Exército cria ‘gémeos digitais’ para acelerar decisão no terreno e no apoio a calamidades
Liderado pelo Exército Português, o projeto internacional AMIDA será testado em 2027 num exercício da NATO. Solução pode ser uma via a ser usada no apoio à decisão em situação de calamidade.
Ajudar o Exército a tomar decisões rápidas e eficazes no teatro de operações através da inteligência artificial com criação de ‘gémeos digitais’ de ambientes urbanos é o objetivo do AMIDA-UT. Até 2028, o Exército Português conta investir 5,2 milhões de euros neste projeto internacional que será operacionalmente validado no próximo ano no “Coalition Warrior Interoperability Exercise” da NATO, mas o Exército já estuda escalar esta solução para apoiar a sua ação em situações de calamidade como o comboio de depressões que atingiu recentemente o país.
O projeto internacional AMIDA-UT (Automated Modelling, Identification and Damage Assessment of Urban Terrain) surge no âmbito da Cooperação Estruturada Permanente (PESCO), sendo liderado pelo Exército Português e contando com a participação da Áustria, Espanha e França.
“O objetivo central do AMIDA é desenvolver um Digital Twin operacional do edificado urbano, permitindo a modelação automática e contínua das áreas urbanizadas; a identificação e classificação de estruturas e avaliação de danos resultantes de ações extremas, e efeitos de potenciais contaminações em tempo quase real” e, com isso, ser uma solução de “apoio à tomada de decisão em diversos níveis, assistido por Inteligência Artificial”, garantindo a “continuidade operacional, mesmo com falhas de comunicações ou interferência”, explica porta-voz do Exército Português ao ECO/eRadar.
Ou seja, na prática, permite transpor para o teatro de operações uma solução IA já a ser aplicada no chão de fábrica de várias indústrias, na qual o Exército Português está a trabalhar com a tecnológica portuguesa Infinite Foundry, o lead developer do projeto.

“Na prática, o produto em desenvolvimento apresenta um grande potencial transformador da decisão militar, no sentido em que permitirá uma decisão informada com base em dados robustos. Pode ser enquadrado naquilo que se designa por indústria 5.0, em que para além das caraterísticas associadas à fase 4.0, de exploração da automação, digitalização e eficiência, se junta o elemento humano que é colocado no centro da tecnologia, simultaneamente enquanto beneficiário e colaborador para a melhoria do sistema”, explica porta-voz do Exército Português.
Com esta solução, não só o Exército obtém “informação fidedigna e robusta para apoio à decisão em segundos ou minutos em vez de horas”, como ganha “capacidade de planeamento operacional e avaliação de resultados de forma remota, com recurso a informação/imagens fornecidas por satélites, drones ou pessoas”, reduz o risco operacional, permitindo-lhe uma transição de “comando reativo para controlo preditivo e explicável”, ganhando, com isso, uma “vantagem operacional significativa”.
Liderado pelo Exército Português, o projeto tem participação de três outros países europeus, que deverão “alocar recursos financeiros ou em espécie, a partir de 2027, para novas aplicações ou melhoria das que se encontram em desenvolvimento”, detalha o porta-voz. Já o “contributo nacional para o projeto apresenta uma disponibilidade financeira que ronda os 5,2 milhões de euros, em sede de Lei de Programação Militar, até 2028“, adianta.

Esse montante será distribuído para investigação académica — “focada nas áreas da modelação estrutural automática, da resposta das estruturas a explosões e fragmentos e ainda dos modelos de linguagem natural multimodais para segmentação e classificação do edificado urbano, e a respetiva produção de algoritmos para implementação computacional”—, bem como no desenvolvimento e implementação da “plataforma modular e respetivas aplicações de software em código de fonte aberta, incluindo a otimização e paralelização da computação”.
E, por fim, na “construção de infraestruturas para validação física e operacional das ferramentas e algoritmos desenvolvidos”.
Aplicação à Proteção Civil
“Em fase de implementação”, o AMIDA já disponibilizou um Minimun Viable Product (MVP) aos utilizadores, tendo já sido demonstrada a capacidade de criação de gémeos digitais, de fazer o “cálculo de danos em tempo quase-real”, assim como o “processamento de todo o sistema em ambiente de reduzidos recursos computacionais”.

“O sistema está numa fase de validação pré-operacional (TRL intermédio-avançado), com demonstrações funcionais e operacionais que serão realizadas no decorrer deste ano, estando igualmente prevista a sua validação operacional em contexto NATO durante o ano de 2027, no exercício internacional Coalition Warrior Interoperability Exercise (CWIX 27)“, adianta porta-voz do Exército Português.
Já a sua implementação plena nos sistemas de apoio à gestão do campo de batalha (Headquarters management Systems – HMS) em uso no Exército, dependerá essencialmente “da consolidação de requisitos operacionais e implementação de especificações de interoperabilidade digital previstas nos standards da NATO”, da “manutenção do planeamento orçamental”, bem como do “desenvolvimento doutrinário e sua implementação na vertente operacional”.
Mas, sendo esta uma tecnologia de uso dual, o Exército Português admite que há planos de estender a sua aplicação a um uso não apenas militar.
A tecnologia tem aplicabilidade clara em contextos civis, mantendo o núcleo de capacidades desenvolvido no âmbito militar. No presente momento, a equipa de projeto do Exército encontra-se a desenvolver os requisitos para escalar o sistema para tarefas de previsão, deteção e mapeamento de danos e gestão de consequências resultantes de cheias, ventos fortes, tsunamis e sismos.
“A arquitetura AMIDA é escalável, podendo vir a ser particularmente relevante para apoio a emergências civis em cenários de catástrofe natural ou tecnológica”, refere porta-voz do Exército Português.
Mas não só. Pode ser usado para realizar uma “avaliação rápida de danos em edificações, obstruções em vias de comunicação e áreas interditas após sismos, ventos fortes, tsunamis ou incêndios”, mas também em missões de busca e salvamento, no “apoio à decisão em ambiente urbano complexo” ou agilizar a “tomada de decisão e coordenação multi-agência”, elenca.
A criação de um ‘gémeo digital’ do teatro de operações pode dar contributo na gestão de crises, de infraestruturas críticas ou no planeamento de evacuações, por exemplo.
“Assim, a tecnologia tem aplicabilidade clara em contextos civis, mantendo o núcleo de capacidades desenvolvido no âmbito militar. No presente momento, a equipa de projeto do Exército encontra-se a desenvolver os requisitos para escalar o sistema para tarefas de previsão, deteção e mapeamento de danos e gestão de consequências resultantes de cheias, ventos fortes, tsunamis e sismos”, revela o porta-voz do Exército Português.
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