🎥 “Nem que tenha de varrer ruas”. Os dias em que Ricciardi enfrentou o primo Salgado

No final de 2013, nos meses que antecederam o colapso do BES, Ricciardi defendeu mudanças no seio do grupo e desafiou a liderança incontestável de Ricardo Salgado. Saiu derrotado.

José Maria Ricciardi, que morreu esta quarta-feira aos 71 anos, foi o homem que enfrentou Ricardo Salgado, o “Dono Disto Tudo”, nos momentos mais tensos e existenciais no seio de uma das famílias mais (senão a mais) poderosas do país e que culminou na trágica queda do GES/BES há mais de uma década.

No final de 2013, poucos meses antes do colapso do grupo, foi o único da família a desafiar, contrariar e disputar a liderança até então incontestável do seu primo e a quem Ricciardi sempre responsabilizou pelo fim do banco.

“Achava que tínhamos de passar de uma gestão absolutamente discricionária, centralizadora, ditatorial, autoritária, sem delegação, sem colegialidade, sem escrutínio, sem os checks and balances, para uma administração — que foi sempre a cultura do BES até esta geração — que sempre foi colegial, participada por todos”, segundo chegou a contar na comissão de inquérito parlamentar do BES acerca dos planos de sucessão do primo.

O chamado protocolo tinha a concordância seis dos nove membros do conselho superior do GES, a 29 de outubro de 2013.

Aparentemente, José Maria Ricciardi não estava sozinho. Havia mais membros da família que exigiam mudanças na liderança. Mas os planos saíram furados quando Ricardo Salgado descobriu o que estavam a preparar nas suas costas.

Ricciardi viria a ser acusado de tentativa de “golpe de Estado” pelo primo. E por causa disso quase acabou por ser um ‘proscrito’ da família.

Para a história ficarão as gravações de áudio que foram tornadas públicas das reuniões supostamente secretas da cúpula da família – em 7 e 11 de novembro — e que revelaram toda a trama no seio dos Espírito Santo.

Em resposta à conspiração orquestrada pelo primo, Ricardo Salgado convocou uma reunião do conselho superior do GES no dia 7 de novembro para assegurar que contava com o apoio de todos os ramos da família e encostar José Maria Ricciardi à parede.

As discussões dos encontros da família acabaram por sair para a praça pública.

“Aquilo que eu pergunto e vou perguntar ao nosso presidente é se querem dar uma moção de confiança ou uma moção de desconfiança. Mas se não há uma moção de confiança, eu não vou para a frente. E outra coisa que preciso ter garantido é que não há mais falatório sobre o que se passa na sucessão da gestão. Com o mar turbulento que temos, estar a mudar o piloto da embarcação é um convite a irmos todos para o charco”, afirmou Ricardo Salgado na reunião de 7 de novembro.

Ricciardi fez frente ao primo: “Eu não vou dar moção nenhuma de confiança e também não dou de desconfiança. Estou em reflexão, vou ver o que vou fazer, mas neste momento não estou em condições de dar uma moção de confiança”.

Depois de perceber que o seu pai e representante do ramo da família, o Comandante Ricciardi, dera um voto de confiança a Salgado, José Maria bateu com a porta. “Já não estou aqui a fazer mais nada, vou-me retirar, vou tirar as minhas conclusões do que se passou aqui nesta reunião. Muito boa tarde”.

Quatro dias depois, com a cisão no seio da família a fazer manchetes nos jornais, o conselho superior voltou a reunir-se. A discussão foi novamente quente.

Desta feita, Ricardo Salgado irritou-se com José Maria Ricciardi depois de um comunicado divulgado para os jornais referir que o seu ramo da família apoiava uma sucessão na liderança do grupo.

“O comunicado do dr. José Maria diz aqui: ‘O signatário, na sua qualidade de acionista do grupo, limitou-se a não dar o voto de confiança por ele solicitado para continuar a liderar os interesses do grupo por razões que dispensa de revelar’. Se não dá o voto de confiança o que é que dá? Isto é possível, ficar um elemento com estas características dentro de uma comissão executiva? Não é. Totalmente impossível”, exclamou Salgado.

Sentindo-se isolado, Ricciardi voltou a enfrentar o primo: “Não tenho medo de nada. Não me encostam à parede. Vão-me por fora do grupo. Sim senhor, eu saio do grupo, sem problema nenhum. Não aceito um conselho de administração do BES em que me retiram. E dizem-me que me dão meia hora para eu fazer figura de parvo a dizer que me enganei naquilo que disse. Tenham paciência”.

De orgulho ferido, José Maria Ricciardi virou-se para os outros membros da família e disse: “Nem que tenha de ficar a lavar as ruas ou a varrer ruas, o meu caráter e olhar para o espelho e sentir-me bem é a coisa mais importante da minha vida”.

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