Conflito sobe na escada de tensões e abala mercados de energia e ações. “Tempos difíceis”, admite António Costa
Guerra vira para infraestruturas e abala mercados, com Brent a passar os 119 dólares e bancos centrais 'evasivos' a empurrarem bolsas para o 'vermelho'. "Tempos difíceis", diz António Costa.
- A escalada do conflito no Médio Oriente, especialmente os ataques a infraestruturas energéticas do Irão, aumenta o risco de interrupções no abastecimento energético global.
- Os preços do petróleo e do gás natural estão a subir, com o Brent a atingir 114,52 dólares, refletindo preocupações sobre danos nas infraestruturas energéticas e a produção a longo prazo.
- António Costa defende a necessidade de aumentar a produção interna de energia para garantir a autonomia energética da Europa, em resposta à crise provocada pela guerra no Irão.
“O risco de interrupções prolongadas no abastecimento energético aumenta quando o conflito passa de um impasse comercial para paragens na produção e danos nas infraestruturas”, a análise de Norbert Rücker, head of economics and next generation research no banco privado suíço Julius Baer, resume de forma precisa as consequências da mais recente escalada da guerra no Médio Oriente.
Rücker sublinhou que nas últimas horas, o conflito com o Irão “subiu mais alguns degraus da escalada”, na sequência dos ataques dos EUA e de Israel a uma das principais infraestruturas de gás natural do Irão — o campo de gás de South Pars, que tem a maior reserva do mundo –, e a retaliação do regime persa a alguns dos principais ativos energéticos da região, com danos extensos ao centro de exportação de gás natural liquefeito (GNL) de Ras Laffan, no Qatar.
Os EUA procuram conter a escalada, com o Wall Street Journal a noticiar que Donald Trump não quer mais ataques contra instalações energéticas do Irão. O republicano publicou ontem à noite que os EUA não sabiam do ataque de Israel contra o campo de gás de South Pars, acrescentando que “Israel não realizará mais ataques” contra South Pars se o Irão cessar os seus próprios ataques, embora também tenha ameaçado “destruir todo o campo de gás de South Pars” caso o Irão volte a atacar o GNL do Qatar.

Diferencial entre Brent e WTI abre oportunidade
“Apesar desses comentários, os mercados petrolíferos continuam em alerta esta manhã, devido aos receios de que as infraestruturas energéticas possam sofrer danos significativos”, referiram os analistas do Deutsche Bank, numa nota de research. O preço do barril de Brent, principal referência na Europa, negoceia às 11h29 a disparar 6,62% para 114,52 dólares, tendo chegado a ultrapassar os 119,03 dólares durante a sessão, perto do pico de três anos e meio tocado a 9 de março. O barril de crude West Texas Intermediate (WTI) avançou de forma mais moderada fechando a sessão americana a ganhar 0,30% para 95,47 dólares.
Os analistas do Deutsche sublinharam que o diferencial entre o Brent e o WTI está no nível mais elevado desde que o WTI chegou a ser negociado em terreno negativo durante a pandemia de Covid-19, em abril de 2020. A subida do Brent em relação aos futuros do petróleo bruto dos EUA cria uma oportunidade de arbitragem para os operadores que procuram obter lucro ao transferir petróleo para mercados com preços mais elevados.
Mesmo com os preços de frete de um Aframax transportando até 700.000 barris de crude da Costa do Golfo dos EUA para a Europa a subirem para cerca de seis milhões de dólares na quarta-feira, face aos 4,36 milhões de dólares antes da guerra, a arbitragem permanece aberta porque o spread WTI/Brent é suficientemente amplo para compensar o custo do frete, de acordo com Georgios Sakellariou, analista da Signal Maritime, citado pela Reuters.
Os preços grossistas do gás natural na Europa atingiram o seu nível mais alto em mais de três anos, com o mercado a antecipar uma perda de produção a longo prazo no Qatar — responsável por cerca de 20% do abastecimento global de gás natural liquefeito. O contrato de referência neerlandês para o mês seguinte no hub TTF sobe para 63,75 euros por megawatt-hora (MWh), segundo dados da Intercontinental Exchange, tendo chegado a subir brevemente para 74 euros/MWh, o valor mais alto desde 10 de janeiro de 2023.
