Incerteza força Fed a congelar juros e empurra corte para nova era de Warsh
O banco central dos EUA vai prolongar pausa nos juros, com o conflito no Médio Oriente a colocar dúvidas sobre o 'timing' exacto do próximo corte, que já será no mandato do novo 'chair' Kevin Warsh.
- Jerome Powell enfrenta um fim de mandato desafiador na Reserva Federal, com incertezas sobre a economia global devido ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irão.
- Os analistas preveem que a Fed manterá as taxas de juro entre 3,50% e 3,75%, refletindo um consenso entre economistas e investidores.
- As projeções económicas da Fed devem ser revistas em baixa, com a possibilidade de adiar cortes nas taxas de juro para 2027.
A chegar ao final do mandato de presidente da Reserva Federal (Fed), Jerome Powell não terá o luxo de uma partida tranquila. Antes pelo contrário, o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão, no final do mês passado, levantou incertezas sobre os preços da energia e a economia mundial que vão obrigar Powell a navegar com cuidado antes de passar a liderança do banco central a Kevin Warsh, em maio.
A curto prazo a decisão é simples. Esta quarta-feira, o FOMC (sigla em inglês do Comité Federal do Mercado Aberto) vai manter as Federal Funds Rates inalteradas no intervalo entre 3,50% e 3,75%, segundo investidores e economistas.
Segundo o site CME FedWatch Tool, que monitoriza a negociação dos futuros das taxas de juro, esta quarta-feira a probabilidade de a Fed manter o custo do dólar no intervalo 3,50%-3,75% estava nos 99%.

Numa sondagem da Reuters, todos 96 economistas inquiridos apontaram para uma manutenção das taxas de juro no nível atual.
“Embora a decisão esteja alinhada com o pricing do mercado e as previsões de consenso, a atenção vai estar na persistente desconexão entre a inflação e a dinâmica do emprego, além dos potenciais impactos do conflito no Médio Oriente“, referiu Michael Krautzberger, diretor de investimento global de mercados públicos na Allianz Global Investors (GI).
Krautzberger recordou que os dados do emprego em fevereiro desiludiram, e a inflação subjacente do PCE – índice de preços das despesas de consumo privado, o indicador de preços preferido da Fed – mantém-se em torno dos 3%, “oferecendo pouco conforto, mesmo que outras medidas, como o IPC, pareçam mais benignas”.
Apesar do consenso sobre a decisão imediata da Fed, não faltarão perguntas de futuro para Powell responder na conferência de imprensa, ainda que não vá estar naquela cadeira por muito mais tempo.
“É provável que Powell seja questionado sobre as consequências do contexto geopolítico para a política monetária, os efeitos das tarifas após a decisão do Supremo sobre o diploma IEEPA [International Emergency Economic Powers Act, que reverteu as decisões de Trump sobre tarifas], a interferência política que afeta a independência da Fed, e ainda se pretende permanecer no Conselho de Governadores após o fim da sua presidência, em maio”, sublinhou o analista da Allianz GI.
Quantos cortes até final de 2026?
Para os analistas do banco de investimento neerlandês ING “as perspetivas quanto às alterações na política da Reserva Federal foram alteradas pelos acontecimentos no Médio Oriente e os mercados financeiros passaram de antecipar duas reduções de 25 pontos base nas taxas de juro este ano para, atualmente, preverem apenas uma”.
Ainda assim, o ING, tal como a maioria das casas de investimento, ainda prevê pelo menos um corte este ano, mas no segundo semestre e já no mandato de Kevin Warsh.
Temos vindo a prever duas descidas das taxas de juro para setembro e dezembro, mas, tal como o mercado já fez, reconhecemos que existe o risco de estas serem adiadas para o próximo ano
“Temos vindo a prever duas descidas das taxas de juro para setembro e dezembro, mas, tal como o mercado já fez, reconhecemos que existe o risco de estas serem adiadas para o próximo ano“, escreveram. “Embora a Fed tenha um duplo mandato de estabilidade de preços e maximização do emprego, um banco central precisa de defender a sua credibilidade em matéria de inflação, e é difícil justificar descidas das taxas de juro quando a inflação está acima da meta e a afastar-se cada vez mais dela“.
Na sondagem da Reuters, quase 40% dos economistas apontaram para apenas uma redução das taxas de juro, ou nenhuma, este ano, o que representa quase o dobro da percentagem que prevê três ou mais reduções.
Revisão em baixa da projeção de crescimento
As projeções económicas e para as taxas de juro atualizadas pela Fed deverão refletir a incerteza, frisou Michael Krautzberger, da Allianz GI. “Esperamos que a Fed mitigue moderadamente o seu cenário ideal de dezembro, de crescimento robusto, mercados de trabalho em melhoria e inflação em queda“.
O ING também salientou o foco nas novas previsões, recordando que, em dezembro, a Fed previa uma redução das taxas em 2026, seguida de mais uma redução de 25 pontos base em 2027.
“Existe uma enorme incerteza quanto à duração e à intensidade do conflito e das perturbações, pelo que a Reserva Federal terá pouca convicção nas suas previsões”, avisaram.
“O presidente do Fed irá certamente sublinhar os desafios na definição da política nesta situação na conferência de imprensa, mas suspeitamos que irão reduzir ligeiramente as previsões de crescimento, elevar a sua previsão de inflação e, em seguida, adiar o corte de taxas de 2026 para 2027”, concluíram.
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