Jerónimo Martins está “a absorver” aumentos dos combustíveis, mas “vamos ver até que ponto”

Combustíveis mais caros tiveram efeito "imediato" no grupo que detém o Pingo Doce. Para já, custo será absorvido. "Vamos ver até que ponto é possível ou não aguentar", diz Pedro Soares dos Santos.

Pedro Soares dos Santos, CEO da Jerónimo MartinsFlávio Nunes/ECO
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  • Pedro Soares dos Santos, CEO da Jerónimo Martins, afastou preocupações sobre o abastecimento alimentar devido à guerra no Médio Oriente, destacando o aumento dos combustíveis como o principal impacto imediato.
  • Os preços de alguns fertilizantes já aumentaram mais de 60% desde o início do conflito, o que pode afetar a produção agrícola no futuro, segundo o CEO da Jerónimo Martins Agro-Alimentar.
  • O CEO alertou que 2026 será um ano desafiador para manter os níveis de EBITDA, pois a inflação e a situação geopolítica podem levar os consumidores a ter de fazer escolhas difíceis.
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O presidente executivo da Jerónimo Martins, Pedro Soares dos Santos, afastou nesta quinta-feira receios de perturbações no abastecimento alimentar em consequência da guerra no Médio Oriente. O gestor salientou que o aumento dos preços dos combustíveis “é o único impacto que até agora já tem efeito prático” na empresa, pois é “imediato”, numa altura em que “a situação geopolítica é delicada” e é preciso “aguardar a evolução”.

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Por enquanto, com o barril de petróleo acima dos 100 dólares, refletindo-se no litro da gasolina e do gasóleo pago pelos consumidores nas bombas, e também pelas empresas de transporte ou de outros setores, “as companhias têm estado a absorver” este aumento nos custos. Mas “vamos ver até que ponto é possível ou não aguentar”, alertou o líder do grupo retalhista, na conferência de imprensa de apresentação dos resultados anuais.

Quanto a outros impactos além dos combustíveis, é preciso “aguardar a evolução, porque estas coisas, muitas vezes, só acontecem meses depois”, disse Pedro Soares dos Santos. O responsável deu como exemplo os fertilizantes: “Sabemos que já se estão a comprar a um preço muito mais alto para a próxima safra. Isso poderá vir a ter um impacto mais à frente. Nesse momento não é possível medir.”

Atualmente, já há fertilizantes com agravamentos de preços “acima dos 60%” em relação ao preço antes do início do ataque ao Irão, alertou no mesmo evento o CEO da Jerónimo Martins Agro-Alimentar, António Serrano. É o caso da ureia, indicou.

Falando dos ataques dos EUA e Israel contra o Irão e da retaliação iraniana contra os países do Golfo, Pedro Soares dos Santos disse que “a grande diferença para o conflito do Médio Oriente é que a Ucrânia era o celeiro da Europa e ainda o é”. “O Médio Oriente não é o celeiro da Europa, mas é o celeiro dos fertilizantes para a Europa e da indústria química. Aí pode haver, de facto, grande distúrbio”, avisou o responsável do grupo que detém as retalhistas Pingo Doce em Portugal e Biedronka na Polónia.

As companhias têm estado a absorver [o aumento dos combustíveis]. Vamos ver até que ponto é possível ou não aguentar.

Pedro Soares dos Santos

Presidente executivo da Jerónimo Martins

Novo ‘IVA Zero’? “Não sei se é a medida mais justa”

O líder da Jerónimo Martins também foi questionado sobre o ‘IVA Zero’, o programa que esteve em vigor depois da invasão russa da Ucrânia em 2022 e que se traduzia numa isenção de imposto sobre os bens alimentares essenciais.

Um dia depois do debate com o primeiro-ministro no Parlamento, em que a oposição pressionou Luís Montenegro a recuperar a medida criada pelo Governo socialista de António Costa, Pedro Soares dos Santos mostrou-se “dividido”.

“O ‘IVA Zero’ tem muito mais a ver com impacto no consumidor do que connosco” e tem vantagens e desvantagens, alertou. “Premeia os que estão bem e premeia os que estão menos bem. Não sei se é a medida mais equilibrada e mais justa para quem tem menos. Estou sempre dividido nesta matéria. Mas beneficia essencialmente o consumidor, não a companhia”, asseverou, sem com isto se mostrar frontalmente contra ou a favor.

[O ‘IVA Zero’] premeia os que estão bem e premeia os que estão menos bem. Não sei se é a medida mais equilibrada e mais justa para quem tem menos.

Pedro Soares dos Santos

Presidente executivo da Jerónimo Martins

Este ano “vai ser extremamente desafiante”

Neste contexto, o CEO da Jerónimo Martins reconheceu que “vai ser extremamente desafiante” manter em 2026 os mesmos níveis de EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) e de margem, pois o impacto da situação geopolítica “não é só na alimentação”. “Se tudo o que estiver ao redor da vida de uma pessoa — as taxas de juro, os combustíveis, toda a sua vida social — dispara, as pessoas vão ter de fazer escolhas. E nós sabemos que no nosso negócio manter os volumes é fundamental para os negócios e para os fornecedores”, admitiu. Será um risco para ir monitorizando “ao longo do ano”.

Questionado sobre a pressão inflacionista resultante dos combustíveis mais caros, o CEO da Jerónimo Martins desdramatizou no curto-prazo, atirando efeitos para mais tarde: “Com toda a franqueza, a taxa de inflação está ao contrário no nosso negócio nesse momento. Por exemplo, a Polónia está com uma deflação grande. Em Portugal, também, a inflação nesse momento é praticamente inexistente. Portanto, o que se está a projetar para a inflação tem sido mais suposições do que realidade”, indicou.

Pedro Soares dos Santos assumiu que o acelerar da inflação “pode acontecer”, porque o impacto “é tudo a médio prazo”. “Tirando os combustíveis e até a eletricidade. No caso da Jerónimo Martins, temos preços [da eletricidade] negociados por alguns anos e a coisa está mais ou menos estável”, frisou.

Neste cenário de incerteza, a administradora com o pelouro financeiro, Ana Luísa Virgínia, referiu aos jornalistas: “Não damos muito guidance em performance.” Todavia, frisou: “Continuamos a apostar em investir, porque podemos e apresentámos bons resultados. Prevemos expandir a capacidade em todos os países em que operamos. Também em Portugal, principalmente no Pingo Doce, mas também noutras áreas. Vamos criar mais emprego e mais riqueza e mais capacidade para continuarmos a apoiar quem em nós confia.”

A Jerónimo Martins anunciou na quarta-feira que lucrou 646 milhões de euros no ano passado, mais 7,9% do que em 2024. A empresa propôs a distribuição de um dividendo bruto de 0,65 euros por ação, o que significa um aumento de cerca de 10% em relação ao período homólogo.

(Notícia atualizada pela última vez às 13h11)

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