Sem apontar dedos no apagão, peritos recomendam melhorar monitorização, coordenação e regulação

A investigação sobre o apagão, levada a cabo por um grupo de peritos, conclui que o apagão resultou de uma combinação de muitos fatores interativos.

O grupo de peritos da Rede Europeia de Operadores de Transporte de Eletricidade (ENTSO-E) divulgou, esta sexta-feira, o relatório final em relação ao apagão que assolou a Península Ibérica, em abril do ano passado. O enquadramento repete-se em relação ao relatório preliminar: os peritos frisam que “este foi o apagão mais severo sofrido pelo sistema elétrico europeu em mais de 20 anos, e o primeiro de sempre deste tipo” — isto é, o primeiro a ser causado por sobrevoltagem. Voltagem “é o nível de energia” e “tem de ser mantido dentro de um intervalo”, havia já explicado Klaus Kaschnitz no âmbito do relatório preliminar.

O painel identifica três eventos mais relevantes para o apagão — episódios de desconexão por sobrevoltagem — todos em Espanha, nomeadamente em Granada, Badajoz e depois, em simultâneo, em Segovia, Huelva, Badajoz, Sevilha e Caceres. Este último deu-se ao meio dia, 33 minutos e 17 segundos, hora de Madrid (menos uma hora em Lisboa). É ao 12:33:18 que se dá o “ponto de não retorno, em que o sistema se perdeu”, relata Klaus Kaschnitz, coordenador e especialista do painel, numa apresentação aos jornalistas. É neste ponto que se nota uma quebra na frequência e que os planos de defesa são ativados, de ambos os lados da fronteira, mas não são capazes de travar o apagão dada a sua natureza, “inédita”.

Em comunicado, o ENTSO-E resume que “a investigação conclui que o apagão resultou de uma combinação de muitos fatores interativos”, e que estes fatores conduziram a aumentos rápidos de tensão e a desconexões de geradores em cascata, resultando no apagão na Espanha continental e em Portugal. O relatório “trata-se de uma análise de peritos, não de uma imputação de responsabilidade“, frisou Damien Cortina, presidente do conselho de administração do ENTSO-E. Isso, deixam a cargo das “autoridades competentes” dos respetivos países.

Na apresentação, Kaschnitz mencionou que, por exemplo, os geradores convencionais “não são eficientes o suficiente”, e não existe um requisito específico em relação à velocidade com a qual devem reagir. “Este apagão evidencia como os desenvolvimentos a nível local podem ter implicações à escala de todo o sistema e sublinha a importância de manter fortes ligações”, remata a entidade no comunicado.

O relatório final avança 22 recomendações, que a entidade agrupa, em comunicado, da seguinte forma: “o reforço das práticas operacionais, a melhoria da monitorização do comportamento do sistema e uma coordenação e partilha de dados mais estreitas entre os intervenientes do sistema elétrico“. Neste último ponto, os peritos classificam como “complexas” as interações entre produtores de energia e os operadores da rede de transmissão e distribuição, e indica a necessidade de fortalecer a coordenação entre os mesmos.

Mais em detalhe, o grupo de peritos sugere que seja harmonizado o intervalo de voltagem permitido — varia, por exemplo, entre Portugal e Espanha –, e que sejam melhor monitorizadas e detetadas as oscilações no sistema. Também defende a modernização dos planos de defesa, de forma a incluírem “estes novos fenómenos”, referindo-se à inédita situação de sobrevoltagem.

Em resposta a questões dos jornalistas, os porta-vozes do grupo de peritos indicaram que “há tecnologia pronta” para colmatar a questão do controlo de voltagem, e que não era obrigatória, até ao momento, porque nunca tinha acontecido um incidente que tivesse a sobrevoltagem na sua génese. Daqui para a frente, aconselham a que seja obrigatório um controlo de voltagem em novos equipamentos de geração de energia. Em relação aos existentes, afirmam que é algo a avaliar-se, se devem atualizar-se ou não. Os custos “é algo que precisamos de nos preocupar, dependendo da dimensão da produção”.

Em paralelo, o perito sugere a “realização de uma investigação mais aprofundada”, em conjunto com os Operadores de Rede de Distribuição e os fabricantes, para analisar o comportamento das pequenas unidades de geração, uma vez que, no seu conjunto, “podem resultar numa enorme quantidade de perda de produção”.

Em relação à recuperação, Klaus considera que “foi bastante rápida”, mas sugere medidas adicionais, como reforçar os testes ao sistema de blackstart (que permite reiniciar o sistema elétrico) e também garantir que estão asseguradas 24 horas, pelo menos, de telecomunicações, quando há falhas generalizadas.

As conclusões da investigação sublinham também a necessidade de adaptação dos quadros regulamentares, “de modo a apoiar a natureza em constante evolução do sistema elétrico”.

Falta de cooperação de entidades em Espanha trava conclusões

Em Portugal e em França, os operadores de rede de transporte (TSO) recolheram os dados necessários e transferiram-nos para o Painel de Especialistas em tempo útil”, lê-se no sumário do relatório, disponibilizado pela ENTSO-E. Já em Espanha, “a recolha de dados de terceiros revelou-se mais desafiante”.

Neste sentido, “alguns dados continuam em falta, particularmente no que diz respeito aos disparos de produção que ocorreram antes do apagão, o que impediu o Painel de Especialistas de identificar a causa do disparo das unidades de produção devido à ausência ou inexistência de registos de falha”. O sumário do relatório nota que as partes envolvidas, como é o caso dos proprietários das instalações em causa, citaram a falta de dados de registo de falhas como o motivo pelo qual não conseguiram fornecer esta informação à investigação.

Do lado português, foram agregados dados fornecidos tanto pelo operador da rede de baixa tensão, a E-Redes, como de empresas de geração de eletricidade. O relatório nomeia a Akuo, Aquila, Axpo, CwPower, Dos Grados, EDP Produção, EML, Energi Innovation, Engie, EXUS, Galp, Iberdrola, Powersun Solutions, Neoen, Prosolia, Vector Renewables, Voltalia, Welink e a WiseEnergy como partes que contribuíram.

A dificuldade em obter dados já era uma queixa do ENTSO-E em outubro do ano passado. Do relatório preliminar feito pela entidade e apresentado nesse mês, resultaram três mensagens: foi uma situação inédita, na medida em que nunca um apagão tinha acontecido devido a voltagem elevada, o objetivo do grupo é prevenir acontecimentos futuros semelhantes e foi difícil reunir os dados necessários.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Sem apontar dedos no apagão, peritos recomendam melhorar monitorização, coordenação e regulação

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião