Supervisores financeiros lançam “chat gpt da literacia financeira”. Iniciativas vão ser certificadas

  • Lusa e ECO
  • 18 Março 2026

O novo plano estratégico prevê reforçar o impacto das iniciativas dirigidas aos públicos considerados prioritários: as crianças/jovens, sobretudo através das escolas, e a população adulta.

O lançamento de um assistente virtual, uma espécie de chat gpt, para ajudar os cidadãos a tomarem decisões financeiras mais informadas é uma das medidas inscritas no plano estratégico para 2026-2030 do Plano Nacional de Formação Financeira.

O Plano Nacional de Formação Financeira foi criado em 2011, coordenado pelos três supervisores financeiros (BdP – Banco de Portugal, ASF – Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões e CMVM – Comissão do Mercado de Valores Mobiliários), com o objetivo de aumentar a literacia financeira da população.

Em entrevista à Lusa para apresentação do plano, o administrador da ASF Diogo Alarcão disse que os supervisores financeiros vão desenvolver um assistente virtual, baseado em inteligência artificial, para ajudar os consumidores financeiros a tirarem dúvidas, dando-lhes respostas rápidas e personalizadas.

“É um assistente virtual baseado em inteligência artificial, uma espécie de chat gpt financeiro. A grande novidade é que vamos conseguir ter neste conselheiro virtual a informação dos três supervisores“, disse Diogo Alarcão.

É um assistente virtual baseado em inteligência artificial, uma espécie de chat gpt financeiro. A grande novidade é que vamos conseguir ter neste conselheiro virtual a informação dos três supervisores.

Diogo Alarcão

Administrador da ASF

Segundo o administrador da ASF, uma das vantagens deste assistente virtual é que responderá às dúvidas com base em informação reconhecida, pois será a produzida pelos três supervisores.

“Terá uma visão integrada e holística”, acrescentou, explicando que informará “dos riscos e das proteções financeiras” em três perspetivas (BdP, CMVM e ASF).

Para já, não há uma data para o lançamento, pois ainda está em projeto.

Este assistente virtual fará parte de uma site que será desenvolvido para agregar conteúdos de finanças e sistema financeiro dirigido ao público adulto, organizado por temas e diferentes etapas da vida (pois as decisões financeiras de um jovem trabalhador ou de um adulto na meia idade são diferentes), com ferramentas práticas como pequenos vídeos explicativos e cursos de formação online.

Esta plataforma será uma evolução do atual Portal Todos Contam.

O Plano Nacional de Formação Financeira, lançado em 2011, é uma iniciativa conjunta do Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (BdP, ASF e CMVM), com o objetivo de aumentar a literacia financeira da população.

A literacia financeira designa a capacidade de tomar decisões informadas sobre gestão de dinheiro.

O novo plano estratégico prevê reforçar o impacto das iniciativas dirigidas aos públicos considerados prioritários: as crianças/jovens, sobretudo através das escolas, e a população adulta.

Segundo um estudo do Banco de Portugal, divulgado esta semana, Portugal regista níveis de literacia financeira próximos da média dos países do euro, mas as mulheres e os cidadãos com menores níveis de escolaridade e de rendimento estão abaixo desse patamar.

Supervisores financeiros vão certificar iniciativas de literacia financeira

Os supervisores financeiros vão desenvolver uma certificação para iniciativas de literacia financeira, estando a ponderar atribuir esse selo a projetos de empresas, disseram em entrevista à Lusa.

Numa entrevista a propósito das iniciativas do novo plano estratégico (2026-2030) do Plano Nacional de Formação Financeira, a administradora do Banco de Portugal Francisca Guedes de Oliveira explicou que será definido “um modelo de certificação de iniciativas no âmbito da literacia financeira” com o objetivo de assegurar a qualidade e isenção de ações sobre literacia financeira.

Questionada sobre se de futuro uma empresa (banco, corretora, intermediário de crédito) pode vir a ter ações de literacia financeira certificadas, respondeu que até agora havia uma visão estrita de não haver essa relação com essas entidades (por o seu objetivo ser vender um produto ou serviço), mas admitiu que tal será avaliado até para “proteção do consumidor de produtos e serviços financeiros”. É conhecido que há empresas financeiras que fazem ações em escolas.

“Ainda estamos a perceber muito bem como é que podemos fazer isso, sem nunca passar a ideia de que estamos a patrocinar algum tipo de entidade supervisionada”, afirmou Guedes de Oliveira.

A vice-presidente da CMVM Inês Drumond acrescentou que nesses casos é preciso garantir que os conteúdos têm “coerência na mensagem e qualidade” e recordou que a Comissão Europeia, nesta área, prevê precisamente este tipo de parcerias com os privados desde que sejam encontrados mecanismos para mitigar “tudo aquilo que possam ser conflitos de interesse”.

A certificação em literacia financeira será destinada a projetos e conteúdos específicos.

Alunos do superior vão às escolas dar aulas de literacia financeira

Os estudantes do ensino superior poderão dar formação sobre literacia financeira aos alunos do ensino básico e secundário, segundo um plano nacional que prevê também formação para os professores que já estão nas escolas.

O PNFF prevê a criação de uma “bolsa de formadores, através da capacitação de estudantes de ensino superior, docentes, entre outros”, que poderão depois ir às escolas do ensino básico e secundário dar “sessões de formação”, em articulação com o professor de Cidadania e Desenvolvimento.

O objetivo é “criar um efeito multiplicador que contribua para o aumento dos níveis de literacia financeira em Portugal”, explicou o Ministério

O plano prevê “novos cursos flexíveis”, organizados por ciclos de ensino e por temas, para os professores que já estão nas escolas e que irão ensinar a componente de “Literacia Financeira e Empreendedorismo”.

Já para os futuros professores, os mestrados em ensino vão passar a ter um módulo com conteúdos de Literacia Financeira. “As escolas passam, assim, a receber uma nova geração de professores capacitada para abordar a educação financeira em sala de aula”, sublinham as quatro entidades envolvidas neste projeto.

Os supervisores financeiros, em parceria com o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA), irão também produzir “materiais pedagógicos, incluindo vídeo-aulas e apresentações, de forma modular”, sobre os principais temas de literacia e empreendedorismo.

Os supervisores financeiros, em articulação com o MECI, “pretendem ainda contribuir com conteúdos que serão incorporados numa plataforma digital para as escolas, com o objetivo de complementar a aprendizagem dos alunos em sala de aula e apoiar a formação contínua dos professores”, acrescenta a nota.

Aulas de literacia financeira no ensino superior de educação

O novo plano estratégico do Plano Nacional de Formação Financeira prevê a existência de uma disciplina ou módulos de literacia financeira no ensino superior de educação, com o objetivo de capacitar futuros professores para aulas sobre este tema.

“A ideia é desenvolvermos conteúdos formativos para as licenciaturas. Ainda não está completamente definido se será uma disciplina, se será uma optativa, se serão seminários”, disse à Lusa a administradora do Banco de Portugal (BdP) Francisca Guedes de Oliveira, acrescentando que essa definição terá de ser feita em conjunto com o Ministério da Educação.

A administradora do BdP Francisca Guedes Oliveira, a vice-presidente da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Inês Drumond, e o administrador da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) Diogo Alarcão deram uma entrevista à Lusa a propósito do plano estratégico para 2026-2030 do Plano Nacional de Formação Financeira.

Além dos alunos das escolas superiores de educação, o plano estratégico dos próximos cinco anos prevê mais formação em literacia financeira para quem está já na carreira de professor, para que estejam devidamente habilitados a dar este módulo na disciplina de cidadania e sessões de formação dirigidas a estudantes do ensino básico e ensino secundário.

Os supervisores financeiros estão também a trabalhar em novos conteúdos a ser lecionados na disciplina de cidadania, disseram à Lusa.

Questionados às críticas a estes conteúdos, de que se focam apenas em noções de gestão de dinheiro (poupança, orçamento, consumo) e ignoram temas mais complexos como pobreza (caso do recurso ao crédito por salário insuficiente), desigualdades e funcionamento do sistema financeiro, Francisca Guedes Oliveira respondeu que nestes conteúdos está incluída uma discussão abrangente antes de se chegar a temas mais concretos.

“Por exemplo, quando se fala de poupança, não se pode falar de poupança sem se falar de gerar rendimento. Há sempre uma perspetiva muito integrada”, disse.

Segundo explicou, os conteúdos são lecionados com uma “preocupação permanente de comportamento”, de explicar aos estudantes “o que é supérfluo e o que é que é essencial”.

“Portanto, há toda uma parte comportamental, de contexto, muito mais abrangente do que apenas os conteúdos objetivos, que se calhar são os que estão plasmados nos cadernos”, acrescentou.

Já sobre se conteúdos de literacia financeira põem foco em excessivo no indivíduo, responsabilizando as pessoas por falta de literacia quando algo corre mal e desresponsabilizando o sistema, Diogo Alarcão disse que o objetivo não é estigmatizar, mas “responsabilizar no sentido de dar autonomia e capacidade de tomar decisões” mas que têm noção de que o sistema financeiro é complexo e com assimetria de informação entre as pessoas e as instituições/empresas.

“A literacia financeira não é um fim em si mesmo. A literacia financeira vai induzir a comportamentos e são esses comportamentos que vão permitir tomar as opções certas no momento certo”, afirmou.

Sobre se os conteúdos dirigidos a estudantes abordam o tema dos influencers (pessoas com um grande número de seguidores nas redes sociais) e dos investimentos financeiros que estes promovem, frequentemente enganosos, disseram que os conteúdos são focados em conceitos concretos, mas Inês Drumond admitiu que poderá fazer sentido incluir essa problemática.

Além da formação em literacia financeira destinada a jovens, nos próximos cinco anos, os supervisores financeiros irão continuar a promover programas de formação financeira direcionados adultos, destacando o plano a formação destinada a grupos considerados vulneráveis (pobres, desempregados, imigrantes e idosos).

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