A obra de Banksy perde valor agora que a identidade foi revelada?

Lina Santos,

É um dos artistas contemporâneos mais valiosos, mas o valor das obras de Banksy estava estagnado no mercado da arte. A revelação da sua identidade pode mudar tudo - a seu favor.

Uma obra do artista britânico BanksyEPA

Aviso ao leitor: se, como parte da imprensa especializada, não quer saber a identidade do artista conhecido como Banksy, mas quer tentar compreender o fenómeno, este texto pode ser lido quase até ao fim. Daremos nota do momento em que estivermos prestes a escrever o seu nome. Esta é a história.

Esta semana, a agência Reuters uniu pontos e revelou a identidade do artista. Banksy, que se sabe ser britânico, tem uma abordagem diferente do habitual ao mercado da arte, o que, paradoxalmente, o converte num nome ainda mais apetecível, valioso e valorizado. De acordo com a publicação Carré d’ Artistes, ele é, aliás, o mais valioso dos contemporâneos vivos, à frente de Jeff Koons, Damien Hirst, Ai Weiwei ou Yayoi Kusama. Sobre ele, sabia-se até agora que é britânico e oriundo de Bristol. Que trabalha desde 1990, sobretudo na rua e com stencil. A sua mensagem é social e política. Nos últimos 30 anos, várias foram as ocasiões em que se aventaram identidades. Nenhuma confirmada. Nem mesmo agora.

Na sua já longa carreira, e sem que se saiba exatamente quantas obras são realmente suas, um dos momentos em que Banksy ganhou mais notoriedade e valor aconteceu em 2018 quando a obra Girl With Balloon se autodestruiu assim que foi vendida num leilão por mais de 1,4 milhões de euros. Três anos depois, a obra transformada em Love is in The Bin superou os cerca de 22 milhões de euros num leilão da Sotheby’s. Depois disso, outras duas obras foram vendidas por 11 milhões de euros e 19 milhões. Trata-se de Devolved Parliament e Game Changer, respetivamente.

Os números impressionam e a obra é valiosa, mas não tem subido de preço. Segundo o Wall Street Journal, citando dados da Artnet, 14 das 20 vendas mais elevadas de Banksy ocorreram entre 2021 e 2022, um momento de forte liquidez entre os compradores que não se repetiu. Com esta investigação, podem desbloquear-se novos segmentos de mercado num momento em que o valor do seu trabalho tinha estagnado, diz o jornal norte-americano.

Jean-Paul Engelen, da Acquavella Galleries, citado pelo Wall Street Journal (acesso pago) diz que “o mercado recompensa a clareza”. Um colecionador contactado pelo mesmo jornal diz que nunca adquiriu uma obra do artista por causa da opacidade do seu trabalho. “É difícil comprar obra de alguém que se esforça tanto por permanecer desconhecido, porque o que se está a comprar é folclore”, disse. Banksy tem desmontado ao longo dos anos que a identidade do artista, o percurso e o currículo determinam o seu êxito entre colecionadores e compradores institucionais. O seu sucesso assentava justamente em ser anónimo.

Uma das implicações da revelação da Reuters será a logística dos seus projetos artísticos. Com o seu anonimato, Banksy sempre escapou a acusações de vandalismo. Essa capacidade pode ter ficado comprometida agora. Mas afetará realmente o valor das suas obras? Uma coleção de reações nas redes sociais podem deixar essa ideia, mas quem está no mercado da arte diz o contrário. “Banksy pode ver-se como um rebelde, mas tornou-se parte do mercado de arte estabelecido, pelo que quanto mais se souber sobre a sua vida, melhor”, disse Jean-Paul Engelen ao jornal americano. “Isso não diminui as suas aventuras artísticas”.

É aqui que começamos a falar do nome e de como foi confirmada a identidade de Banksy.

Quem é, afinal, Banksy (e se não quer saber, pare de ler aqui)?

Atrás do pseudónimo Banksy, RobinGunningham, natural de Bristol, como já foi escrito no passado pela imprensa. As pistas recuperadas pela investigação da Reuters cruzam um acontecimento em Nova Iorque, em 2000, e uma viagem à Ucrânia. Nos EUA, Robin Gunningham é o nome que aparece no relatório policial após ser detido por vandalismo. Este homem usará agora o nome David Jones, o verdadeiro nome de David Bowie e um dos mais comuns no Reino Unido, e foi com esse nome que entrou na Ucrânia.

Em 2022, várias obras atribuídas a Banksy surgiram em edifícios destruídos na Ucrânia. Foi através da análise de registos de fronteira que identificou a entrada no país de Robert Del Naja, membro dos Massive Attack, que chegou a ser apontado como sendo Banksy. Segundo a investigação, Del Naja viajava acompanhado por um homem identificado como David Jones, cuja data de nascimento coincide com a do Robin Gunningham, que foi detido em Nova Iorque e do qual não há rasto desde 2008. Nesse ano, o jornal Mail on Sunday escreveu pela primeira vez que Gunningham era Banksy.

Não existe confirmação oficial. A Pest Control, empresa que gere a sua obra recusou confirmar ao Wall Street Journal se a investigação da agência de notícias é verdadeira. O advogado do artista disse apenas à Reuters que “não aceita que muitos dos detalhes estejam corretos”.

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