Powell rejeita risco de estagflação e afasta saída da Reserva Federal
Petróleo caro, inflação acima do objetivo, emprego a fraquejar e uma investigação judicial pela frente. Powell manteve as taxas de juro e garantiu que ninguém o tira da Fed antes do tempo.
- Jerome Powell admitiu que o choque do petróleo vai pressionar a inflação em alta no curto prazo.
- Sete membros do Comité de Política Monetária da Fed não preveem qualquer descida de taxas este ano.
- O presidente da Fed garantiu não abandonar a Fed antes de a investigação criminal do Departamento de Justiça (DOJ) ser encerrada com transparência.
Jerome Powell não tem vida fácil. O presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed) dirige o banco central mais poderoso do mundo num momento em que o conflito no Médio Oriente faz disparar o petróleo, a inflação teima em não ceder e uma investigação criminal do Departamento de Justiça (DOJ) paira sobre a sua cabeça.
Com este pano de fundo, o Comité de Política Monetária da Fed (FOMC) voltou a congelar as taxas de juro no intervalo 3,5%-3,75% esta quarta-feira pela segunda reunião consecutiva, e Jerome Powell enfrentou uma conferência de imprensa onde a incerteza foi o único indicador constante.
O tom foi de cautela desde o primeiro minuto. “Estamos a tentar gerir a tensão entre dois objetivos, mas isto não é estagflação”, disse Powell, rejeitando de forma perentória as comparações com a crise dos anos 1970.
O facto de estarmos há cinco anos acima do objetivo de inflação preocupa-nos: um choque adicional poderia complicar as expectativas de inflação.
O presidente da Fed reconheceu, contudo, que a economia americana atravessa um momento delicado: o conflito com o Irão, desencadeado pela Administração Trump a 28 de fevereiro, fez disparar em 30% os preços da gasolina nos EUA enquanto a economia perdeu 92 mil postos de trabalho em fevereiro. Ainda assim, Jerome Powell preferiu sublinhar a resiliência da maior economia do mundo. “O crescimento tem sido sólido”, afirmou, e o consumo privado mantém-se robusto.
A inflação é, precisamente, a principal pedra no sapato. As mais recentes estimativas da Fed apontam para uma inflação PCE de 2,8% em fevereiro e um PCE core de 3%, bem acima da meta dos 2%. E as projeções revistas para o final de 2026 sobem agora para 2,7%, contra os 2,4% previstos em dezembro.
“O facto de estarmos há cinco anos acima do objetivo de inflação preocupa-nos: um choque adicional poderia complicar as expectativas de inflação”, admitiu Powell, que reconheceu que “as expectativas de inflação de curto prazo subiram nas últimas semanas por causa do Médio Oriente”. A Fed mantém-se “muito fortemente comprometida” em ancorar as expectativas nos 2%, destacou o presidente da Fed.
Pressão de Trump não assusta Powell
O conflito no Médio Oriente acrescenta uma camada adicional de imprevisibilidade. Jerome Powell admitiu que o choque do petróleo, ainda que “pontual”, vai “pressionar a inflação geral para cima no curto prazo” e que “alguma parte desse choque irá refletir-se na inflação core“.
“O efeito líquido do choque do petróleo traduzir-se-á ainda assim em alguma pressão descendente sobre o consumo, o emprego e pressão ascendente sobre a inflação”, disse o presidente da Fed, sublinhando ainda que “ninguém conhece o efeito económico do conflito no Médio Oriente.”
No mercado de trabalho, Powell reconheceu sinais preocupantes. “Um número significativo de membros do Comité está muito, muito preocupado com a fraca criação de emprego”, afirmou, referindo que é necessário conjugar os dados de janeiro e fevereiro para uma leitura mais robusta.
O presidente da Fed descreveu um “equilíbrio de crescimento zero do emprego” que, embora seja tecnicamente equilibrado, “tem a sensação de um risco negativo”.
A possibilidade de a próxima mexida [nas Fed Funds] ser uma subida chegou a ser discutida (mas) a grande maioria não vê uma subida como cenário base.
No que respeita ao rumo das taxas, a mediana das projeções mantém um corte em 2026 e outro em 2027, mas “verificou-se um movimento significativo de participantes para menos cortes”.
Jerome Powell notou que sete membros do FOMC não preveem qualquer descida este ano e que “a possibilidade de a próxima mexida ser uma subida chegou a ser discutida”, revelou Jerome Powell aos jornalistas, garantindo porém que “a grande maioria não vê uma subida como cenário base”. O recado ficou no ar: “Se não vir progressos na inflação, não haverá corte de taxas.”
Mas foi quando o tema da investigação criminal surgiu que Jerome Powell foi mais contundente. Desde janeiro, o presidente da Fed está sob uma investigação conduzida pelo DOJ, por iniciativa da procuradora Jeanine Pirro – nomeada pela Administração Trump – sobre o seu testemunho no Congresso acerca das obras de renovação da sede da Fed em Washington, orçadas em 2,5 mil milhões de dólares.
Jerome Powell sempre defendeu tratar-se de uma manobra de pressão política para o forçar a baixar as taxas ou a demitir-se, posição que um juiz federal corroborou a 13 de março, ao bloquear as intimações judiciais por considerar não existir qualquer evidência de crime.
Não tenho intenção de sair do conselho enquanto a investigação não estiver bem e verdadeiramente encerrada, com transparência e caráter definitivo.
Com o mandato como presidente da Fed a terminar em maio, sendo Kevin Warsh o favorito da Casa Branca para a sucessão, Jerome Powell deixou claro que não tenciona abandonar o conselho de governadores: “Não tenho intenção de sair do conselho enquanto a investigação não estiver bem e verdadeiramente encerrada, com transparência e caráter definitivo”, sublinhou o presidente da Fed cujo mandato no conselho de governadores termina apenas em janeiro de 2028.
A Fed encontra-se, nas palavras do próprio Powell, “numa situação difícil” em que tem de “equilibrar riscos”. Não quer uma política demasiado restritiva que prejudique o mercado de trabalho, mas também não pode baixar a guarda perante uma inflação que continua acima do objetivo.
“Estamos muito atentos a um equilíbrio de crescimento zero do emprego”, disse, prometendo que o banco central acompanhará de perto os dados dos próximos meses. O horizonte do banco central passa por ver progressos concretos na inflação dos bens e nos serviços não relacionados com habitação, antes de qualquer movimento nas taxas. Por agora, a Fed espera e observa.
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