Empresas pedem novas políticas públicas e maior envolvimento da academia na formação de pessoas

Empresas portuguesas reforçam a necessidade de políticas públicas e maior envolvimento da academia na formação, e apostam na requalificação de pessoas para enfrentar a revolução tecnológica.

A aposta na formação de recursos humanos, é atualmente considerada pelo tecido empresarial um fator importante para que seja possível tirar o máximo partido das tecnologias emergentes. Esta terça-feira teve lugar no Centro Cultural de Belém a conferência “Reprogramar o Trabalho” que contou com um painel intitulado “O Algoritmo no Escritório: Como a IA Está a Mudar o Trabalho Real”. Mas a conversa foi bem mais longe do que apenas o impacto da tecnologia.

Para Marcelo Nico, diretor geral da Tabaqueira, “o sucesso de qualquer organização está nas pessoas e com a IA são estas que passam a ter o elemento fundamental da organização”. Segundo o responsável a empresa tem investido nos últimos anos na formação dos funcionários para que agora esteja preparada para a “onda tecnológica” que se vive.

O diretor-geral da Tabaqueira destaca que a organização é “um todo muito maior” do que apenas os seus colaboradores. Marcelo Nico explica que a Tabaqueira defende uma abordagem integrada à formação, que inclua não só os funcionários, mas também fornecedores e parceiros de distribuição. Numa cadeia de valor cada vez mais interligada e com fronteiras organizacionais menos definidas, torna-se essencial pensar a formação de forma abrangente. Nesse sentido, sublinha que nenhuma organização, por mais forte que seja, “consegue enfrentar este desafio de forma isolada”.

Marcelo Nico, diretor geral da Tabaqueira

Marcelo Nico sublinha que, no âmbito da formação, é necessária a colaboração de outros parceiros sociais, como universidades, centros de formação e o Governo. “Portugal tem pessoas com muito talento”, afirmou o responsável argentino, que lidera a operação nacional.

Questionado sobre a requalificação dos trabalhadores face à IA, Marcelo Nico afirma que o reskilling é uma constante no mundo do trabalho, agora acelerada pelo avanço tecnológico. Destaca que as formas de trabalhar têm evoluído ao longo do tempo e que, no caso da Tabaqueira, essa transformação é ainda mais profunda. A empresa assumiu o objetivo de “criar um mundo sem fumo e acabar com o cigarro tradicional como o conhecemos”, sublinhou o diretor geral da Tabaqueira. “Esta é uma transformação enorme do paradigma dentro da nossa organização”, acrescentou.

No mesmo painel, Vera Rodrigues, Head of People na Sonae MC, reforçou a importância do ecossistema da formação e partilha da opinião que a responsabilidade não deve ser atribuída só à empresa. “É preciso envolver a academia, as universidades e também as políticas públicas”, afirmou a responsável.

A responsável admitiu, porém, que a academia nem sempre consegue acompanhar as necessidades do mercado. “Temos parcerias com várias universidades, mas, muitas vezes, encontramos respostas diferentes daquilo que precisamos”, explicou. Apesar das academias internas das empresas e de alguns programas com reconhecimento formal de graus, há competências que continuam escassas e difíceis de suprir.

Para Vera Rodrigues, é urgente criar um “pacto de competências” que alinhe a formação às exigências do mercado de trabalho. “É preciso um alinhamento entre aquilo que é o sentido de urgência do mercado real, do mercado de trabalho e daquilo que pode estar a escassear, e seja lido e interpretado com o mesmo sentido de urgência por parte das instituições”, detalha.

era Rodrigues, Head of People na Sonae MC

Pedro Ginjeira do Nascimento, Secretário-Geral da Associação Business Roundtable Portugal, destacou a importância de olhar para a formação de forma abrangente. “Quando falávamos na preparação, estávamos muito focados na inteligência artificial, mas também é importante pensar na requalificação de desempregados”, afirmou. Nesse sentido, a associação participa com o IEFP no programa PRO_MOV, criado pela Sonae e já alargado a cerca de 150 empresas, que promove a formação rápida de desempregados, permitindo-lhes regressar ao mercado de trabalho com novas competências. Entre os cursos disponíveis estão áreas como cibersegurança e business analyst, que incorporam tecnologias avançadas e programação.

O responsável sublinhou ainda o trabalho conjunto com o Ministério da Educação na redefinição do ensino profissional em Portugal, focando-se em 60 áreas estratégicas. “A tecnologia afeta todos os setores, e por isso redesenhámos cursos, incluindo na agricultura, onde hoje quem toma decisões precisa de novas competências digitais”, explicou. O objetivo é preparar profissionais para funções mais complexas e para a utilização prática de tecnologias emergentes em diferentes setores.

Pedro Ginjeira do Nascimento acrescentou que o foco não está apenas nas grandes empresas, mas também nas PME. “Queremos chegar ao tecido empresarial português, apoiando as PME a acelerar esta transformação tecnológica”, afirmou.

Pedro Ginjeira do Nascimento, Secretário-Geral da Associação Business Roundtable Portugal

Tabaqueira apresenta a TLAB, Academia de Liderança e Transformação

A Tabaqueira apresentou ainda na Conferência “Reprogramar o Trabalho” a T.LAB – Academia de Liderança e Transformação, uma iniciativa que visa reforçar as competências de colaboradores, parceiros da cadeia de valor e da comunidade. O projeto representa um investimento no desenvolvimento humano como motor de inovação, inclusão e transformação.

A empresa está a consolidar um ecossistema de parceiros que inclui universidades, centros de formação e organizações da sociedade civil, como ATEC – Associação de Formação para a Indústria, BCSD – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, Code for All, ETPM – Escola Técnica e Profissional de Mafra, Escola Superior Náutica Infante D. Henrique, GRACE – Empresas Responsáveis, IST – Instituto Superior Técnico, ISCTE, Nova SBE e PRO_MOV. A relação com o meio académico será reforçada através de bolsas de estudo, programas de investigação e iniciativas conjuntas de capacitação.

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