BESI: o projeto da vida de Ricciardi que acabou em mãos chinesas

Ricciardi esteve 24 anos no banco de investimento, 14 dos quais como líder executivo. Dizia que queria fazer do BESI um dos maiores do mundo, ficou-se por ser o maior do país. Agora em mãos chinesas.

José Maria Ricciardi, que morreu esta semana aos 71 anos, deixou uma marca importante na banca portuguesa. Não só porque fez parte da trágica história do BES, processo no qual desafiou e disputou a liderança do seu primo Ricardo Salgado, mas também pelo impulso que deu à banca de investimento em Portugal, através do BESI. Que queria que fosse dos maiores do mundo, mas acabou nas mãos de chineses na sequência da queda do grupo.

Atualmente, o BESI chama-se Haitong Bank, depois de o banco de investimento de onde Ricciardi se despediu em 2016 ter sido comprado por um grupo chinês com o mesmo nome por cerca de 400 milhões de euros.

Entretanto, voltou a mudar de mãos no ano passado, com a fusão da Haitong Securities na rival chinesa Guotai Junan, e que deixa o futuro do banco português em aberto.

Ricciardi esteve 24 anos no banco de investimento, 14 dos quais como presidente executivo. Dizia que queria fazer do BESI um dos maiores do mundo. Ficou-se por ser o maior do país.

Os maiores negócios que se faziam há 15 e 20 anos em Portugal tiveram o envolvimento, de alguma forma, do BESI, incluindo nas privatizações de grandes empresas como a EDP ou REN — processos em que atuou como assessor dos compradores China Three Gorges e State Grid. Operações nas quais Ricciardi chegou a ser investigado por suspeita de tráfico de influências e fraude fiscal, contou o Correio da Manhã na altura. Em 2012, com mais de 800 trabalhadores, o BESI faturou 261 milhões de euros num dos melhores anos da sua história.

BESI sai da asa do BES

No final de 2013, com o agravar dos problemas no Grupo Espírito Santo, José Maria Ricciardi desafiou o primo e para a história ficam as reuniões da cúpula da família mais poderosa do país que expuseram a luta pelo poder no BES nos meses que antecederam a grande queda.

Ricciardi acabou encurralado e acusado de traição. Em junho de 2014, poucas semanas antes da medida de resolução aplicada ao BES, assumiu a derrota quando soube que não estava na linha de sucessão ao primo. Arrumou as malas e dedicou-se àquilo que – e olhando retrospetivamente – foi o seu projeto de vida na banca.

“O signatário, José Maria Espírito Santo Silva Ricciardi, vem transmitir publicamente que irá optar por desenvolver a sua carreira bancária no Banco Espírito Santo de Investimento, onde exerce o cargo de Presidente da Comissão Executiva, apostando num projeto de natureza estratégica que pressupõe a separação da banca de investimento da banca comercial, de harmonia com o modelo de governance que tem vindo a ser desenvolvido no mercado bancário internacional”, afirmou numa declaração divulgada no dia 20.

A 4 de agosto, com a medida de resolução do Banco de Portugal, o BESI foi transferido para o Novobanco. O banco de investimento escapou à derrocada do império dos Espírito Santo, mas o futuro no seio do banco de transição foi selado aí.

O BES foi vendido aos chineses logo a seguir. O negócio ficou fechado no início de 2016, com o Novobanco a encaixar 379 milhões de euros. Ricciardi manteve-se na liderança, mas por pouco tempo. Ainda no final desse ano abandonou o banco em rutura com o chairman. Queria um reforço do balanço para ganhar músculo financeiro para conquistar mais operações – algo a que estava habituado a ter sob a asa do BES.

Haitong perde dimensão, Ricciardi sonha com banco digital

Com a crise no país e com um mercado de capitais sem grande profundidade, o Haitong foi perdendo dimensão e negócio na segunda metade da década passada — até porque a ponte com a China não estava a dar os frutos desejados.

Se atualmente o Haitong é uma sombra do que foi BESI, o banco tem vindo a estabilizar a sua atividade nos últimos anos. Agora conta com uma estrutura de 331 trabalhadores e uma faturação na casa dos 70 milhões (dados relativos a 2024) – longe dos anos dourados do BESI de Ricciardi.

Quanto a Ricciardi, voltou à banca de investimento em 2018, ingressando na Optimal Investment, uma boutique financeira lançada por Jorge Tomé, ex-presidente do Banif, “porque as pessoas devem continuar a fazer o que sabem”.

Mas o seu sonho era outro: refundar a marca Espírito Santo porque “o melhor nome da banca portuguesa tinha sido destruído”, segundo afirmou em entrevista ao Público. Ricciardi tinha planos para lançar um banco digital. “Se conseguir começar a fazer a sua regeneração [da marca Espírito Santo], para que as gerações seguintes o desenvolvam, partirei desta vida com a consciência tranquila de que fiz tudo o que podia”.

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