Atividade económica teve um “decréscimo” no primeiro trimestre, avança Álvaro Santos Pereira
Governador do Banco de Portugal afirma que o país está perante "graves perdas económicas" causadas pela depressão Kristin. Nenhum outro episódio teve tanto peso no PIB, diz Álvaro Santos Pereira.

A atividade económica do país no primeiro trimestre deste ano não passou incólume à devastação criada pela depressão Kristin, anunciou o governador do Banco de Portugal nesta segunda-feira, em Leiria. Nunca o país passou por um evento tão penalizador para o Produto Interno Bruto (PIB) no passado recente, nem sequer aquando dos devastadores incêndios de 2017, nos quais morreram mais de 100 pessoas e se perdeu quase 1% do PIB, assinalou Álvaro Santos Pereira.
Presente numa conferência organizada pela autarquia para debater os efeitos da tempestade na economia, o governador do banco central começou por levantar o véu sobre o boletim económico que a instituição apresentará na quarta-feira: “Houve um decréscimo da atividade económica no primeiro trimestre”, revelou.
Na apresentação levada a Leiria pelo ex-ministro da Economia salienta-se que “as tempestades em janeiro e fevereiro de 2026 causaram graves perdas económicas e podem aumentar o risco de crédito no setor bancário”.
Com base em dados de dezembro, Santos Pereira referiu que os 68 concelhos mais afetados, e para onde foi decidido o estado de calamidade, concentram 19,3% do crédito de empresas (28 mil milhões de euros) e 18,7% do total de crédito habitação (20,8 mil milhões), sendo que, destes, 15,8 mil milhões são referentes a habitação própria e permanente.
Nas empresas, as consequências mais graves apontadas são a destruição de ativos físicos e a “disrupção das cadeias de valor”. Para as famílias houve “destruição do património” e “diminuição do rendimento”.
A indústria concentra 32% dos empréstimos bancários concedidos no território afetado (19% quando se considera a média nacional), o comércio 22% (19% a nível nacional) e a construção e atividades imobiliárias têm 13% do total de empréstimos concedidos nos concelhos afetados, enquanto que no total de 308 municípios do país estas áreas representam 23%.
Outra das áreas com dimensão relevante nos créditos bancários de empresas é a agricultura, que representa 7% no total contratualizado no território, quase o dobro dos 4% de todo o país.
Por ordem de grandeza, os cinco concelhos com maior volume de empréstimos a empresas, em milhões de euros e percentagem do total nos 68 municípios em estado de calamidade, são:
- Leiria – 8,4%
- Coimbra – 4,4%
- Torres Vedras – 4,2%
- Aveiro – 3,9%
- Mafra – 3,5%
Caixas Multibanco sem afluência (ou dinheiro… ou energia)
O sucessor de Mário Centeno mostrou que no dia 28 de janeiro, quarta-feira, aquele em que Kristin irrompeu pelo continente, houve menos 60% dos levantamentos bancários em Leiria face à média dos dias da semana anterior. O caso foi mais agudo na zona do Pinhal Interior, designadamente em Sertã (-87%), Ferreira do Zêzere (-91%) e Vila de Rei (-100%).
Na apresentação destes dados, o governador do banco central não esclareceu, contudo, se tal se deveu à paralisação dos concelhos, ou à simples ausência de energia para as caixas multibanco – como o ECO/Local Online verificou a 29 de janeiro, em Leiria e Marinha Grande, assim que a noite se pôs, a escuridão tomou os concelhos de assalto.
Já no domingo após o evento extremo, Leiria viu crescer 7% o número de levantamentos face à média da semana anterior, mas estas outras localidades mantinham-se com perdas entre 61% e 91%, mostrando uma recuperação a 9 de fevereiro. Note-se que durante dias houve falhas de energia e telecomunicações ao longo da região centro.

Entre as consequências desta crise, o Banco de Portugal vê, no curto e médio prazo, a subida da inflação, “sobretudo [por via dos] bens alimentares” após a perda de colheitas. Há ainda, salienta o governador, a possibilidade de empresas destruídas já não regressarem ao ativo, criando-se assim uma perda de capacidade produtiva.
Do lado positivo, vê-se a modernização de capital, por via dos novos equipamentos, e o “investimento em prevenção e resiliência”. Nos cenários desta apresentação, ficou uma pergunta para o longo prazo: “[haverá] recuperação total?”
Para colocar a devastação em perspetiva, Santos Pereira mostrou, na sua apresentação, que nos 68 municípios colocados em estado de calamidade, menos de um quarto dos 308 que compõem o mapa nacional, estão 15,5% das exportações, 12,8% dos hóspedes de alojamento turístico, 13% do valor acrescentado bruto da economia nacional, 14% dos trabalhadores, 15,8% das empresas e 13,8% do volume de negócios.
Ao longo desta vasta área concentrada no centro de Portugal, a que se junta Alcácer do Sal, encontra-se 19,7% do valor acrescentado bruto da indústria nacional, 9,8% dos serviços e 25,6% da agricultura do país. Em matéria de volume de negócios, a indústria tem aqui 17,4% do total nacional, os serviços 12% e a agricultura 27,8%. A nível de empregabilidade, os três setores representam 20,5%, 12,1% e 15,5% do global português.
Nesta leitura, há que levar em conta que se considera um vasto território do centro do país, das praias à raia, o que coloca na mesma análise municípios como Leiria e Marinha Grande, fortemente industrializados, e outros mais insípidos na geração de riqueza nacional.
Isso mesmo se percebe no mapa do crédito a empresas e ao crédito habitação de particulares, com a esmagadora maioria dos 68 concelhos a não perfazerem, cada, sequer 0,5% do total nacional em ambas as categorias.
Este território cobre 22% da área total do país e nele residem 1,8 milhões de pessoas, 17% da população. Estão aqui erguidos 19% do total de alojamentos (1,1 milhões de fogos).
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