Quem é a “água lamacenta” que está a atacar a Mota-Engil

Fundo norte-americano especializou-se em tomar posições curtas em empresas que considera sobreavaliadas e já levou a luta a tribunal.

Nasceu em 2010 mas já tem atrás de si um longo percurso marcado por um agressivo ativismo acionista e por tomar posições curtas, que apostam na desvalorização dos títulos, em cotadas um pouco por todo o mundo. A Muddy Waters, que tem num tribunal texano uma disputa contra a Mota-Engil e o seu CEO, é conhecida por jogar duro. Mas, afinal, que fundo é este e o que pretende?

A história da empresa nasce com Carson Block, um investidor que tem hoje 48 anos e que fundou em 2010 a Muddy Water Research. O objetivo desta era produzir conhecimento sobre empresas cotadas de forma independente, e não ter de tomar decisões com base nas habituais firmas de investimento e research. Block partiu do pressuposto de que o sistema habitual não faz todo o trabalho de casa na análise das empresas em bolsa, pelo que decidiu criar equipas internas para o conseguir.

Mas esta empresa não se limita a fazer análise. Não só vende esse serviço para quem o quiser (e também disponibiliza publicamente vários relatórios) como atua com base nas suas conclusões, com uma estratégia para tirar partido de empresas que, no seu entender, estão sobreavaliadas: o short-selling, procurando lucrar com a desvalorização dos títulos.

Em 2016, deu o passo em frente: criou a Muddy Waters Capital LCC, uma firma de investimento que pretende efetivamente investir e agir diretamente com base no research feito pela Muddy Waters Research.

 

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Voltando um pouco atrás, logo no nascimento, a Muddy Waters (águas lamacentas ou águas turvas, em tradução direta) começou a fazer ondas. O primeiro alvo foi a Sino-Forest Corporation, com valores mobiliários cotados na América do Norte e que se apresentava como uma das maiores proprietárias de floresta comercial da China. Carson Block fez as contas e achou que havia algo de errado com a empresa, lançando uma campanha contra a gestão, alegando que a Sino-Forest pouco mais era que um esquema Ponzi. Depois da Muddy Waters ter publicado e publicitado as suas conclusões sobre as contas da empresa, as ações caíram perto de 80%, levando a perdas de muitos investidores, incluindo o famoso John Paulson. A Sino-Forest defendeu a solidez das suas contas mas pediu uma auditoria independente. Um ano depois do ataque de Block, entrou em falência.

Ao longo dos anos, a firma focou-se em empresas norte-americanas, chinesas, mas também suecas e alemãs. E aqui coloca-se um dos problemas, o facto de a Muddy Waters, em muitas situações, denunciar o que entende ser manipulação das contas, por exemplo, enquanto ao mesmo tempo tem uma posição short sobre as ações. Ou seja, tem diretamente a ganhar se a reputação e a cotação das empresas em causa vier a ser posta em causa.

Foi isso que aconteceu em 2016, quando o regulador alemão entrou em cena para conter o que considerou ser um comportamento abusivo da Muddy Waters. Esta fez uma análise dura para a Ströer, empresa de Colónia que gere espaços publicitários, defendendo que existiam irregularidades contabilísticas e com a contabilização do seu crescimento orgânico. As ações caíram perto de 25% mas só quando a firma de investimento norte-americana divulgou o seu relatório se soube que já tinha construído uma posição short sobre os títulos. Depois de uma queixa da Ströer à BaFin, autoridade de supervisão alemã, esta criticou os short-sellers mas acabou por não tomar qualquer decisão formal sobre a atividade da Muddy Waters, naquele caso.

A descrição da empresa no seu próprio site é bastante clara quanto ao seu objetivo. “A Muddy Water LCC é uma pioneira no research de investimento no terreno e de publicação gratuita. A Muddy Waters retira as camadas, muitas vezes construídas por empresas de advogados aparentemente respeitadas mas bajuladoras, auditores e administrações tendenciosas. Temos orgulho em avaliar o verdadeiro valor de uma empresa e de ver através da opacidade e do ‘hype’ que algumas administrações criam”.

