Guerra no Irão obriga Fed a congelar novamente taxas de juros

A escalada da guerra no Médio Oriente assustou a Fed, que optou por congelar os juros entre 3,5% e 3,75% pela segunda vez consecutiva, numa decisão que contou com 10 em 11 votos a favor.

ECO Fast
  • A Reserva Federal dos EUA decidiu manter as taxas de juro inalteradas pela segunda reunião seguida, refletindo um dilema entre inflação e crescimento económico.
  • O Comité de Política Monetária da Fed admite abertamente que as implicações dos desenvolvimentos no Médio Oriente para a economia norte-americana são incertas.
  • A decisão de manter as Fed Funds inalteradas foi aprovada por dez dos onze membros do Comité de Política Monetária.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A Reserva Federal norte-americana (Fed) manteve as taxas de juro inalteradas, numa decisão tomada pelo Comité de Política Monetária (FOMC) amplamente antecipada pelos analistas, com a taxa dos Fed funds a permanecer em torno dos 3,6% pela segunda reunião consecutiva, num momento em que a guerra com o Irão veio tornar ainda mais complexo o já difícil equilíbrio entre inflação e crescimento económico.

A escalada do conflito no Médio Oriente, desencadeado pela Administração Trump a 28 de fevereiro, fez disparar o preço do petróleo e elevou os preços da gasolina nos EUA para 3,84 dólares por galão, um aumento de cerca de 30% desde o início da guerra. A isto acresce que os preços no produtor subiram 3,4% em termos homólogos em fevereiro, o ritmo mais rápido num ano, e que a economia americana perdeu 92 mil postos de trabalho no mesmo mês, dados que já preocupavam o banco central antes mesmo do início do conflito.

No comunicado divulgado esta quarta-feira, o FOMC reconhece que “os indicadores disponíveis sugerem que a atividade económica tem vindo a expandir-se a um ritmo sólido”, mas admite simultaneamente que “os ganhos de emprego têm permanecido baixos e a taxa de desemprego manteve-se praticamente inalterada nos últimos meses.”

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A Fed, liderada por Jerome Powell, acrescenta ainda que “a inflação permanece algo elevada”, uma formulação que, na linguagem cuidada do banco central, traduz a persistência de pressões de preços difíceis de debelar, agravadas agora pelo conflito no Golfo.

É precisamente este quadro contraditório – uma economia que ainda cresce, mas com um mercado laboral em arrefecimento e inflação acima da meta – que justifica a postura de compasso de espera da Fed, colocando o banco central sob um dilema clássico: baixar as taxas para apoiar o emprego arrisca alimentar a inflação; mantê-las elevadas pode aprofundar a desaceleração económica.

Face a este cenário, muitos economistas esperam agora que a Fed reveja em alta as suas projeções de inflação, podendo esta permanecer próxima dos 3% até ao final de 2026, ficando assim longe da meta de 2%.

O comunicado da Fed destaca que “a incerteza sobre as perspetivas económicas permanece elevada” e que o FOMC “está atento aos riscos de ambos os lados do seu duplo mandato”.

O conflito dos EUA e Israel com o Irão ocupa um lugar central no comunicado, com o FOMC a admitir abertamente que “as implicações dos desenvolvimentos no Médio Oriente para a economia norte-americana são incertas.” Trata-se de uma admissão rara de impotência analítica para uma instituição conhecida pela sua linguagem cautelosa e calibrada.

O banco central acrescenta que “a incerteza sobre as perspetivas económicas permanece elevada” e que o Comité “está atento aos riscos de ambos os lados do seu duplo mandato”, ou seja, tanto ao risco de inflação como ao risco de abrandamento do crescimento e do emprego.

Esta formulação é um sinal de que a Fed não quer comprometer-se com qualquer direção de política monetária enquanto o conflito não mostrar uma trajetória mais clara. A opção pela inação é, neste contexto, uma forma de cautela estratégica.

Quase unanimidade, com uma voz dissonante

Para justificar a manutenção das taxas no intervalo entre 3,5% e 3,75%, o FOMC sublinha que irá “avaliar cuidadosamente os dados recebidos, a evolução das perspetivas e o equilíbrio de riscos” antes de considerar qualquer ajustamento futuro.

A entidade liderada por Jerome Powell garante ainda que “está fortemente comprometida com o apoio ao emprego máximo e com o regresso da inflação ao objetivo de 2%“, reiterando a meta que tem orientado a sua política nos últimos anos.

O comunicado adianta ainda que o Comité “estará preparado para ajustar a postura de política monetária conforme adequado, caso surjam riscos que possam impedir a consecução dos objetivos do Comité”, e que as suas avaliações “terão em conta uma vasta gama de informações, incluindo dados sobre as condições do mercado de trabalho, pressões inflacionistas e expectativas de inflação, bem como desenvolvimentos financeiros e internacionais.”

A decisão foi aprovada por 10 dos 11 membros do FOMC. O único dissidente foi Stephen I. Miran, que “preferiu baixar o intervalo-alvo da taxa dos Fed funds em 25 pontos base.

Desta forma, a Fed reserva para si toda a margem de manobra possível, numa altura em que as variáveis geopolíticas tornam qualquer previsão particularmente arriscada.

A decisão foi aprovada por dez dos onze membros do Comité de Política Monetária da Fed. O único dissidente foi Stephen I. Miran, que “preferiu baixar o intervalo-alvo da taxa dos Fed funds em 25 pontos base nesta reunião”, uma posição que reflete a preocupação de uma parte do comité com a deterioração do mercado de trabalho e o risco de recessão, numa altura em que a queda do emprego pode ganhar momentum se o conflito no Médio Oriente se prolongar.

A posição de Stephen I. Miran é relevante porque antecipa um possível campo de batalha interno no seio do FOMC nas próximas reuniões. Se os dados de emprego continuarem a deteriorar-se e a guerra no Irão mantiver o petróleo em patamares elevados, a pressão para cortar taxas, apesar da inflação, poderá crescer dentro do próprio banco central, expondo uma tensão que, por enquanto, apenas Stephen I. Miran quis tornar pública.

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