Mercado global da arte volta a crescer, mas está mais conservador, concentrado e desigual
As vendas em leilões públicos cresceram 9%, impulsionadas por obras acima de 10 milhões de dólares.

O mercado global da arte regressou ao crescimento em 2025, ainda que com cautelas. As vendas subiram 4% para 59,6 mil milhões de dólares, interrompendo dois anos de contração, mas, ainda assim, abaixo do pico de 2022, dizem os dados do The Art Basel and UBS Global Art Market Report 2026. Este é um setor em ajustamento, pressionado por custos, fragmentação geográfica e mais seletividade. Está mais conservador, concentrado e desigual, conclui-se.
Clare McAndrew, fundadora da Arts Economics e autora do relatório, conclui que “o mercado acolheu uma mudança de direção em 2025, passando da contração dos anos anteriores para um crescimento moderado”. “Embora algumas categorias de arte tenham estado relativamente protegidas dos efeitos diretos das tarifas, a incerteza política mais ampla e a fragmentação do comércio criaram desafios para as empresas, afetando os preços e a oferta”, acrescenta.
1. Um crescimento de 4% com menos compradores
A leitura global mostra que o mercado estabilizou, mas não está a crescer de forma homogénea. Como nota o relatório, a recuperação foi desigual. O crescimento de 4% em valor contrasta com um aumento de apenas 2% no número de transações, que atingiram 41,5 milhões. Isto é, o mercado da arte está a crescer mais pelo preço das obras do que pela expansão da base de compradores. O próprio relatório indica que o número médio de clientes por galeria caiu para o nível mais baixo desde 2021, sugerindo uma maior dependência de colecionadores recorrentes. O contexto de incerteza económica, geopolítica e comercial em que opera pode também explicar estes números.
2. Leilões sustentam crescimento
Os leilões públicos cresceram 9%, para 20,7 mil milhões de dólares, enquanto o segmento dos dealers avançou apenas 2%, para 34,8 mil milhões. Foram sobretudo as obras acima de 10 milhões de dólares que impulsionaram a atividade, com um crescimento de 30% neste segmento. Já abaixo de 50 mil dólares, tanto o valor como o volume de vendas recuaram. A recuperação existe, mas está concentrada em poucos ativos e num número reduzido de compradores.
3. EUA, Reino Unido e China representam 76% das vendas globais
Mantém-se uma forte concentração geográfica. Estados Unidos, Reino Unido e China continuam a representar 76% das vendas globais (o mesmo número de 2024), com os EUA a liderarem, com 44% do total com 26 mil milhões de dólares, seguidos do Reino Unido, com 18% e 10,5 mil milhões, e da China, com 14% e 8,5 mil milhões. Choques económicos e políticos nestas zonas afetam particularmente este setor. Por outro lado, nota o relatório, a evolução regional não foi uniforme.
Estes são os números, por região:
- Os EUA cresceram 5%, apoiados pelo regresso das vendas de topo.
- O Reino Unido avançou 2%, sobretudo graças aos leilões públicos, mas manteve-se abaixo dos níveis de 2019.
- A China aumentou apenas pouco mais de 1%, num contexto de abrandamento económico e fragilidade da confiança dos consumidores, com diferenças internas entre a China continental e Hong Kong.
- A França destacou-se pela positiva, com crescimento de 9% para 4,5 mil milhões de dólares, superando ligeiramente o nível de 2019.
- Fora dos maiores mercados, houve desempenhos mistos: Suíça e Áustria cresceram 13%, Espanha e Coreia do Sul subiram 6%, enquanto Alemanha caiu 10%, Itália recuou 2% e Japão perdeu 1%.
Esta dispersão mostra que a evolução do mercado depende cada vez mais de condições locais, como fiscalidade, custo do capital, consumo doméstico, dinâmica das feiras, presença institucional e confiança dos colecionadores.
4. Tensão entre pequenos e grandes operadores, erosão no middle market
Esta fragmentação geográfica reflete-se também na estrutura do setor. O relatório mostra uma clara polarização entre pequenos e grandes operadores, com o segmento intermédio a perder dinamismo. Dealers com faturação inferior a 500 mil dólares registaram crescimentos expressivos, enquanto os de topo, acima de 10 milhões, voltaram a crescer após dois anos de queda. Já o segmento entre 1 milhão e 10 milhões de dólares ficou estagnado. Esta erosão do chamado middle market levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do ecossistema, que depende desse segmento para renovação e progressão de artistas.
