Ter seguro de saúde aumenta 39% probabilidade de ir ao médico de família privado. Não ter médico no SNS, apenas 6%

  • ECO Seguros
  • 22 Março 2026

O seguro de saúde está a redesenhar os hábitos de consumo de saúde no país, indica estudo da Nova SBE. Já cobre mais de quatro milhões de portugueses.

O principal motivo que leva os portugueses a recorrerem ao médico de família no setor privado não é a falta de médico atribuído no Sistema Nacional de Saúde (SNS), mas sim terem seguro de saúde privado ou outra forma de dupla cobertura. É esta a principal conclusão de uma nota informativa da Nova SBE “Análises do Setor da Saúde – Médicos de Família no Setor Privado em Portugal: Ponto de Situação”, de Carolina Santos e Pedro Pita Barros, em parceria com a Fundação ‘la Caixa’ do BPI.

Em 2025, 14,1% dos adultos recorreram ao médico de família no setor privado. Destes, cerca de 70% tinham já médico de família atribuído pelo SNS. Apenas 4,2% da população total procurou o privado por não ter médico de família público.

O impacto do seguro de saúde é expressivo: ter cobertura privada aumenta em cerca de 39 pontos percentuais a probabilidade de consultar um médico de família no setor privado. Por contraste, não ter médico de família no SNS eleva essa probabilidade em apenas 6,3 pontos percentuais, cerca de quatro vezes menos. O efeito é igualmente significativo entre beneficiários de subsistemas: 24,5 pontos percentuais nos subsistemas privados, 15,2 pontos percentuais na ADSE e 10,8 pontos percentuais na ADM (incluindo PSP e GNR).

O que dizem os dados oficiais sobre consultas?

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2025, cerca de 79,5% da população com 16 ou mais anos referiu ter tido pelo menos uma consulta de medicina geral e familiar nos 12 meses anteriores. O INE não distingue, no entanto, se essas consultas ocorreram no setor público ou privado, tornando por isso os dados da nota informativa da Nova SBE numa importante distinção.

A dimensão do mercado segurador

Estes números ganham mais peso quando cruzados com os dados da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), entidade pública que regula e monitoriza o setor segurador em Portugal. Segundo o Observatório dos Seguros de Saúde da ASF, o setor faturou 1,7 mil milhões de euros em prémios brutos em 2024 – um crescimento de 18,9% face ao ano anterior.

O número de beneficiários, em 2024, ultrapassou pela primeira vez os quatro milhões (4.060.378 pessoas), o equivalente a quase 38% dos 10.746.324 utentes inscritos no SNS em janeiro de 2026. Numa perspetiva de longo prazo, os seguros de saúde mais do que duplicaram em valor numa década, partindo de 524 milhões de euros em 2012. A ASF estima ainda que 5,3% da despesa total em saúde em Portugal tenha sido financiada por seguradoras em 2024.

Continua a existir espaço para crescimento deste mercado

Para além dos já segurados, existe ainda uma procura não satisfeita. Segundo o estudo “O Estado da Compensação”, realizado pela Coverflex – empresa portuguesa de gestão de benefícios para trabalhadores -, 73% dos inquiridos considera o seguro de saúde um benefício importante na sua compensação, mas apenas 51,1% tem efetivamente um seguro de saúde, o que significa que ainda há espaço de crescimento neste segmento do mercado.

Quem perde o médico de família não vai em massa para o privado

De acordo com a nota informativa da Nova SBE, quem perde o acesso ao médico de família do SNS não entra em massa para o setor privado. A probabilidade de recorrer ao privado passa de 13,4%, para quem mantém médico de família no SNS, para 18,7% no caso de quem perde esse acesso, um aumento relativamente moderado.

Já geograficamente, o Algarve (19,3%) e a Grande Lisboa (16,8%) lideram no recurso ao setor privado. Ainda assim, mesmo regiões com alta cobertura pública, como o Norte Litoral (94,6%) e o Grande Porto (93,1%), registam também níveis significativos de utilização do privado, representando assim uma dupla utilização – 10,9% e 12,6%, respetivamente –, o que reforça a ideia de que o fenómeno não se explica apenas pelas lacunas do SNS.

O nível socioeconómico é também um fator determinante: a probabilidade de ter seguro de saúde privado sobe à medida que aumenta o estatuto socioeconómico, o que significa que a vulnerabilidade económica reduz indiretamente o acesso a médicos de família privados.

Os investigadores da Nova SBE alertam para as implicações destes resultados: “Não será de esperar que uma maior cobertura de médico de família no SNS reduza de forma expressiva o trabalho dos médicos de família no setor privado.” Para os autores, o crescimento dos seguros de saúde está a criar um hábito de recurso ao setor privado que existe por preferência e não por necessidade e que assenta, segundo os dados da ASF, numa base cada vez mais alargada de portugueses cobertos.

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