Agricultura. Sustentabilidade já não é “uma espécie de margem paralela”

  • ECO
  • 25 Março 2026

A 2ª edição do Fórum Agricultura Sustentável discutiu água, políticas públicas, novos métodos de cultivo e atração de talento.

Gestão da água, do solo e dos nutrientes com o apoio da inovação e da tecnologia estão a tornar a agricultura mais eficiente. Contudo, a falta de recursos humanos especializados e políticas públicas desatualizadas ainda limitam o desenvolvimento de um setor que, apesar de estar na primeira linha da defesa nacional, continua a ser alvo de perceções erradas. “A ideia de que o agricultor anda de enxada às costas ainda está instalada na sociedade, mas é preciso mudar esta perceção”, afirmou o Ministro da Agricultura e do Mar, José Manuel Fernandes, no encerramento do 2.º Fórum Agricultura Sustentável, que decorreu esta terça-feira, em Santarém.

A ideia tinha sido já partilhada por Nuno Serra, que alertou para este mesmo desafio. “A sociedade tem de perceber que a agricultura acrescenta valor e que damos vida a um setor insubstituível”. O Secretário-Geral da CONFAGRI – Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal foi um dos oradores no painel sobre o Capital Humano e Social da Agricultura Sustentável.

Mas, além da mudança de perceção, os participantes no 2.º Fórum Agricultura Sustentável destacaram igualmente a necessidade de reforçar a visibilidade das boas práticas do setor, e lembraram que a sustentabilidade deixou de ser “uma espécie de margem paralela” para se tornar central na competitividade agrícola. Na sessão de abertura, o vice-presidente da Câmara Municipal de Santarém, Emanuel Campos, destacou o dinamismo económico da região, que já ultrapassa os 140 milhões de euros em exportações agroalimentares, lembrando que “o que aqui se produz chega cada vez mais longe, impulsionado pela inovação”.

Produzir mais com menos é critério essencial

No primeiro painel, dedicado à gestão sustentável da água, solo e nutrientes, Nuno Canada defendeu que produzir mais com menos é hoje condição essencial para a rentabilidade, sublinhando que todos os tipos de agricultura – mesmo os modelos intensivos, muitas vezes referidos de forma negativa – “podem ser sustentáveis dependendo das ferramentas utilizadas”. O presidente do INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária destacou ainda o avanço da agricultura inteligente, assente em sensores, robótica, digitalização e inteligência artificial (IA), tecnologias que permitem prever riscos, otimizar recursos e aumentar a eficiência, embora ainda exijam investimento e escala.

Cerca de um terço dos fertilizantes de todo o mundo passa pelo estreito de Ormuz

José Pedro Salema

presidente da EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva

José Pedro Salema alertou, contudo, para desafios atuais que podem impactar o setor e travar o seu desenvolvimento. Exemplo disso é a vulnerabilidade das cadeias globais de fertilizantes potenciada indiretamente pela guerra no Irão. O presidente da EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva recordou que “um terço dos fertilizantes do mundo passa pelo estreito de Ormuz”, o que torna o setor altamente exposto a choques externos, e defendeu que a agricultura sustentável pode reduzir esta dependência. Uma transformação que está a ser feita, mas de forma ainda lenta. “É preciso que cada um dê o primeiro passo na sua exploração agrícola”.

Painel do Fórum de Agricultura Sustentável 2026, em Santarém

Sobre a gestão da água, João Pedro Rodrigues destacou a importância de uma gestão multissetorial e apontou o projeto “Água que Une – Estratégia Nacional para a Gestão da Água” como um instrumento fundamental para dar previsibilidade ao setor. Entre as prioridades, o presidente da AdP Valor destacou a reutilização de água tratada – com 315 ETAR preparadas para o efeito até 2040 –, e a valorização das lamas através de processos inovadores que permitam reforçar a matéria orgânica dos solos.

Agricultura é hoje “mais sexy”

Não obstante os desafios estruturais que condicionam o futuro do setor agrícola, os participantes no segundo painel do Fórum Agricultura Sustentável, dedicado a pessoas e territórios, reconhecem que existe uma apetência crescente da parte dos mais jovens, impulsionada pela tecnologia e pela inovação. Margarida Oliveira, diretora da Escola Superior Agrária de Santarém, defendeu que uma exploração agrícola “é hoje como uma startup tecnológica”, uma vez que exige recursos altamente qualificados e formação sólida em economia agrária, o que torna a agricultura “mais sexy” aos olhos dos estudantes.

Falar de agricultura sustentável é falar de equilíbrio entre a tradição e produção

João Teixeira Leite

Presidente da Câmara Municipal de Santarém

Ainda assim, o nível baixo no rendimento agrícola e os apoios das políticas públicas à entrada de jovens neste setor continuam a ser entraves, e motivo de desistência para muitos, como reconheceram Nuno Serra e Manuela Nina Jorge, que participaram igualmente neste debate. “Se tivéssemos de pagar o oxigénio captado pela agricultura, dávamos mais valor ao setor”, reforçou a sócia da AGROGES. Manuela Nina Jorge salientou, sobretudo, que os apoios têm de ser desenhados para dar aos jovens que querem estabelecer novos projetos de agricultura tempo para que as explorações e as culturas comecem a dar rendimento, o que não acontece atualmente, o que afasta novos agentes do setor.

Painel do Fórum de Agricultura Sustentável 2026, em Santarém

O 2.º Fórum Agricultura Sustentável contou ainda com um debate sobre os desafios e oportunidade da sustentabilidade no Ribatejo, um território “muito rico e com muito potencial”, que tem sido “abandonado há décadas”, como referiu Luís Seabra, da Associação de Agricultores do Ribatejo. Já Gonçalo Morais Tristão, diretor da FENAREG (Federação Nacional de Regantes de Portugal) e presidente do COTR (Centro Operativo e de Tecnologia do Regadio), lembrou que a bacia do Tejo “retém apenas 20% da água”, o que deixa um enorme potencial para a gestão deste recurso escasso na região.

Nesta manhã de trabalho houve ainda tempo para conhecer o projeto sustentável da Quinta da Cholda. João Coimbra alertou a audiência para a necessidade de uma mudança estrutural no setor para escapar ao que descreve como “um modelo que nos está a estrangular”. O administrador deste projeto falava, entre outras coisas, da gestão da energia, um dos custos externos que “continuam a corroer a rentabilidade das explorações”. A solução, admite, passa por uma transição acelerada para práticas regenerativas.

A fechar, José Manuel Fernandes sublinhou ainda que a sustentabilidade “não pode ser só ambiental”, e defendeu um equilíbrio entre ambiente, finanças e coesão territorial. O ministro alertou ainda para a importância da segurança alimentar, lembrando que “é absolutamente crucial” e destacou o papel da inovação, desde a robótica aos drones, na modernização do setor. O Presidente da Câmara de Santarém, João Teixeira Leite, reforçou também a ideia de que “falar de agricultura sustentável é falar de equilíbrio entre tradição e produção” e deixou o anúncio de que Santarém terá, em breve, um parque tecnológico orientado para o setor agroalimentar, onde “a inteligência artificial e os dados estarão ao serviço da terra”.

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