5. Menos transações
O volume total de transações subiu apenas 2% em 2025, para 41,5 milhões, o que contrasta com a subida de 4% no valor global do mercado. O relatório mostra também que, no universo dos dealers, o número médio de compradores por galeria caiu para 57, o valor mais baixo desde 2021. Entre os dealers com faturação inferior a 250 mil dólares, a quebra foi particularmente expressiva: menos 40%, para uma média de 29 compradores. Isto sugere que a recuperação não assentou numa expansão da procura de base, mas sobretudo em maior valor por transação nas franjas superiores do mercado. Mesmo quando o mercado melhora em faturação, isso não significa automaticamente que esteja a captar novos públicos ou a alargar a sua base de colecionadores. Pelo contrário, os dados sugerem maior dependência de compradores já existentes e de tickets médios mais elevados.
6. Setor cresce mas sob forte pressão financeira
A pressão sobre a rentabilidade é outro dos sinais estruturais mais relevantes, apontados pelo relatório. Os custos operacionais aumentaram cerca de 5%, acima do crescimento das vendas, com destaque para logística, feiras e deslocações.
As rubricas com maior aumento foram embalagem, transporte e logística (10%), feiras de arte (9%) e viagens e alojamento (6%). Entre as leiloeiras de média dimensão, os custos também subiram 5%. Isto significa que, mesmo num ano de recuperação, uma parte significativa do setor continuou sob forte compressão de margens. Entre os dealers, 38% disseram ter registado menor rentabilidade, contra 33% que reportaram melhoria. Nas leiloeiras intermédias, 40% indicaram lucros mais baixos, face a 29% que assinalaram lucros mais altos.
Mesmo num ano de recuperação, 38% dos dealers reportaram queda de rentabilidade, o que evidencia um setor a crescer em valor, mas sob forte pressão financeira. Ainda assim, o relatório contraria a ideia de colapso generalizado das galerias. Apesar de vários encerramentos mediáticos, as aberturas superaram os fechos, representando 42% da atividade registada, contra 25% de encerramentos. O setor está a ajustar-se, mais do que a encolher, com reposicionamentos estratégicos e novos formatos de operação.
7. Recuo digital
As vendas online caíram 11% para 9,2 mil milhões de dólares, com a sua quota a descer para 15% do mercado, o valor mais baixo desde 2019. As transações de maior valor regressaram ao espaço físico, enquanto o online se mantém relevante sobretudo para níveis de preço mais baixos e para captação de novos compradores. Em paralelo, as feiras reforçaram o seu peso, passando a representar 35% da faturação dos dealers. É o valor mais alto desde 2022, diz o relatório, e um crescimento de 4% em relação ao ano anterior.
8. Peso das tarifas e da geopolítica
A geopolítica e o comércio internacional surgem como fatores críticos para o setor. Mais de 56% dos dealers reportaram impacto negativo das tarifas, com aumento de custos logísticos, fiscais e administrativos. Como consequência, o mercado tornou-se mais doméstico, com crescimento do peso dos compradores locais, mesmo entre os operadores de maior dimensão. Esta tendência pode comprometer a circulação global de obras, um dos pilares históricos do setor.
9. Um regresso aos velhos mestres
Vários indicadores do relatório apontam para um comportamento mais conservador dos compradores. Por exemplo, a arte postwar & Contemporary continuou a ser a maior categoria dos leilões, mas a sua quota caiu 6 pontos, para 45%, e o valor agregado recuou 2%, marcando o quarto ano consecutivo de queda desde o pico de 2021. Em sentido inverso, a arte moderna cresceu 9%, para 2,4 mil milhões, o Impressionismo e Pós-Impressionismo dispararam 47%, para 1,8 mil milhões, e os Old Masters subiram 30%, para cerca de 1,2 mil milhões. Os colecionadores estão a privilegiar ativos com maior histórico de valorização, refletindo uma maior aversão ao risco, denota o estudo.
Segundo o relatório, A presença de mulheres artistas continuou a crescer, atingindo 50% nos artistas representados por galerias do mercado primário e 45% no total dos dealers. As obras de artistas mulheres representaram 37% das vendas em valor (face a 28% em 2018). Ainda assim, persistem desigualdades nos níveis mais elevados de faturação.
As barreiras ao comércio internacional, tarifas e custos administrativos levaram a uma maior orientação para compradores locais. Mais de 56% dos dealers disseram que as tarifas tiveram impacto negativo no negócio, e 72% dos que sentiram esse impacto apontaram custos acessórios mais altos, enquanto 65% referiram aumento direto de direitos e impostos em vendas internacionais. Mesmo entre dealers acima de 10 milhões de dólares de faturação, a quota de compradores locais aumentou para 29%. O mercado global da arte continua internacional, mas está a tornar-se mais cauteloso, mais doméstico e mais seletivo.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.