Bancos centrais evasivos
O nervosismo não ficou circunscrito aos mercados de energia, com os mercados acionistas contagiados pelos receios sobre o conflito militar. Na Ásia, o principal índice da Bolsa de Tóquio, o Nikkei, desceu 3,38%, enquanto na Europa o quadro está pintado de ‘vermelho’, com os principais índices com quedas de entre 1,73% (o parisiense CAC40) e 2,30% (do alemão DAX), enquanto o lisboeta PSI perde 1,75%.
Os analistas salientam que as posições cautelosas dos bancos centrais também estão a pressionar os mercados de ações. A Reserva Federal (Fed) dos Estados Unidos, esta quarta-feira, voltou a congelar as taxas de juro no intervalo 3,5%-3,75% pela segunda reunião consecutiva, com um tom de cautela desde o primeiro minuto. “Estamos a tentar gerir a tensão entre dois objetivos, mas isto não é estagflação”, disse Powell, rejeitando de forma perentória as comparações com a crise dos anos 1970″, afirmou o ‘chair’ Jerome Powell.
A Fed não conseguiu oferecer qualquer orientação concreta ao mercado na quarta-feira, tendo Jerome Powell recorrido à clássica manobra evasiva dos banqueiros centrais quando lhe foi pedido que avaliasse o impacto da guerra
Para os analistas do ING, “a Fed não conseguiu oferecer qualquer orientação concreta ao mercado na quarta-feira, tendo Jerome Powell recorrido à clássica manobra evasiva dos banqueiros centrais quando lhe foi pedido que avaliasse o impacto da guerra”. Sublinharam que “ao mesmo tempo, a Fed enviou alguns sinais: não alterou o seu dot plot (prevendo um corte nas taxas de juro até ao final do ano) e pareceu inclinar-se ligeiramente para a narrativa de que a inflação é ‘transitória'”.
Esta quinta-feira é a vez de Christine Lagarde subir ao palco depois de o Banco Central Europeu (BCE) também anunciar um congelar das taxas de juro.
“Num contexto de maior incerteza, marcado pela escalada de tensões no Médio Oriente e pela subida dos preços da energia, o BCE deverá adotar um tom cauteloso, reforçando a dependência dos dados e evitando compromissos claros quanto aos próximos passos“, referiu Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe.
Costa quer autonomia energética
O BCE não é no entanto, o único órgão europeu a tratar a crise energética esta quinta-feira, com o Conselho Europeu a reunir em Bruxelas. A cimeira (que continua na sexta-feira) tinha como mote a competitividade europeia, mas o tema acabará ofuscado pelo impacto da guerra no Irão e as suas consequências económicas, sobretudo devido à subida dos preços da energia.
É claro que ninguém pode ignorar que enfrentamos tempos difíceis no domínio da energia e que precisamos de lhes dar resposta
À entrada da reunião, António Costa, presidente do Conselho Europeu, admitiu que “é claro que ninguém pode ignorar que enfrentamos tempos difíceis no domínio da energia e que precisamos de lhes dar resposta, o atual conflito no Irão demonstra, mais uma vez, que a melhor forma de garantir um horizonte previsível e fiável para a nossa energia é aumentar a produção interna de energia”.
“Esta é a única forma de nos tornarmos autónomos, independentes e de assegurar a segurança do nosso sistema energético”, adiantou. “Para tal, precisamos de prosseguir com a nossa transição energética, e esta é a nossa principal tarefa”.
Luís Montenegro, sucessor de Costa no cargo de primeiro-ministro, admitiu à entrada da cimeira que Portugal possa ter défice em 2026 devido à “excecionalidade” relacionada com os impactos das tempestades e da crise energética e rejeitou “uma obsessão” para ter excedente orçamental que impeça apoios ao país. “Tal como já tinha antecipado na circunstância do processo de recuperação das tempestades e agora também com a excecionalidade do mercado da energia, quero apenas dizer que, pelo facto de termos tido crescimentos económicos sustentados e bons desempenhos orçamentais nos últimos anos, nós podemos, eventualmente, ter uma situação de défice e, ainda assim, ter equilíbrio nas nossas contas públicas”, disse.
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