Setor agrícola enfrenta teste de eficiência e adaptação

  • ECO
  • 26 Março 2026

Pressão para produzir mais com menos está a acelerar adoção de tecnologia no campo, mas falta de mão‑de‑obra qualificada. Ausência de políticas ajustadas continuam a limitar competitividade agrícola.

Uma transformação tecnológica que promete ganhos de eficiência é a face mais atrativa de um setor ainda percecionado como tradicional. Mas os desafios estruturais, da escassez de água à falta de recursos humanos, continuam a condicionar o ritmo desta mudança na agricultura que, adicionalmente, enfrenta ainda a dificuldade de “fazer mais, com menos”.

Este foi o diagnóstico traçado nos dois primeiros painéis do 2.º Fórum Agricultura Sustentável, uma iniciativa do ECO com o apoio da Câmara Municipal de Santarém, que decorreu esta semana no Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas (CNEMA). Destas duas conversas ficou ainda registada a consciência geral de que a inovação só será eficaz se for acompanhada por políticas públicas mais ágeis e por uma renovação geracional que não tem acontecido no setor agrícola.

No primeiro painel, que teve como tema “Inovação e tecnologia na gestão sustentável dos recursos: água, solo e nutrientes”, Nuno Canada lembrou que atualmente “produzir mais com menos é um fator crítico de sucesso”. Para o presidente do INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, a discussão sobre modelos agrícolas perdeu relevância, porque “todas as agriculturas podem ser sustentáveis dependendo das ferramentas utilizadas”. A agricultura inteligente, suportada em sensores, robótica, digitalização e IA está a tornar‑se indispensável, sobretudo num país onde “80% das explorações não têm água própria e dependem do regadio”. A tecnologia, sublinhou, permite prever riscos e otimizar recursos, mas ainda é cara e exige escala.

A vulnerabilidade externa do setor foi destacada por José Pedro Salema. Mais do que recordar que grande parte dos fertilizantes passam pelo estreito de Ormuz, condicionado agora pela guerra do Irão, o presidente da EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva lembrou que a ureia (usada na composição de fertilizantes) duplicou de preço nas últimas crises energéticas, e a amónia (usada para o mesmo efeito) segue a mesma lógica. Isto reforça a necessidade de reduzir dependências e de apostar em soluções internas, como a compostagem, a regeneração de solos e a fertilização orgânica, e de acelerar a transição para práticas mais autónomas.

A gestão equilibrada da água tem de ser feita de forma multissetorial, envolvendo agricultura, cidades, indústria e ambiente

João Pedro Rodrigues

Presidente da AdP Valor

José Pedro Salema lembrou ainda que a energia é outro fator crítico nas explorações agrícolas. “Se tivéssemos construído em 2020 as centrais fotovoltaicas que estão a ser construídas agora, nos dois anos de crise energética que tivemos, aquele investimento já estaria pago”.

João Pedro Rodrigues destacou o tema da gestão da água, que apontou como outro grande desafio do setor. Para o presidente da AdP Valor, a água não pode ser vista apenas como um recurso natural, mas como um ativo estratégico que atravessa vários setores. “A gestão equilibrada da água tem de ser feita de forma multissetorial, envolvendo agricultura, cidades, indústria e ambiente”, disse, garantindo que apenas uma abordagem integrada poderá resolver o problema de forma eficaz. A capacidade de reutilizar a água de diferentes fontes, para distintas aplicações é essencial e um salto estrutural para o país. “O ciclo urbano da água tem de ser fonte para a agricultura”, exemplificou.

Nesta perspetiva, a AdP Valor, empresa que gere a inovação no Grupo Águas de Portugal,
investe um milhão de euros por ano em investigação e desenvolvimento, através de um fundo interno. Este investimento, revelou o presidente, apoia projetos que vão das novas tecnologias de tratamento a sistemas de produção de APR (aproveitamento de águas residuais). “Para nós, inovação não é apenas um discurso”, sublinhou.

Pessoas e territórios são o elo mais frágil da sustentabilidade

Se o primeiro painel mostrou que a tecnologia está a avançar, o segundo revelou que o capital humano continua a ser um enorme entrave ao setor agrícola. Nuno Serra, da CONFAGRI – Confederação Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal, lembrou que “o rendimento médio do setor é de 7%”, o que dificulta a entrada de jovens e a sucessão nas explorações. “A sucessão é importantíssima, e não estamos a conseguir garantir essa transição”, alertou, defendendo medidas públicas que mitiguem custos iniciais e simplifiquem processos.

A formação e a atratividade dos jovens foram analisadas por Margarida Oliveira, diretora da Escola Superior Agrária de Santarém. Apesar de o setor enfrentar dificuldades, a escola cresce acima de 5% ao ano, e este ano 9%. A explicação está na modernização do setor, o que o torna mais atrativo, mas a professora alertou que “é muito difícil a um jovem ser empreendedor sem formação em economia agrária” e que há escassez de recursos humanos especializados, da engenharia alimentar à investigação. Ou seja, não basta saber produzir, é preciso saber gerir, investir, calcular risco e rentabilidade.

Não inventámos ainda a sustentabilidade da instalação do jovem agricultor.

Manuela Nina Jorge

Sócia da AGROGES

Manuela Nina Jorge, sócia da AGROGES, reforçou que o problema começa na instalação dos jovens agricultores. “Não inventámos ainda a sustentabilidade da instalação do jovem agricultor”. As análises feitas pelo Estado são “meramente económicas e não financeiras”, o que impede jovens sem capital próprio de sobreviver até as culturas permanentes produzirem. A juntar a este entrave, acrescentou, a demora na aprovação e no pagamento das candidaturas a apoios criam um “ciclo de frustração e desistência”.

A consultora defendeu o reforço de incentivos fiscais, políticas territoriais mais flexíveis e medidas práticas, como dotar explorações em zonas florestais de meios para limpeza e prevenção de incêndios, entre outros exemplos. Ao terminar a sua intervenção, Manuela Nina Jorge, deixou ainda um aviso: “Acordemos para a realidade!”.

Os dois painéis retrataram um setor que está a avançar na aplicação de tecnologia, mas que continua travado por limitações humanas, financeiras e políticas. A agricultura portuguesa tem condições para ser mais eficiente e autónoma, mas precisa de pessoas, de visão e de decisões mais rápidas para transformar potencial em competitividade real, concluíram os participantes.

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