Imobiliário do Dubai afunda 38% em duas semanas
A guerra no Médio Oriente destruiu em duas semanas o que o mercado imobiliário de Dubai tinha construído no último ano, regressando a mínimos de abril 2025.
- O mercado imobiliário do Dubai, que teve um crescimento explosivo nos últimos anos, enfrenta uma queda acentuada de 38% desde o início da guerra no Irão.
- Os valores transacionados no setor imobiliário dos Emirados Árabes Unidos caíram 51% em março, refletindo a paralisia da procura e a incerteza geopolítica.
- As construtoras estão a adotar uma postura defensiva, priorizando a liquidez, o que indica um futuro incerto para o mercado imobiliário de Dubai.
O Dubai tinha-se tornado, nos últimos dois anos, num dos mercados imobiliários mais quentes do planeta. O índice DFM Real Estate Index, o principal barómetro bolsista do setor imobiliário cotado na Bolsa de Dubai (Dubai Financial Market) que agrega as maiores construtoras e promotoras do emirado – como a Emaar Properties, responsável pela construção do Burj Khalifa e do Dubai Mall –, acumulou uma valorização de 63% em 2024, seguida de mais 30% em 2025 e de outros 21% apenas nos primeiros dois meses de 2026. Uma trajetória de crescimento sem precedentes que, em poucas semanas, foi varrida pelo vendaval geopolítico que sacudiu o Médio Oriente.
Desde que os EUA e Israel iniciaram os ataques ao Irão a 28 de fevereiro, o índice entrou em queda livre, chegando a perder 38% e regressando a mínimos de abril do ano passado, numa sequência de dez sessões consecutivas no vermelho que só esta terça-feira foi interrompida, com uma recuperação de 6,4% que, para já, pouco mais representa do que um respiro técnico num mercado nervoso.
O impacto da escalada do conflito no Médio Oriente fez-se sentir de forma imediata e brutal no setor imobiliário dos Emirados Árabes Unidos. De acordo com dados do Goldman Sachs, numa nota enviada aos seus clientes, o banco norte-americano revela que os valores transacionados no mercado imobiliário dos Emirados Árabes Unidos (EAU) registaram uma queda de 51% em termos mensais e de 31% em termos homólogos na primeira quinzena de março, desde o início do conflito.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
A segunda semana do mês revelou-se ainda mais penalizadora, com as transações no mercado secundário a recuaram 59% face ao período homólogo, com o segmento de moradias a colapsar 89% em termos anuais.
Os preços medianos dos apartamentos por metro quadrado desceram 8% face ao mês anterior, num sinal de que a incerteza geopolítica está a paralisar a procura. Este abrandamento abrupto levanta questões sobre a resiliência de um mercado que, até há poucas semanas, parecia imparável.
Do lado das empresas, a agência de notação financeira Fitch antecipa que as principais construtoras dos EAU vão adotar uma postura defensiva, privilegiando a preservação de liquidez em detrimento de novos investimentos e expansão.
Trata-se de uma mudança de paradigma significativa num setor que, nos últimos anos, se distinguiu justamente pela agressividade dos seus planos de crescimento e pelo lançamento contínuo de novos projetos de luxo, muitas vezes vendidos na planta muito antes de serem construídos.
Com o conflito longe de estar resolvido, com os bancos de investimento a cortarem previsões e com as construtoras a entrar em modo de contenção, o caminho de regresso aos máximos históricos promete ser longo e incerto.
O DFM Real Estate Index reflete, assim, uma realidade mais ampla: a de um emirado cujo modelo de prosperidade foi construído, em parte, sobre a estabilidade regional e sobre a capacidade de atrair capital internacional.
O Dubai posicionou-se durante anos como um porto seguro para investidores de todo o mundo – incluindo muitos russos, iranianos e árabes que procuravam diversificar ativos em mercados menos expostos a conflitos. A guerra muda essa equação. Quando a tensão no Médio Oriente sobe, mesmo quem apostou no Dubai como alternativa à instabilidade começa a questionar a sua exposição à região.
A recuperação de 6,4% desta terça-feira pode ser encarada como um sinal de que o mercado tenta estabilizar após uma queda de proporções históricas e que alguns investidores aproveitam os mínimos para reforçar posições. Mas com o conflito longe de estar resolvido, com os bancos de investimento a cortarem previsões e com as construtoras a entrar em modo de contenção, o caminho de regresso aos máximos históricos promete ser longo e incerto.
Para um mercado habituado a bater recordes, esta é, por enquanto, uma paragem forçada numa ascensão que parecia não ter teto.
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