A nossa aproximação ao research é a combinação de talentos diversos, incluindo contabilistas forenses, investigadores experientes, especialistas em avaliações e empreendedores, muitos dos quais têm experiência em gerir negócios nos Estados Unidos e em mercados emergentes.

Muddy Waters Research

E continua: “A nossa aproximação ao research é a combinação de talentos diversos, incluindo contabilistas forenses, investigadores experientes, especialistas em avaliações e empreendedores, muitos dos quais têm experiência em gerir negócios nos Estados Unidos e em mercados emergentes”.

A empresa produz três tipos de relatórios, dependendo do foco: “fraude no negócio, fraude contabilística e problemas fundamentais. Os relatórios de fraude no negócio focam-se em emitentes que reportam receitas massivamente acima das reais. Os relatórios de fraude contabilística cobrem negócios reais que aumentam os lucros através de fraude. Os relatórios sobre problemas fundamentais discutem negócios opacos que têm sérios problemas fundamentais das quais o mercado ainda não tem perceção”.

No caso da Mota-Engil, ainda não houve um relatório público completo por parte da Muddy Waters, mas esta parece considerar que tem campo para atacar. Para já, a ação que colocou num tribunal texano tem a ver com as declarações de Carlos Mota dos Santos, em 2024, ao jornal Expresso, nas quais afirmou que a empresa norte-americana estaria a praticar manipulação de mercado.

A ação judicial pretende que a Muddy Waters seja ressarcida por danos à sua reputação mas a queixa – a que o ECO teve acesso – não deixa de fazer uma análise dura para a Mota-Engil, de forma a justificar a sua tomada de uma posição curta nas ações da construtora portuguesa.

“Em 2024, depois de meses de research e de análise, a Muddy Water concluiu que a Mota-Engil SGPS estava materialmente a induzir em erro os seus investidores através, entre outros problemas, do sub-reporte da sua dívida, e que a família que controla a Mota-Engil estava a extrair de forma imprópria valor da companhia às custas dos outros acionistas”, pode ler-se na explicitação de motivos da queixa.

Num comunicado divulgado no último sábado, a Mota-Engil nega todas estas alegações.

Segundo os dados publicados no site da CMVM, a Muddy Waters tem uma posição curta em aberto na Mota-Engil de 0,57% do capital desta, mas não está sozinha. Há mais três posições de outros fundos de investimento, todas superiores. Para além disso, é possível que existam outras, mas só há necessidade de as comunicar quando a posição passa a representar mais de 0,5% do capital.

É um pouco como fazer um puzzle. Estás mesmo a tentar encontrar as peças e perceber como elas se combinam para ficar com uma imagem clara do que a empresa está a fazer.

Carson Block

Fundador da Muddy Waters

Em 2016, Carson Block explicou à Business Insider qual a sua estratégia quando parte para a análise de uma empresa: “É um pouco como fazer um puzzle. Estás mesmo a tentar encontrar as peças e perceber como elas se combinam para ficar com uma imagem clara do que a empresa está a fazer”.

A Muddy Waters já teve problemas legais e nem sempre teve sucesso na sua estratégia de ganhar dinheiro com a queda de ações de empresas que considera sobreavaliadas. Mas tem um histórico de agressividade que, por vezes, atrai outros fundos que procuram seguir a mesma estratégia, aumentando a pressão sobre a cotada-alvo.

Fica é sempre a eterna questão: deteta fragilidades nas empresas nas quais tem uma posição curta porque elas estão factualmente sobrevalorizadas ou afirma-o como forma de as desvalorizar e assim ganhar dinheiro?

Notícia atualizada às 15:16 com informação acerca da atuação da alemã BaFin perante a Muddy Waters, no caso da Ströer

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