Economistas criticam centralismo do país e defendem aposta nos “territórios com potencial desaproveitado”

Economistas defendem investimento em territórios "menos descongestionados, com potencial subaproveitado, tornando-os atrativos e povoados", ao invés de concentrar os recursos na Grande Lisboa.

“Os políticos insistem nesta tendência do centralismo, e depois queixam-se do abandono e de partidos populistas que vão aumentando em eleitores“, alertou esta terça-feira o diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP). Para inverter esta tendência, apontou Óscar Afonso, a solução passaria por “investir em territórios menos descongestionados, com potencial subaproveitado, tornando-os atrativos e povoados“, e avançar com um novo modelo de reorganização do território.

Até à data “não houve uma reforma territorial séria do Estado, uma reorientação clara e exigente do investimento público; uma estratégia coerente de diversificação produtiva com escala nacional. E não houve, sobretudo, a coragem de romper com a inércia de um modelo que continua a concentrar, a repetir e a adiar“, criticou Óscar Afonso durante a abertura da conferência anual da Associação Círculo de Estudos do Centralismo (ACEC), que decorre esta terça-feira, na FEP.

O economista não entende porque o Governo não avança para um novo modelo de reorganização do território. “Mas imagino que seja porque a maioria dos políticos são de Lisboa e porque não saem dos gabinetes, não conhecem o território e são egoístas“, avançou depois ao ECO/Local Online à margem da conferência.

“Parece que os sucessivos governos não têm tido um papel fundamental neste aspeto. Há 50 anos que se tem fugido a essa questão” da reorganização territorial, vincou, por sua vez, Carlos Tavares, presidente da ACEC e ex-ministro da Economia.

Ao ECO/Local Online Carlos Tavares defendeu a implementação de “um nível político intermédio, digamos subnacional, que possa ficar com algumas funções que hoje são centrais e também, provavelmente, com algumas funções que são de nível autárquico e que podem ser mais eficientemente desenvolvidas numa escala maior”.

Mas imagino que seja porque a maioria dos políticos são de Lisboa e porque não saem dos gabinetes e porque não conhecem o território e porque são egoístas.

Óscar Afonso

Diretor da Faculdade de Economia do Porto (FEP) e vice-presidente da te da Associação Círculo de Estudos do Centralismo (ACEC)

Igualmente para Óscar Afonso, também vice-presidente da ACEC, o centralismo “não promove a coesão territorial” e social. Aliás, vincou, “gera mais custos do que benefícios“. Na prática, sustentou, “desperdiça recursos, porque já se chegou a um ponto tal que o investimento [do Estado] que é feito em Lisboa é para corrigir os custos de congestionamento”, prejudicando o resto do território e gerando assimetrias regionais.

“O facto de haver uma concentração de recursos muito grande numa determinada região do país, sobretudo na Área Metropolitana de Lisboa (AML), [acaba por ser] negativo para essa própria região”, assinalou. Entre os grandes investimentos concentrados na Grande Lisboa constam, elencou, o novo aeroporto, a terceira travessia do Tejo, as linhas de alta velocidade e o projeto Parque Cidades do Tejo.

Para o diretor da FEP “o que faria sentido era investir em territórios com potencial subaproveitado, tornando-os atrativos e povoados, o que aliviaria a congestão da capital de forma virtuosa, reequilibrando o país”. Esta descentralização do investimento público poderia gerar o aumento de produtividade e crescimento económico no país.

Carlos Tavares, economista e presidente da Associação Círculo de Estudos do Centralismo (ACEC)

Algumas dessas regiões do interior “têm tido crescimentos da produtividade maiores do que algumas áreas litorais, mas não têm investimento suficiente para crescer como o país todo precisa e elas precisam também”, destacou, por sua vez, Carlos Tavares ao ECO/Local Online.

Por tudo isto, enfatizou Óscar Afonso, “Portugal não pode continuar a viver com um centro que se congestiona e uma periferia que se esvazia. Este padrão não é sustentável, nem económica nem socialmente”. O economista insistiu, por isso, que o país deve avançar para “um debate sério e persistente sobre a organização do território”.

Nesse sentido, o diretor da FEP elencou a necessidade de “políticas públicas menos reativas e mais estratégicas”, ou seja, “políticas que não se limitem a responder às crises à medida que elas surgem, mas que sejam capazes de antecipar tendências, orientar investimento de forma racional e criar condições para um desenvolvimento mais equilibrado”.

Óscar Afonso foi ainda mais incisivo na sua intervenção, durante a abertura da conferência que reuniu economistas de renome nacional: “Precisamos, sobretudo, de coragem para questionar estruturas ineficientes e injustas“. Urge, por isso, colocar o dedo na ferida e fazer um “diagnóstico rigoroso”, tendo em conta que o país enfrenta “desafios demográficos e económicos sérios: uma população muito envelhecida, uma migração interna persistente para o eixo litoral e a capital, e um modelo de especialização de baixa produtividade que não consegue reter os jovens qualificados e requer muitos imigrantes para funcionar”.

Segundo o diretor da FEP, um “diagnóstico [médico] incompleto frequentemente leva a políticas bem-intencionadas que só atuam sobre o sintoma e deixam intacta a causa ou, pior ainda, que agravam esse e outros problemas“. Daí a aposta “num Portugal mais coeso territorialmente [que] será também mais produtivo, mais resiliente e mais justo”.

A fraca coesão territorial e uma “especialização produtiva excessiva em atividades de baixo valor acrescentado” foram, aliás, as duas “fragilidades profundas e persistentes” apontadas pelo economista.

A crítica ao centralismo pela ACEC é explicada numa carta aberta, assinada por 25 personalidades que integram os órgãos sociais e o colégio consultivo desta associação fundada em Miranda do Douro. Este documento é dirigido ao Presidente da República, ao presidente da Assembleia da República e ao primeiro-ministro, a que o ECO teve acesso.

A tudo isto acresce o facto, nota, de Portugal ter uma “dívida enorme, ser um país viciado em fundos e que os usa para pagar despesa corrente, e não conseguir gerar rendimento; logo é um país bloqueado”.

Já o professor e economista Daniel Bessa apontou “a redução do IRS e do IRC nas zonas deprimidas do país” como sendo uma solução para combater as assimetrias regionais. Na prática, explicou, a “redução do IRS beneficiaria as pessoas que trabalhem e vivam no interior”, enquanto a baixa do IRC seria aplicada às empresas que pretendam desenvolver a sua atividade nessas regiões.

O antigo ministro da Economia defendeu ainda a reorganização dos serviços essenciais no interior do país, designadamente os sistemas de transporte escolar, além de unidades de saúde com atividade suficiente para assegurar qualidade e desenvolvimento das equipas médicas.

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