Lactogal combate crise do leite com aposta anual de 50 milhões nos queijos e no iogurte

A celebrar 30 anos, a líder ibérica dos laticínios está a reorientar o negócio – com maior capacidade industrial e diversificação de produtos – e não descarta novas aquisições.

O setor do leite está viver “uma das maiores crises de sempre“, afirmou esta terça-feira José Marques, presidente executivo da Lactogal. A maior empresa agroalimentar do país está a responder com investimentos anuais de 50 milhões de euros na industrialização e na aposta nos iogurtes e queijos, parte de um plano estratégico até 2030 que poderá incluir aquisições, à semelhança da compra há precisamente dois anos do Grupo Queijos Santiago.

Num encontro com jornalistas em Lisboa, Marques recordou as raízes da Lactogal, que nasceu há 30 anos através da fusão das cooperativas de produtores Agros, Proleite e Lacticoop. “Foi, à época, uma necessidade, porque foi no período em que a distribuição se começou a organizar e houve esta necessidade também de este setor se organizar“, explicou. “Não tenho dúvidas que se a Lactogal não tem surgido, não tinha havido este entendimento entre estas três cooperativas e hoje o setor do leite em Portugal seria limitado a meia dúzia de produtores”.

O presidente da Lactogal lembra que a fusão aconteceu em reação à entrada de players internacionais em Portugal. “Na altura foi até muito famoso o patrocínio da Parmalat ao Benfica. Aliás, a entrada da Parmalat em Portugal foi, no fundo, o que disputou a junção das três rivais, que eram três rivais, eram mesmo três rivais”.

“A Lactogal começa na produção e acaba no consumidor, incorpora desde a produção até ao consumo final da embalagem, ou seja, do leite”, sublinhou. “Isto é uma mais-valia porque resulta numa vantagem para a produção e para os produtores”.

Para José Marques, é essa a razão por que ainda hoje o setor do leite em Portugal “tem a vitalidade, tem a pujança que tem. E, apesar de estarmos neste momento a atravessar uma das maiores crises do setor, temos a esperança que seja uma fase temporária, curta, e que volte a recuperar a curto prazo”.

“Uma brutalidade”

Hoje a Lactogal controla marcas com a Mimosa, Matinal, Vigor, Gresso, Primor e Castelões nos laticínios e ainda Serra da Penha, Pleno e Fresky nas bebidas. Mas é no leite que reside a atual crise, fruto da volatilidade dos mercados.

Jacinto Rui, José Marques, Daniela Brandão e Bruno Baldeante da Costa integram a comissão executiva da Lactogal

No mesmo evento, Daniela Brandão, membro da Comissão Executiva da Lactogal, alertou que “estamos desde o verão com uma crise muito forte a nível europeu, a nível mundial também , mas a nível europeu, muito, muito forte”.

A Europa deixou de ser competitiva face às outras geografias, como a Nova Zelândia e os Estados Unidos, houve uma alteração que nunca tínhamos visto, passamos a ser importadores de produtos dos Estados Unidos, sobretudo queijo e manteiga, e aquilo que assistimos foi uma descida dos preços

Daniela Brandão

Membro da Comissão Executiva da Lactogal

“A Europa deixou de ser competitiva face às outras geografias, como a Nova Zelândia e os Estados Unidos, houve uma alteração que nunca tínhamos visto, passamos a ser importadores de produtos dos Estados Unidos, sobretudo queijo e manteiga, e aquilo que assistimos foi uma descida dos preços”, concretizando que o preço da manteiga desceu de sete euros por quilo para cinco euros em duas semanas. “Foi uma brutalidade, isto impactou muito na indústria láctea europeia”.

No último ano, os custos de produzir um litro de leite e as condições climáticas a nível global, nas principais zonas de produção, foram muito positivos, explicou Brandão. “Essa é a principal causa, produziu-se mais, basicamente, mais e mais barato”.

Daniela Brandão explicou que em 2024 o setor teve “um ciclo francamente positivo, dado o resultado do ciclo anterior ter sido negativo”. A Lactogal “conscientemente”, apesar de ter “um plano de investimento fechado, bem estruturado e com cashflows estimados, que devem ter o máximo de estabilidade possível”, tem de “criar” e ter “mecanismos internos de estabilização dos preços” com os produtores.

Essa crise já teve impacto nos números de 2025. Brandão disse que a empresa ainda não fechou as contas, mas adiantou alguns valores. A Lactogal conseguiu aumentar a faturação de 1,1 mil milhões de euros para 1,2 mil milhões, mas o EBITDA (sigla em inglês para resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) caiu para 40 milhões, de 70 milhões em 2024, com o resultado líquido a tombar para cerca de 11 milhões, de 35 milhões.

Bruno Costa, também membro da comissão executiva, referiu que a Lactogal investiu 150 milhões nos últimos três anos, “muito para a capacidade industrial, obviamente, uma grande parte para a inovação, uma grande parte de apoio às marcas”.

“Queremos continuar neste ritmo, no ciclo estratégico até 2030, numa média que esperamos de 50 milhões a ano, mas obviamente excluindo movimentos aquisitivos, pois isso não dominamos”, acrescentou.

A empresa não está atualmente a estudar uma oportunidade em concreto, mas está atenta. “Temos um plano estratégico, permite-nos alguma flexibilidade e ter aqui uma especial atenção dentro dos nossos mercados de oportunidades que possam surgir, mas, acima de tudo, nós estamos preocupados em como construir esta proposta de valor neste novo ciclo, que é envolver a produção e os nossos acionistas cooperativas e produtores desde o início”.

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