Irão impõe novo foco no ESG e ‘puxa’ pela descarbonização

O conflito armado no Irão veio reforçar um novo posicionamento da sustentabilidade na agenda, um 'business case' da descarbonização para as empresas e da mobilidade elétrica.

A guerra no Irão veio recordar as desvantagens, também económicas, da dependência da sociedade de combustíveis fósseis. No âmbito do podcast Mulheres com Eco, que junta mulheres líderes nas suas áreas, Angela Lucas, sócia da Systemic, afirma que o conflito armado veio reforçar um novo posicionamento da sustentabilidade na agenda, como um imperativo de segurança e independência energética. Neste contexto, Anabela Lino, líder da ABB em Portugal, frisa que existe um ‘business case’ da descarbonização para as empresas, com um retorno rápido. Daniela Simões, CEO da Miio, indica que os efeitos também são notórios no setor da mobilidade elétrica, que compara (ainda) melhor no preço com as alternativas fósseis. Deixa contudo alguns alertas em relação ao travão que pode advir do novo regime legal da mobilidade elétrica em Portugal.

Apesar dos recuos no discurso e regulação de sustentabilidade, que se têm vivido nos Estados Unidos e na Europa, a sustentabilidade “está completamente na agenda”, considera Angela Lucas, sócia da Systemic. Há, contudo, uma diferença crucial: esta está “enquadrada de outra forma e com outra linguagem”. A sustentabilidade está hoje presente mas debaixo de um chapéu diferente, por comparação àquele que lhe assentava na altura em que o Green Deal surgiu na Europa, em 2019. Está na agenda “não por ser boa em si mesma, mas porque também serve o propósito da descarbonização e da independência e da segurança energética”, uma motivação que começou com o relatório Draghi e que é agora exacerbada pelo conflito no Irão, afere Angela Lucas.

[A sustentabilidade está na agenda] não por ser boa em si mesma, mas porque também serve o propósito da descarbonização e da independência e da segurança energética.

Angela Lucas

Sócia da Systemic

Da parte do tecido empresarial, deteta alguma “retração” nestes temas, mas apenas na medida em que está “a ver em que é que isto dá”. Acredita que as empresas “já perceberam que não podem estar dependentes de uma lógica regulatória e de compliance regulatório. Têm de fazer esta caminhada para estarem aptas a serem resilientes e a resistirem a todas estas mudanças”.

Anabela Lino, Country Holding Officer da ABB, indica que “para as empresas, acaba por ser uma questão estratégica” olhar para estes temas, tanto que os mesmos já não estão confinados ao gabinete de sustentabilidade. Na empresa que gere, o comité executivo tem uma parte da sua remuneração variável indexada às metas de descarbonização. Os argumentos que vê para o tecido empresarial investir em sustentabilidade são vários. Fala do posicionamento de marca, que torna a empresa mais atrativa para novas gerações, passando pela atração de investimento – fundos com base ESG procuram empresas com este foco — e, por fim, “quando nós falamos de descarbonização, podemos falar em redução de custos de produção muito significativos”, sublinha.

Quando nós falamos de descarbonização, podemos falar em redução de custos de produção muito significativos.

Anabela Lino

Country Holding Officer da ABB em Portugal

“Muitas das vezes não é só mudar de uma energia convencional para uma energia renovável, porque a melhor energia é aquela que nós não consumimos”, frisa a líder da ABB. E dá um exemplo: indústrias que têm motores da antiga geração lidam com perdas de energia de cerca de 40% face ao que seria possível com motores mais modernos. Sendo que 45% da energia consumida mundialmente é consumida por motores, “temos aqui uma oportunidade gigante de conseguir reduzir esses consumos”, assinala. O retorno deste investimento ‘chega’ num prazo de até dois anos.

Olhando ao setor da mobilidade elétrica, este já estava “bastante confortável” em termos de preço quando comparado os veículos a combustão, mas “conseguimos perceber agora que a diferença é maior”, à luz do conflito armado, reconhece Daniela Simões, CEO da Miio. Adotar este tipo de mobilidade passa a ser “uma estratégia de sobrevivência” para particulares e empresas, acredita. Em relação a serem necessários mais incentivos para haver uma transição mais rápida nesta, afirma que “são sempre bem-vindos”, apesar de assinalar que “já existem alguns” e que começa a existir uma oferta automóvel “mais acessível”.

[A mobilidade elétrica é] uma estratégia de sobrevivência.

Daniela Simões

CEO da Miio

A ABB, que fabrica carregadores e desde 2024 que dispõe de uma frota totalmente elétrica, indica que a compra de elétricos por empresas “tem um incentivo muito interessante”, a dedução do IVA, afirma Anabela Lino, considerando que este é importante até para se irem “desfazendo” mitos relacionados com a mobilidade elétrica. Ressalva, contudo, que “faz falta haver uma rede mais ampla de carregadores rápidos para dar confiança”.

Olhando às mudanças no regime legal que enquadra a mobilidade elétrica em Portugal, Daniela Simões alerta que a perda da interoperabilidade da rede de carregamento “é um retrocesso” para a experiência do utilizador. Relata que hoje, em Portugal, com apenas uma aplicação, é possível usar qualquer ponto de carregamento. “Se cruzarmos a fronteira e formos para Espanha, por exemplo, já não é assim que funciona. [Quando vivi lá] tinha sete ou oito aplicações instaladas no meu telemóvel”, contrapõe, para ilustrar o retrocesso. Deixando de ser obrigatória esta espécie de ‘roaming’ entre carregadores de veículos elétricos, pode deteriorar-se a experiência, apesar de se acrescentar uma simplificação prevista nas regras europeias, de dispor de terminais de carregamento em determinados pontos, e impor-se a discriminação do preço, dois pontos positivos. “Espero que não seja um retrocesso na adoção de veículos elétricos”, remata.

Diversidade e empatia para liderar melhor

Perante um cenário marcado pela guerra no Irão e um discurso anti-sustentabilidade, “Um líder tem de ter agilidade e pragmatismo, e tem de ter a coragem. É preciso ter mão firme e é preciso decidir”, considera Angela Lucas. “Mão firme às vezes associa-se mais aos homens. É errado e deve partir das mulheres também contrariarem essa ideia”, defende, já que na sua ótica as mulheres são empáticas mas fortes, “fortes de outra forma”.

Na mesma linha, Daniela Simões entende que “a liderança também é cuidar de empresas e cuidar de pessoas, e ter esta empatia para resolver conflito para nos encontrarmos a meio, porque daí temos bons resultados”. Como CEO da empresa que criou, recusa romantizar a ideia de empreendedorismo, porque “ninguém acorda um dia de manhã e pensa, olha, tive uma ideia multimilionária, vou começar, vou resolver a minha vida toda.”. O conselho que deixa é “é começar mesmo que nós não tenhamos todas as respostas”.

Para Anabela Lino, “a diversidade é que é o fator”, o que leva a uma decisão por norma mais rica. Na sua carreira, ficou marcada por um mentor, um chefe de nacionalidade sueca, que a convidou a assumir funções de chefia quando a líder da ABB contava apenas 28 anos. “Todos nós cometemos erros, independentemente da idade que tenhamos” e “vai aprender mais em seis meses neste desafio do que se tiver cinco anos a fazer aquilo que está a fazer agora na sua zona de conforto” foram os argumentos apresentados. Hoje, acredita que as mulheres devem aproveitar para participar em processos de mentoria se possível, porque “as ajuda a acreditar que são tão ou mais capazes do que o homem e que fazem coisas excelentes”, conclui.

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