Morreu José Maria Ricciardi, o homem que pôs em causa o poder de Salgado
José Maria Ricciardi morreu aos 71 anos. Herdeiro de um dos cinco ramos da família, pôs em causa o poder de Salgado, tentou a sua destituição, mas não foi a tempo de evitar o colapso.
- José Maria Ricciardi, membro de um dos ramos da família Espírito Santo e antigo presidente do banco de investimento do grupo, faleceu aos 71 anos, vítima de doença prolongada.
- Ricciardi destacou-se por contestar a liderança de Ricardo Salgado durante a crise do grupo em 2013, defendendo uma gestão mais colegial e transparente.
- Após o colapso do BES, Ricciardi tentou recuperar seu prestígio, liderando a venda do BESI e expressando o desejo de regenerar o nome Espírito Santo.
Faleceu José Maria Ricciardi, membro de um dos cinco ramos da família e antigo presidente do banco de investimento do grupo, apurou o ECO junto de fontes próximas da família. O homem que pôs em causa a liderança de Ricardo Salgado morreu na terça-feira, pelas 23h00, vítima de doença prolongada. Tinha 71 anos.
José Maria Ricciardi nasceu a 27 de outubro de 1954, filho do comandante António Luís Roquette Ricciardi e de Vera Maria Cohen do Espírito Santo Silva, sendo herdeiro de um dos cinco ramos da família Espírito Santo. Licenciou-se em Ciências Económicas na Universidade Católica de Lovaina e dedicou a sua carreira ao setor bancário, o negócio familiar. Foi administrador do Banco Espírito Santo, presidido por Ricardo Salgado, mas ficou sempre mais ligado ao braço de investimento do grupo, o BESI, de que foi presidente executivo entre julho de 2003 e 2016.
Quando o Grupo Espírito Santo começou a revelar fortes fragilidades, em 2013, José Maria Ricciardi assumiu-se como a voz dissonante dentro da família, contestando a liderança de Ricardo Salgado. Nesse ano, num famoso encontro do Conselho Superior da família, onde têm assento todos os ramos familiares, tentou força a destituição de Ricardo Salgado, mas apesar das promessas de alianças, acabou isolado. “Achava que tínhamos de passar de uma gestão absolutamente discricionária, centralizadora, ditatorial, autoritária, sem delegação, sem colegialidade, sem escrutínio, sem os checks and balances, para uma administração — que foi sempre a cultura do BES até esta geração — que sempre foi colegial, participada por todos,”, segundo contou na comissão de inquérito parlamentar do BES.
Não tenho medo de nada. Não me encostam à parede. Vão me por fora do grupo. Sim senhor, eu saio do grupo, sem problema nenhum. Não aceito um conselho de administração do BES em que me retiram. E dizem-me que me dão meia hora para eu fazer figura de parvo a dizer que me enganei naquilo que disse. Tenham paciência.
O Banco Espírito Santo colapsou em agosto de 2014, com a resolução do Banco de Portugal. Ricciardi manteve-se à frente do BESI, liderando a venda ao chinês Haitong Bank. Foi por causa do que sucedeu nos meses anteriores que quase acabou por ser um ‘proscrito’ da família. Para a história ficarão as gravações de áudio que foram tornadas públicas das reuniões supostamente secretas da cúpula da família e que revelaram toda a trama no seio dos Espírito Santo. “Não tenho medo de nada. Não me encostam à parede. Vão me por fora do grupo. Sim senhor, eu saio do grupo, sem problema nenhum. Não aceito um conselho de administração do BES em que me retiram. E dizem-me que me dão meia hora para eu fazer figura de parvo a dizer que me enganei naquilo que disse. Tenham paciência“, atirou Ricciardi num desses encontros do conselho do GES.
Apesar de fazer parte da elite dirigente do grupo, o gestor distanciou-se dos acontecimentos que levaram à queda do BES. “Jamais me apercebi da realidade das contas da ESI [a holding internacional que era a cabeça do grupo, no Luxemburgo], a não ser em Novembro de 2013”, afirmou na comissão parlamentar de inquérito. Sustentou também que a venda de papel comercial da ESI aos balcões do BES, que deixou um grande número de lesados, não passou pela Direção Global de Risco que tutelara, apontando responsabilidades a outros administradores do banco.
