ESA retoma contacto com missão Proba-3. Tekever e Neuraspace ajudam
Desde meados de fevereiro que a Agência Espacial Europeia (ESA) tinha perdido o contacto com o Coronagraph, um dos satélites da missão Probe-3. Tekever e Neuraspace ajudaram na retoma da missão.

‘ESA, temos um problema’. Depois de mais de um mês de silêncio, a Agência Espacial Europeia (ESA) recuperou a ligação com o Coronagraph, satélite que, juntamente com o Occulter, faz parte da missão Proba-3. Duas empresas portuguesas, a Tekever e a Neuraspace, ajudaram a retomar essa ligação e monitorizar a órbita dos satélites.
Lançados juntos para a órbita da Terra a partir da Índia em dezembro de 2024, os satélites Coronagraph e Occulter voam em formação no espaço, a cerca de 150 metros de distância, com o objetivo de gerar um ‘eclipse solar’. Como? Um dos satélites — o Occulter — irá bloquear o Sol para o outro, “permitindo a observação prolongadas da atmosfera circundante do Sol, ou ‘coroa’, a fonte do vento solar e do clima espacial. Normalmente, a coroa só pode ser vislumbrada por alguns minutos durante eclipses solares totais terrestres”, explica a ESA.
Desde meados de fevereiro que a ESA tinha perdido o contacto com o Coronagraph. O contacto foi agora retomado e, para isso, a Tekever deu contributo. Pedro Rodrigues, director of Space da Tekever, explica como.
“O envolvimento da Tekever na missão Proba-3 da Agência Espacial Europeia consolidou-se em 2014, quando fomos selecionados para liderar o consórcio responsável pelo subsistema de Inter-Satellite Link (ISL). Este convite surgiu naturalmente devido ao nosso histórico de inovação em comunicações digitais e sistemas autónomos”, começa por explicar o responsável da área de Espaço da unicórnio nacional, ao ECO/eRadar.
Na prática, “a Tekever é o ‘sistema nervoso’ que liga os dois satélites da missão. Desenvolvemos o hardware e o software (baseado na nossa tecnologia GAMALINK) que permite ao Occulter e ao Coronagraph comunicarem entre si em tempo real. Sem esta ligação ultraprecisa, seria impossível manter o voo em formação milimétrica necessário para criar o eclipse solar artificial que a missão exige”, detalha.
“Numa missão de voo em formação, a perda de contacto entre os satélites é o cenário mais crítico; se os satélites não se ‘ouvem’, a missão fica cega e em risco de colisão. O sistema da Tekever foi fundamental na reativação porque serviu como o canal de coordenação prioritário entre os dois satélites. Ao restabelecer o link de dados entre as duas plataformas, permitiu às equipas de solo sincronizar novamente os sistemas de navegação e controlo e ter informações fidedignas sobre a localização relativa dos dois satélites”, continua o director of Space da empresa portuguesa.
“Este é o culminar de mais de dez anos de trabalho dedicado da nossa equipa de Space. Desde a fase de design e testes de radiação em laboratório, até à integração final e suporte operacional após o lançamento em dezembro de 2024, estivemos envolvidos em cada etapa para garantir que a tecnologia portuguesa suportava as condições extremas do espaço profundo”, considera Pedro Rodrigues.
A missão Proba-3 é um dos projetos da ESA nos quais a Tekever está envolvida. Uma relação “estratégica e contínua”, frisa o director of Space da unicórnio nacional, destacando a ligação da Tekever à missão HERA — “a nossa tecnologia ISL é usada na primeira missão de defesa planetária da humanidade, permitindo a comunicação entre a sonda principal e os CubeSats que estudam o sistema de asteroides Didymos” —, ao projeto ATLARCTIC — em que a companhia lidera o desenvolvimento de um satélite de radar (SAR) de alta resolução para monitorização ambiental do Ártico e do Atlântico Norte — e na evolução GAMALINK. “Continuamos a trabalhar com a ESA no desenvolvimento de novas gerações de rádios definidos por software (SDR) que se estão a tornar o padrão europeu para comunicações entre pequenos satélites”, explica.
Neuraspace ajuda a monitorizar órbita dos satélites
Nesse processo de retoma de contacto com o satélite, a Neuraspace também deu o seu contributo através da recolha de dados através dos seus telescópios terrestres.
“A equipa da Neuraspace ficou extremamente satisfeita em ajudar com sua rede de telescópios óticos terrestres, que rastreou o veículo orbital, mediu o seu brilho ao longo do tempo e ajudou a caracterizar sua taxa de rotação e descida, fornecendo à equipa de resposta rápida da ESA os dados necessários para sincronizar seus comandos de recuperação com o momento preciso em que o painel solar estaria brevemente voltado para o Sol”, explica Nuno Sebastião, fundador da Neuraspace, numa publicação no LinkedIn.
“É assim que a consciência situacional espacial se parece na prática. Não se trata apenas de catalogar detritos. Não se trata apenas de alertas para evitar colisões. Trata-se de suporte operacional real quando uma missão está em risco”, destaca.
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