 15 anos, no qual participaram 4.075 alunos portugueses.

Apenas 54,8% dos portugueses poupou no ano anterior ao do inquérito e, desse grupo, quase 60% guardou o dinheiro na conta à ordem ou em numerário.

A fotografia da poupança ilustra bem o problema. Apenas 54,8% dos portugueses poupou no ano anterior ao do inquérito e, desse grupo, quase 60% guardou o dinheiro na conta à ordem ou em numerário, abdicando de qualquer retorno financeiro.

Os responsáveis do Banco de Portugal salientam que a utilização de instrumentos mais complexos, como ações ou fundos de investimento, é “residual” – apenas 7,3% dos que pouparam recorre a essas opções.

As dificuldades mais evidentes estão no cálculo de juros compostos e na compreensão da diversificação do risco, com mais de metade dos inquiridos a não perceberem que comprar uma carteira diversificada de ações reduz o risco de investimento, destaca a análise do Banco de Portugal.

A análise de Hugo Reis, Sharmin Sazedj e Lara Wemans destaca também que as desigualdades no conhecimento financeiro seguem de perto as desigualdades socioeconómicas, notando também que os homens superam as mulheres em oito pontos percentuais (64,9% contra 56,8%), e os indivíduos com ensino superior ficam 30 pontos acima dos que não terminaram o secundário.

Portugal apresenta 15,5% de alunos sem competências financeiras básicas, um valor comparável ao europeu, mas apenas 6,6% atingem um desempenho de topo, abaixo da maioria dos países analisados.

Além disso, os autores do estudo salientam que o rendimento também pesa: “Esta associação não decorre apenas da relação positiva entre rendimento e educação, mantendo-se mesmo controlando para o nível de escolaridade”, sublinha o Banco de Portugal, alertando que “níveis mais baixos de conhecimento financeiro podem contribuir para a persistência de desigualdades económicas”. O diferencial de género é, aliás, semelhante ao observado na Alemanha e não resulta de menor envolvimento das mulheres na gestão financeira do dia-a-dia.

Os dados salientados na análise do Banco de Portugal apontam para que Portugal apresenta 15,5% de alunos sem competências financeiras básicas, um valor comparável ao europeu, mas apenas 6,6% atingem um desempenho de topo, abaixo da maioria dos países analisados. Mais relevante ainda é que “74% [dos alunos sem competências básicas] acredita saber gerir o seu dinheiro”, um excesso de confiança que, alertam os autores, “aumenta o risco de decisões financeiras pouco informadas”.

O diagnóstico do Banco de Portugal termina com um apelo claro à ação, sublinhando a importância de a promoção da literacia financeira assumir “relevância não apenas para o bem-estar individual, mas também para a igualdade de oportunidades.”

A Semana da Formação Financeira, que decorre esta semana em 60 escolas de 14 distritos e duas regiões autónomas, é um dos instrumentos dessa estratégia nacional, mas o banco central avisa que a avaliação sistemática dos resultados e a incorporação das melhores práticas internacionais são condições essenciais para que os programas de literacia financeira produzam impacto real e duradouro.

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