Portuguesa Enline quer responder ao ‘desafio Kristin’ e leva gémeos digitais de redes a oito novos países

Empresa portuguesa afirma que a tecnologia de gémeos digitais, que já espalhou por mais de 30 países, vai chegar a mais oito, e frisa que, por cá, podia ser útil para gerir situações de tempestade.

A Enline é uma empresa portuguesa com sede em Mirandela, dedicada à criação de gémeos digitais das redes elétricas – no fundo, uma réplica virtual que serve para monitorizar o que se passa no mundo real. Recentemente, um dos clientes passou a acionista, a suíça ABB, e não é a única novidade para este ano: a empresa espera expandir-se para oito novos mercados e mais do que duplicar a faturação, rumo aos cinco milhões de euros. Em relação a Portugal, já trabalha com a E-Redes e REN, mas numa pequena escala, e afirma-se disponível para mais, garantindo que pode inclusivamente ser uma boa ajuda para prevenir danos maiores em situações como a da tempestade Kristin.

Nós criamos réplicas digitais de ativos de energia, principalmente linhas de transmissão e distribuição”, explica Manuel Lemos, cofundador da Enline. O conceito é criarem-se réplicas, ou os chamados “gémeos digitais”, usando dados meteorológicos, topográficos, a localização e tipologia das torres de eletricidade, mapas da infraestrutura, imagens de drones, características dos cabos, informação sobre as subestações e os dados que estas recolhem através dos seus sensores. Com este cruzar destes dados, a Enline dá visibilidade sobre “tudo o que acontece ao longo das linhas” em tempo real, mas também consegue fazer previsões, com até dez dias de antecedência.

A Enline cria os gémeos digitais sem necessitar da instalação de sensores ao longo dos ativos, o que, afirma a empresa, representa uma vantagem relevante em termos de custos — já que não é preciso comprá-los e ir ao terreno instalá-los — e também de velocidade de implementação. A empresa portuguesa consegue digitalizar “milhares de quilómetros numa semana”, sendo os 2.000 quilómetros o seu atual recorde. Fazer o mesmo com outras tecnologias existentes, garante o cofundador, “demora anos”. A precisão dos ‘gémeos’ é acima de 95%. “Parece magia, mas não é. É física com um algoritmo”, pontua.

Ter esta monitorização das linhas tem diferentes utilidades. Podem perceber-se ruturas, o risco de estas infraestruturas provocarem incêndios ou até capacidade de transporte. Neste sentido, é possível otimizar a quantidade de eletricidade que é conduzida através das redes a cada momento. Variáveis meteorológicas como a velocidade do vento ou a temperatura do ar podem ditar que a capacidade de transporte das linhas aumente entre 30% a 40%, explica um dos cofundadores e CEO, Manuel Lemos. Num contexto de crescente eletrificação, “essa capacidade é muito importante que possa ser explorada ao seu máximo potencial”, remata o CEO.

Aquilo a que cada cliente tem acesso — visibilidade sobre falhas, capacidade de rede, ou até o estado da vegetação envolvente — depende das suas necessidades, e daquilo que preferir contratar, embora a tecnologia usada para entregar os diferentes resultados seja a mesma.

Novo acionista e novos mercados em 2026

A ABB, uma gigante suíça dedicada a tecnologias para a produção, transporte e distribuição de energia, é um dos clientes da Enline, mas agora é também acionista, através da subsidiária ABB Electrification. Investiu na semana passada dois milhões de euros na Enline, o que lhe garante uma participação minoritária na empresa.

Em paralelo, no âmbito do contrato comercial entre as duas empresas, a firma suíça inclui a tecnologia portuguesa numa plataforma que disponibiliza aos respetivos clientes, explica Manuel Lemos. Sendo a ABB uma gigante, este uso da tecnologia portuguesa junto dos seus clientes pode representar “dezenas ou até centenas de milhões de euros” em faturação para a própria Enline, afirma Manuel Lemos, olhando ao futuro. Este ano, a Enline tem como objetivo superar os cinco milhões de euros de faturação.

