O primeiro Ferrari elétrico nasce com uma guerra com a Mazda

Luís Leitão,

A estreia do primeiro Ferrari elétrico começou com uma disputa inesperada. A Mazda registou o nome Luce no Japão e tentou travar o lançamento do modelo que promete mudar a história da marca italiana.

Das linhas de montagem de Maranello nasceram os carros mais icónicos do mundo. Agora, quase oito décadas depois da sua fundação, a Ferrari prepara o salto para a era elétrica com o seu modelo mais ambicioso de sempre, o Luce.Ferrari

A Ferrari estava prestes a escrever uma das páginas mais importantes da sua história ao apresentar, pela primeira vez em quase oito décadas de existência, um carro totalmente elétrico, quando surgiu uma nuvem inesperada no horizonte: a Mazda.

Três semanas após a construtora italiana revelar o nome do seu primeiro veículo elétrico, a japonesa registou a marca “Luce” no seu mercado doméstico, numa jogada amplamente interpretada como uma tentativa de bloquear a Ferrari.

A resposta de Maranello, porém, foi direta e sem margem para dúvidas. “Detemos o direito de usar a marca Ferrari Luce internacionalmente, ao abrigo do registo previsto no direito internacional”, declarou a empresa esta segunda-feira num comunicado citado pela Reuters, acrescentando que as pesquisas prévias realizadas antes do anúncio do nome “não identificaram quaisquer direitos de terceiros em conflito” com os seus.

A Mazda usou o nome “Luce” entre 1966 e 1991 numa berlina de luxo que chegou a ser vendida internacionalmente como Mazda 929, um modelo com prestígio suficiente para que a construtora japonesa lhe prestasse homenagem em 2017.

A polémica em torno do nome chega num momento de máxima expectativa em torno da marca do Cavallino Rampante. O Ferrari Luce – em que “luce” significa “luz” em italiano, num duplo sentido que une a luz natural à energia elétrica – será apresentado em Roma em maio, e as pré-encomendas abriram em março.

O modelo conta com quatro portas, quatro lugares e quatro motores elétricos com mais de 1.000 cavalos, aceleração dos 0 aos 100 km/h em 2,5 segundos e velocidade máxima de 310 km/h, num interior desenhado pelo estúdio LoveFrom, criado pelo designer do iPhone, Sir Jony Ive, e pelo australiano Marc Newson.

O fundamento da reclamação da Mazda não é de somenos: a construtora japonesa usou o nome “Luce” entre 1966 e 1991 para uma berlina de luxo que chegou a ser vendida internacionalmente como o Mazda 929, um modelo com prestígio suficiente para que a própria Mazda lhe prestasse homenagem em 2017, com o conceito Vision Coupe apresentado no Salão de Tóquio.

Contudo, a Ferrari sustenta que os seus registos internacionais de marca são sólidos e que a utilização anterior do nome num carro descontinuado há mais de três décadas não chega para criar um conflito de direitos. Muitos especialistas e analistas da indústria partilham desta interpretação: os fabricantes automóveis registam frequentemente marcas antigas apenas para evitar a sua apropriação por terceiros, sem que isso signifique qualquer intenção de as usar comercialmente.

O interior do Ferrari Luce foi desenhado pelo estúdio LoveFrom, fundado pelo criador do iPhone, Jony Ive. Do pouco que ainda se sabe, o habitáculo aposta num design minimalista e tecnológico para acompanhar o primeiro Ferrari totalmente elétrico da história.Ferrari

Uma novela de casos judiciais de modelos Ferrari

O caso envolvendo o Luce não é a primeira vez na história da indústria que um nome causa turbulência antes do arranque de um modelo. Em 2024, a Alfa Romeo foi forçada a rebatizar o seu SUV compacto, revelado como “Milano”, para “Junior”, por a lei italiana proibir que produtos fabricados no estrangeiro (neste caso, na Polónia) adotem denominações que sugerem origem italiana.

Antes disso, a Fiat teve de abandonar o nome “Gingo”, destinado ao modelo que seria o Panda de 2003, depois de a Renault ter contestado a semelhança com o “Twingo”.

A Ferrari conhece bem este terreno, mas nem sempre como parte protegida. Em 2023, o Instituto da Propriedade Intelectual da União Europeia (EUIPO) tentou revogar os direitos da construtora sobre a marca “Testarossa”, o nome do carro imortalizado pela série televisiva Miami Vice nos anos da década de 1980, com base no argumento de que a Ferrari não o tinha utilizado ativamente no mercado europeu durante cinco anos consecutivos.

Ao longo de décadas, a Ferrari aprendeu que as batalhas pelos nomes dos seus modelos se ganham ora nos tribunais, ora nas salas de reuniões.

A Ferrari contestou e, em julho do ano passado, o Tribunal Geral da União Europeia deu-lhe razão, num precedente importante para marcas de automóveis clássicos: o tribunal considerou que a revenda e autenticação de veículos usados constituíam “uso genuíno” da marca, mesmo sem produção de carros novos. Mas nem sempre correu bem.

  • A disputa com a Ares Design em torno da forma do lendário 250 GTO revelou-se numa derrota para a Ferrari, que perdeu o direito à exclusividade sobre o design do modelo, depois de o EUIPO concluir que a construtora não o havia utilizado ativamente durante mais de cinco anos consecutivos.
  • A Ferrari também foi ela própria visada por uma ação judicial da Ford em 2011, quando a americana processou a scuderia italiana por usar a designação “150° Italia” para o seu monolugar de Fórmula 1 em homenagem ao 150.º aniversário da unificação italiana, por considerar que a denominação era demasiado semelhante à da sua icónica pickup F-150. A Ferrari acabou por ceder e renomeou o carro para “F2012”, optando por evitar um prolongado confronto legal que nada acrescentaria ao desempenho da equipa na pista.

Com a disputa da Mazda aparentemente encerrada, a Ferrari pode agora concentrar-se no que realmente importa: fazer do Luce o maior lançamento da sua história.

A construtora de Maranello prevê que o EBITDA ajustado supere os 2,93 mil milhões de euros em 2026, um crescimento de, pelo menos, 6% face aos 2,77 mil milhões de 2025, suportado numa carteira de encomendas que já se estende até ao final de 2027, muito antes de o carro ter sequer sido apresentado ao mundo.

Ao longo de décadas, a Ferrari aprendeu que as batalhas pelos nomes dos seus modelos se ganham ora nos tribunais, ora nas salas de reuniões. Desta vez, escolheu ganhar antes de o jogo começar.

Com a questão da marca aparentemente resolvida para o seu elétrico, a Ferrari pode focar-se no que realmente importa: a apresentação do Luce e os resultados financeiros que o seu lançamento deverá sustentar.

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