Argumentou sempre que quando se apercebeu da fraude nas contas do BES tentou impedir a queda, mas já não foi a tempo. Acabou arrastado para o mesmo inferno reputacional. No julgamento do caso BES, Ricciardi endureceu o discurso sobre o primo e descreveu um banco capturado pela sua vontade pessoal. Disse ter alertado o então governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, para a existência de “um banco dentro de um banco”.
Colaborou e cooperou com as autoridades, mesmo antes da queda do grupo. Atitude que lhe permitiu praticamente passar pelos pingos da chuva de acusações e condenações que reguladores e que Ministério Público avançaram em torno do caso. Pelo menos em comparação com o primo, que não pode dizer o mesmo.
No caso GES/BES, o mais relevante de todos e onde Ricardo Salgado é acusado de associação criminosa entre outros 65 crimes, o Ministério Público ilibou o primo.
Noutros processos do Banco de Portugal ou Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Ricciardi não foi acusado ou acabou por ser absolvido, como no caso da venda de papel comercial, do aumento de capital (ambos da CMVM) ou do BES Angola (Banco de Portugal).
Ainda assim, não escapou por completo à malha das autoridades. Em 2017, teve uma condenação do Banco de Portugal no caso relacionado com papel comercial, não recorreu e pagou uma coima de 15 mil euros. Em 2022, a Justiça mandou congelar os seus bens e dos outros administradores do antigo BES no âmbito de um pedido do Fundo de Recuperação de Créditos que reembolsou em parte mais de 4300 lesados do papel comercial. E também não deixou de criticar quem esteve à frente dos supervisores, incluindo Carlos Costa, ex-governador: “Assobiou para o lado e não quis saber de nada”.
Depois do colapso, Ricciardi tentou salvar o que podia do seu próprio capital simbólico. Liderou a venda do BESI ao grupo chinês Haitong, em 2015. Manteve-se como CEO até ao final de 2016. Em 2021, numa entrevista ao Público, afirmou que “o melhor nome da banca portuguesa foi destruído” e disse que pretendia regenerar o nome Espírito Santo através de um novo banco digital.
Ricciardi abandonou o BESI em 2016, logo após a concretização da venda do banco aos chineses do Haitong. Mas não demorou muito até regressar à banca de investimento “porque as pessoas devem continuar a fazer o que sabem“. Em 2018 ingressou na Optimal Investment, uma boutique financeira lançada por Jorge Tomé, ex-presidente do Banif.
Nesse ano, também concorreu à presidência do seu clube do coração, o Sporting, num dos períodos mais delicados da sua história com a presidência atribulada de Bruno de Carvalho. Ricciardi chegou a apoiá-lo, mas os problemas do ex-presidente do Sporting com os jogadores, que culminou no inédito ataque da claque leonina na academia, levou a admitir: “Sinto-me envergonhado, nunca vi isto nem na América Latina”.
Nessa corrida, o antigo banqueiro conseguiu reunir quase 15% dos votos, que foram insuficientes para os 40% de votos conquistados por Frederico Varandas.
A Servilusa informou esta quarta-feira que o velório terá lugar na próxima 6ª feira, dia 27 de março, a partir das 17h30 nas capelas da Basílica da Estrela. As exéquias fúnebres terão início março às 14h00 horas, com celebração de missa de corpo presente, seguindo após a mesma para o cemitério do Estoril, adiantou a agência funerária.
Cinco frases que marcam um perfil
- “Jamais me apercebi da realidade das contas da ESI a não ser em Novembro de 2013″;
- “As minhas ações tinham toda a razão de ser”;
- “O melhor nome da banca portuguesa foi destruído”;
- “[Salgado] Era o único interlocutor” do BES com José Sócrates;
- “[Salgado] Fazia tudo o que lhe apetecia e sobrava-lhe tempo”.
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