Formação contínua, literacia digital na pré-primária e competências humanas. Guia de sobrevivência para o trabalho no futuro
Líderes do Técnico, Nova SBE, associação .PT e o eurodeputado Sérgio Humberto partilharam o que é necessário para manter os profissionais indispensáveis na era da inteligência artificial.

O investimento na formação contínua, a aposta na literacia digital durante a pré-escola e o desenvolvimento de competências sociais e humanas de gestão são os três principais eixos necessários para o emprego nos próximos anos. A visão sobre as habilitações do futuro foi partilhada esta terça-feira por líderes do Instituto Superior Técnico, Nova SBE, associação .PT e o eurodeputado Sérgio Humberto, na conferência “Reprogramar o Trabalho”, promovida pelo ECO.
“Em todas as engenharias existe uma disciplina de algoritmia ou programação. Na minha opinião, neste momento, deveria existir uma disciplina de IA para a saber usar da melhor forma. Não deveríamos começar mais cedo? Evidentemente. No ensino básico ter os professores a ensinar os alunos a fazerem pesquisas”, apelou a professora Goreti Marreiros, presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial (APPIA).
A diretora da Formação de Executivos da Nova SBE, Marta Pimentel, considera que a “aproximação à IA é uma atividade diária” e requer “mais transversalidade na aprendizagem”. Tanto que se evoluiu, mesmo nestas pós-graduações em gestão, negócios e administração – de um formato de profissional com perfil em (expertise na área e visão ampla sobre outros temas) para alguém que mantém a necessidade de visão sistémica e inclui mais camadas de especialização.
“O desafio da formação de executivos é ajudar a lidar com a reprogramação organizacional e abrir o véu da capacidade de imaginar, que envolve competências humanas de gestão”, afirmou Marta Pimentel, no painel intitulado “Skills for survival: O que precisamos de saber para continuar a trabalhar”.
O presidente do Instituto Superior Técnico (IST), Rogério Colaço, optou por deixar a reflexão na audiência e citou os dados do estudo científico “Imagining the (Distant) Future of Work”, publicado em 2024 na Academy of Management Discoveries.
Numa análise a artigos sobre o impacto da tecnologia no trabalho, a socióloga belga Nicky Dries concluiu que os textos otimistas são de empreendedores, empresários e industriais, os neutros de economistas e os pessimistas de jornalistas e escritores.
Neste campo, Goreti Marreiros disse que se insere “na faixa do realista esperançoso”. “Na escola primária, os alunos continuam a aprender a tabuada e a calculadora existe há muito tempo. Não foi pior isso que deixaram de aprender, mas fazem-no com novas ferramentas”, recordou a presidente da APPIA.
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Sérgio Humberto, Eurodeputado -
Luísa Ribeiro Lopes, Presidente Conselho Diretivo do .PT -
Rogério Colaço, Presidente do Instituto Superior Técnico -
Goreti Marreiros, Presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial (APPIA) -
Marta Pimentel, Diretora Executiva da Formação de Executivos da Nova SBE
Por sua vez, a presidente do conselho diretivo do .PT, Luísa Ribeiro Lopes, colocou-se do “lado pessimista do painel”. “Sabemos as competências que temos hoje, mas ainda não estamos totalmente satisfeitos com o que temos. Em Portugal, 40% da população ainda não tem a capacidades tecnológicas básicas, como utilizar um smartphone ou um computador”, exemplificou.
A situação é transversal ao Velho Continente. As percentagens no conjunto dos 27 Estados-membros da União Europeia (UE) “são piores do que os 40% em Portugal”, mais quatro pontos percentuais (44%) sem competências digitais básicas, conforme indicou o eurodeputado Sérgio Humberto.
“A UE precisa de milhões de especialistas em TIC até ao final desta década. É aqui que está a nossa oportunidade. Quem souber de ciências de dados, se especializar em cibersegurança e se aventurar em governação tecnológica é o futuro”, afirmou o deputado do Parlamento Europeu que faz parte do grupo democratas-cristão PPE – Partido Popular Europeu.
Há três anos se eu perguntasse quem daqui trocou impressões e pediu opinião a algo que não é humano diriam que estava maluco.
O presidente do IST defendeu a alteração do paradigma do ensino superior, o da especialização, porém explicou que “não é fazível dizer de um dia para o outro dizer ‘agora vão ensinar IA’”, porque demora tempo a formar o corpo docente nestas matérias de vanguarda.
“A velocidade coloca desafios e necessidades de adaptação do ponto de vista social e do mercado de trabalho”, salientou Rogério Colaço, considerando que não é possível antecipar concretamente as competências, porque “vivemos na quarta grande revolução tecnológica da realidade”.
“Esta ainda não tem nome, mas é uma grande revolução, a introdução de máquinas que são criativas. É uma enorme transformação que não sabemos onde nos leva”, referiu.
Temos de aprender desde que nascemos até morrermos. A formação contínua é, cada vez mais, determinante. Cabe ao poder político arriscar. Temos de ter uma visão de oportunidade nesta revolução que está a acontecer.
O eurodeputado Sérgio Humberto pediu “arrojo político” como aquele teve o antigo primeiro-ministro britânico Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial, porque agora “vivem-se guerras híbridas”, no ciberespaço, que também é preciso enfrentar.
No entanto, deixou um alerta para a necessidade de profissões no setor produtivo: “Nem todos podem ser engenheiros e jornalistas. Hoje em dia, um carpinteiro ganha quanto quer e os psicólogos vão ganhar muito com a saúde mental. Não são profissões menores”.
Estamos a viver uma situação geopolítica mundial que é difícil de prever, portanto não se pode deixar ninguém para trás.
Enquanto líder de uma associação de promoção da literacia digital, Luísa Ribeiro Lopes garante que “este desígnio tem de começar na pré-primária”. A seu ver, a aposta está no ensino a partir dos “cinco anos, que tem de ser uma prioridade das políticas públicas”.
A ex-coordenadora do INCoDe.2030 crê que a academia adapta-se bem ao mercado de trabalho, porém persistem lacunas no acesso à tecnologia e ao emprego nas TIC para mulheres, porque as políticas públicas estão “estão muito focadas no desenvolvimento económico e deixam o ‘qualifiquem-se’ para o cidadão e as empresas”.
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