“Obviamente gostamos muito do IVA zero”. Estado tem de ter “o seu papel” para atenuar o choque nos preços, diz dona do Continente

Líder da Sonae diz que medidas tomadas em 2022 foram "equilibradas" e podem ser replicadas agora. Retalhista diz que guerra ainda não está a chegar aos consumidores, mas admite subidas de preços.

A presidente da Sonae, que fechou o ano passado com vendas recorde acima de 11 mil milhões de euros, defendeu esta quinta-feira a adoção de medidas similares às que foram adotadas em 2022, aquando do início da guerra na Ucrânia, para amortecer o impacto da subida dos preços para os consumidores. “IVA zero obviamente que gostamos muito“, assumiu Cláudia Azevedo. Sobre subidas de preços, a retalhista diz que, neste momento, as famílias ainda não estão a sentir os efeitos da guerra na conta de supermercado, mas não pode descartar subidas de preços.

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“Na última vez [que houve uma pressão inflacionista], as medidas à cadeia de valor demoraram algum tempo, mas no fim acho que foi uma coisa equilibrada, entre as ajudas do Estado, os vários players“, detalhou a líder da Sonae, em respostas aos jornalistas, na conferência de apresentação de resultados anuais. Sobre medidas concretas, Cláudia Azevedo disse que “mais vale trabalhar numa solução conjunta” e a solução anterior “poderia ser replicada, nas suas várias componentes“.

Questionada sobre a reposição do IVA zero, a empresária mostrou-se muito favorável a esta medida, reforçando que “todos os players da cadeia de valor tem de ter o seu papel”. “E o Estado é um deles e da ultima vez fez de uma forma responsável. Acho que desta vez vamos encontrar uma solução, todos em conjunto, e atenuar o choque” para as famílias, apontou.

A líder da Sonae reconheceu ainda que a subida do petróleo tem grande impacto para o negócio do grupo nortenho. “No negócio de distribuição alimentar, toda a cadeia de valor é muito afetada pelo preço do petróleo”, disse, acrescentando que a empresa faz vários cenários para calcular o impacto da subida dos preços, mas “é muito diferente durar mais uma semana, dois meses ou dois anos”.

Cláudia Azevedo admitiu que “o tema é geopolítica é a maior incógnita que temos” e “a vontade é que acabe tudo rapidamente”. Depois de um ano que descreveu como “extraordinário” para o grupo, a líder da Sonae notou que “não sabemos como vai ser a situação da geopolítica, mas temos base para um crescimento muito saudável em Portugal e fora de Portugal. Tirando a parte que não controlamos, espero dizer coisas parecidas para o ano”, garantiu, referindo-se aos termos — “memorável” e “extraordinário” — que usou para descrever os resultados nos dois últimos anos.

Preços podem subir se guerra continuar

Sobre a possibilidade de aumentos de preços na alimentação, João Dolores notou que “a inflação no retalho alimentar é uma inflação controlada”. “Os clientes ainda não estão a sentir uma aceleração da inflação“, afiançou, explicando que “na globalidade” os preços se mantêm.

Olhando para o futuro, “não conseguimos antecipar o que vai acontecer” e se o conflito se prolongar “é normal que comece a refletir-se nos consumidores“, reconheceu o CFO do grupo da Maia. “Amortecemos o impacto nos consumidores e é o que podemos garantir”, acrescentou João Dolores.

O CFO do grupo da família Azevedo admitiu que um impacto da guerra no poder de compra das famílias, por via de maiores custos e encargos com a prestação da casa, pode resultar numa alteração de consumo, explicando que, desde a guerra na Ucrânia, o peso da marca branca Continente nas receitas subiu de “20 e poucos” para “cerca de um terço”.

Sobre as tempestades que atingiram o país este ano, Cláudia Azevedo calculou “mais de dez milhões de euros de impacto em termos de valor“, apesar de a empresa adiantar que ainda está a avaliar os custos das últimas tempestades, sobretudo vendas perdidas”.

“Oportunidade única” para acordo na reforma laboral

Num momento em que o Governo retomou as negociações no âmbito da reforma laboral, a presidente da Sonae, que fechou 2025 com 57 mil colaboradores, defende que “o mundo está a mudar muito e o risco é não mudar”. “Olho para esse tema, como vamos garantir melhores salários em Portugal e mais postos de trabalho em Portugal”, acrescentou, argumentando que “seria bom” conseguir um entendimento.

“Estamos num momento ótimo para encontrar esse entendimento” na reforma laboral, realçou. “É uma oportunidade única aproveitar uma altura de pleno emprego para discutir qual o emprego de futuro e necessidades do emprego do futuro“, sustentou.

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, disse esta quarta-feira no debate quinzenal no Parlamento que o Executivo vai esgotar “todas as possibilidades” para chegar a um acordo com os parceiros sociais. No entanto, garantiu que, caso não seja possível, o Governo vai levar ao Parlamento uma proposta de reforma laboral.

(Artigo atualizada)

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