Juntas, Estée Lauder e Puig formariam o terceiro maior grupo de cosmético do mundo

Lina Santos,

Analistas dizem que o negócio “faz sentido do ponto de vista dos produtos, da geografia e dos canais no longo prazo”, A Estée Lauder poderá ter de lançar um OPA sobre a Puig.

Enquanto as partes não revelam mais detalhes sobre a “combinação de negócios” para levar a bom porto a fusão da empresa norte-americana Estée Lauder e a espanhola Puig, detentora de marcas como Jean Paul Gaultier e Carolina Herrera, os mercados agitam-se. Mas que pode significar este negócio de escala planetária? Juntas, as duas companhias de cosmética podem valer qualquer coisa como 35 mil milhões de euros e tornar-se no terceiro maior grupo do setor, atrás da gigante francesa L’Oréal e da suíça Galderma.

Os analistas ouvidos pelo jornal económico espanhol Expansión (acesso pago) notam que, sendo a Estée Lauder maior do que a Puig, a operação poderá tomar a forma de uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a empresa de origem catalã, com um prémio de 25% a 30% sobre a cotação, segundo se fale com a Citi ou com a Jefferies. Neste cenário, a família Puig ficaria com 14% do grupo.

O que há a ter em conta, salienta o jornal espanhol, é que a legislação do país não permite uma transação exclusivamente baseada na troca de ações. Deverá prever, ainda que a título de opção, um pagamento em dinheiro equivalente ao valor por ação proposto. Exceto se os títulos oferecidos estiverem admitidos à negociação num mercado regulamentado da União Europeia. E a Estée Lauder tem uma cotação secundária em Paris que poderá entrar na equação e ser aceite, dispensando a componente em dinheiro.

A Jefferies admite um cenário de oferta mista, acrescenta o Expansión. Nele, a família Puig poderia aceitar parte da proposta em ações (os tais 14% do novo grupo), enquanto os acionistas minoritários receberiam cerca de 1100 milhões de dólares em numerário. A empresa seria avaliada em cerca de 12500 milhões de euros e 45% da operação seria paga em ações. Já nos cálculos do Citi, 20% da operação seria paga em ações.

Ao Cinco Dias, a JPMorgan considera que uma eventual fusão “faz sentido do ponto de vista dos produtos, da geografia e dos canais no longo prazo”, tendo em conta a escala e o alcance, mas lembra também que está em curso uma reestruturação na Estée Lauder. E, para os analistas, é surpreendente a possibilidade da família Puig, terceira geração de descendentes do fundador, abdicar da independência e do controlo maioritário da empresa.

Famílias com direito de voto para manter controlo

Tanto no caso da Estée Lauder como no da Puig, existem ações com diferentes direitos de voto, assegurando que as famílias fundadoras possam manter o controlo. No caso norte-americano, a família Lauder detém cerca de 82% dos diretos de voto. No caso espanhol, é de 92%.

“Numa eventual OPA, será determinante definir que tipos de ações seriam atribuídas aos acionistas espanhóis. Segundo os estatutos da Puig, em caso de oferta, os detentores de ações de classe B (com menos direitos de voto) devem receber condições equivalentes às dos acionistas de classe A. Caso contrário, ativa-se um mecanismo de resgate, obrigando a empresa a recomprar essas ações ao preço da OPA, acrescido de juros”, escreve o Expansión. Cabe explicar que as ações A são as que estão, maioritariamente, nas mãos dos Puig. Entre os acionistas das ações de classe B destaca-se a CriteriaCaixa, ligada ao banco La Caixa (3%).

Outro cenário: uma fusão das divisões operacionais, mantendo as empresas cotadas separadamente. Esta solução é considerada complexa e poderia dificultar a gestão e concretização de sinergias.

As conversações para uma “combinação de negócios” entre Estée Lauder e Puig, confirmadas por ambas partes, acontecem num momento em que os investidores acreditam que a espanhola ficou abaixo dos resultados esperados em 2025 e que a empresa norte-americana foi apontada como alvo de aquisição pela Unilever.

A reação do mercado variou conforme a geografia. Em Espanha, as ações subiram cerca de 14% (ainda que abaixo dos já conseguidos 18 euros por ação e mais ainda dos 24,5 euros com que foi celebrada a chegada da empresa à bolsa em 2024. Do outro lado do charco, as ações da Estée Lauder caíram 7,7%.

L’Oréal na liderança

Ainda que Estée Lauder+Puig venha a ser uma realidade, será preciso crescer muito para ao chegar ao primeiro lugar. Com uma avaliação de 186 mil milhões, a L’Oréal mantém-se como líder do setor. Do seu portefólio fazem parte Garnier, Lancôme, La Roche-Posay ou Kérastase. No segundo lugar, e mesmo assim à frente do que seria a dimensão resultante da fusão agora em negociações, está a empresa suíça Galderma, avaliada em cerca de 37 mil milhões de euros e especializada em dermatologia, com marcas como Cetaphil ou Benzac. Um grupo Estée Lauder/Puig deverá ficar avaliado em 35 mil milhões.

A estratégia de fusão significa mais escala e poder de distribuição entre duas empresas que, segundo o La Vanguardia, apresentam perfis complementares, tanto ao nível das categorias de produto como da distribuição geográfica das vendas. A Estée Lauder detém marcas como Clinique, Balmain, MAC ou Tom Ford e é especializada em cuidados da pele e maquilhagem. Representam 49% e 29% das suas vendas. A Puig é especializada em fragrâncias (são 72% da sua faturação) e nos últimos anos tem vindo a diversificar a atividade, como mostram a aquisição da britânica Charlotte Tilbury, e na cosmética de gama alta, como a Dr. Barbara Sturm.

Um novo grupo poderia aspirar a receitas superiores a 17 mil milhões de euros e uma mais homogénea distribuição dessas receitas, a avaliar pelos números de 2025:

  • A faturação da Puig foi de 5.042 milhões de euros (mais 7,8% do que em 2024), com 55% das vendas concentradas na região EMEA (Europa, Médio Oriente e África), equivalente a 2.752 milhões de euros. As Américas representam 35% do negócio (1.760 milhões), enquanto a Ásia-Pacífico contribui com os restantes 10% (530 milhões).
  • A Estée Lauder registou receitas de 14.326 milhões de dólares (cerca de 12.300 milhões de euros), uma queda de 8,2%, e prejuízos de 1.133 milhões de dólares no último exercício. Em termos geográficos, apresenta uma distribuição mais equilibrada: 35,5% das vendas na região EMEA, 31,7% na Ásia-Pacífico e 30,8% nas Américas. Com um novo CEO desde 2025, Stéphane de Faverie, a empresa anunciou uma redução de 5.800 a 7.000 postos de trabalho.

Após um período de grande dinamismo e surgimento de novos atores no mercado, o setor da cosmética tem vindo a intensificar-se as operações de consolidação. Basta para isos lembrar a aquisição da Rhode pela Elf Beauty ou a venda da Creed à L’Oréal pelo grupo Kering.

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