Gabriel Pino e Manuel Lemos, cofundadores da Enline

Na passada terça-feira, Manuel Lemos falava com o Capital Verde não a partir de Mirandela, onde trabalha e onde é a sede da empresa, mas sim de um país europeu no qual a empresa acaba de ganhar um leilão para cobrir “parte significativa” da rede de transporte: a Lituânia. E este é só um dos passos de expansão que espera ver cumpridos este ano. Estados Unidos, Canadá, México, Equador, Chile, Argentina e Austrália são outros mercados nos quais a Enline conta entrar em breve, ainda este ano. Atualmente, a maior parte da faturação da empresa portuguesa provém da América Latina e Europa, e está presente em mais de 30 países.

Esta abrangência era difícil de adivinhar quando, em 2018, Manuel Lemos se cruzou com o seu sócio cofundador, Gabriel Pino, quando ambos trabalhavam para a Voith, empresa do universo Siemens que fornecia turbinas para centrais hidroelétricas. Lemos era na altura diretor da empresa na América Latina e Pino o responsável da parte de investigação e desenvolvimento no laboratório de São Paulo.

“Eu vivia nessa altura entre o Brasil e o Peru, onde estive 15 anos”, conta Manuel Lemos. Foi numa viagem ao Brasil que se sentou à mesa de um restaurante de São Paulo, com Gabriel Pino do outro lado da mesa. “Entre um vinho português e um bacalhau, pensámos em fazer a empresa”, relata Lemos. Em 2019, constituíram a sociedade e, em 2020, já trabalhavam a full time neste negócio. Hoje, a empresa conta com quase 70 trabalhadores, a operar a partir de diferentes países do mundo, a partir de casa. “De manhã falamos com a Austrália, à noite estamos a falar com São Francisco, durante o dia falamos com o Peru”, relata o fundador. Manuel Lemos escolheu viver na cidade da sede, Mirandela.

Em Portugal, (ainda) são pequenos. Mas querem responder ao ‘desafio’ Kristin

Em Portugal, a Enline trabalha com a REN e a E-Redes, mas a uma muito pequena escala, apenas em projetos embrionários, pelo que cobre menos de 1% da rede nacional, estima o cofundador. E estes clientes não têm contratados todos os serviços, apenas aqueles que permitem aumentar a capacidade das redes. Questionado sobre se a empresa estaria habilitada a passar a cobrir a rede nacional por completo “amanhã”, Manuel Lemos não hesita: sim. E acrescenta: “Estamos a colaborar com outras empresas portuguesas para que a engenharia nacional dê uma resposta sofisticada e qualificada ao desafio lançado pelo governo no tema da resiliência no pós tempestade Kristin”.

Estamos a colaborar com outras empresas portuguesas para que a engenharia nacional dê uma resposta sofisticada e qualificada ao desafio lançado pelo governo no tema da resiliência no pós tempestade Kristin.

Manuel Lemos

Cofundador e CEO Enline

Em janeiro, afirma que o país assistiu a “um sistema completamente reativo e sem nenhum tipo de preparação”. Com serviço da Enline que diz respeito à gestão de riscos e monitorização, teria sido possível “simular os eventos e planear as ações necessárias na rede, mitigando os impactos através do conhecimento da rede“, afirma o responsável.

Sobre os custos para o sistema, Manuel Lemos afirma que o retorno destas soluções “é imediato”, tanto tendo em conta a quantidade de linhas que não é preciso construir face à otimização do uso das existentes, e considerando também o custo dos acidentes e desligamentos. No final de contas, “a maior dificuldade que há para poder eletrificar o mundo são as redes elétricas, que estão a sofrer porque não estão digitalizadas. E a solução da Enline permite dar esta flexibilidade e a visibilidade às redes”, argumenta.

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