Pinhal Interior teme verão difícil. Autarcas pedem ajuda do Exército para reduzir risco de incêndio

  • Lusa e ECO
  • 27 Março 2026

Tempestade Kristin deixou caminhos florestais impedidos e mais combustível no terreno para arder num território marcado pela passagem do incêndio de Pedrógão Grande em 2017.

O território marcado pela passagem do incêndio de Pedrógão Grande em 2017 está preocupado com a aproximação do verão, depois de a tempestade de janeiro ter deixado centenas de quilómetros de caminhos florestais impedidos e mais combustível no terreno para arder.

Em Pedrógão Grande, a Câmara Municipal realizou voos com drones para perceber o estado do território após a passagem da tempestade Kristin, em janeiro, e o retrato deixou o presidente do município, João Marques, preocupado: “Quase todos os caminhos florestais estão intransitáveis”. Segundo o autarca, as equipas de sapadores da associação local de produtores e máquinas do município irão começar em breve os trabalhos de remoção.

Mas João Marques admite que será difícil dar resposta a tudo, mesmo com um prazo alargado para a limpeza de terrenos até 30 de junho para os municípios abrangidos pela calamidade. “O período dos incêndios está a chegar e estamos muito preocupados, porque os principais caminhos florestais estão completamente impedidos”, diz à agência Lusa o presidente da Câmara de Pedrógão Grande.

Em Pesos, aldeia daquele concelho, Fiona e Adrian Wisher, já se começaram a preparar para a eventualidade de o fogo chegar. “Temos os tanques de água cheios e temos andado a limpar o terreno”, conta Fiona, que se mudou com o marido há cinco anos para Pedrógão Grande e que ganharam outra consciência para o risco de fogo depois de terem vivido o incêndio de outubro de 2017 em Tábua, no distrito de Coimbra.

O casal do Reino Unido tem o seu terreno impecavelmente limpo, mas ao lado veem-se árvores caídas e um caminho florestal impedido por troncos partidos pelo vento. “Temos muita consciência do risco. Se for preciso passar um veículo, não há hipótese”, alertou Adrian Wisher.

O presidente da Câmara de Ansião, Jorge Cancelinha, nota que será impossível limpar tudo no concelho afetado em 2017 e em 2022 pelos incêndios e que agora se depara com estradas florestais bloqueadas e muitas árvores caídas. “Vamo-nos focar em libertar caminhos florestais e trabalhar nas faixas de gestão de combustível”, disse, referindo que os prazos estipulados para os proprietários limparem os seus terrenos “é fantasia”. Com 600 quilómetros de caminhos florestais, Jorge Cancelinha diz que tudo tem sido feito exclusivamente com meios das autarquias e alertou que faltam recursos.

Para o presidente da Junta de Freguesia de Alvaiázere, Carlos Pinto Trindade, essa é a grande preocupação que assume neste momento: “Daqui a dois meses, já se começa a falar em fogos e temos muitos caminhos florestais para limpar”. O autarca espera que possam surgir meios do Estado central, considerando que as autarquias, por si só, não terão capacidade.

Há uma urgência de retirar toda ou uma boa parte da madeira que caiu ao chão. Não são apenas os troncos, são as copas que estão a secar e que representam um acréscimo de biomassa junto da superfície. Se houver algum foco de incêndio, essa biomassa vai estar disponível para arder.

Domingos Xavier Viegas

Autor do relatório sobre o incêndio de Pedrógão Grande

Para o especialista em incêndios florestais Domingos Xavier Viegas, “há uma urgência de retirar toda ou uma boa parte da madeira que caiu ao chão”. “Não são apenas os troncos, são as copas que estão a secar e que representam um acréscimo de biomassa junto da superfície. Se houver algum foco de incêndio, essa biomassa vai estar disponível para arder”, notou o também autor de um relatório sobre o incêndio de Pedrógão Grande.

Além desse risco, o especialista nota que árvores que não estão completamente caídas poderão funcionar “como uma escada para levar o fogo da superfície até às copas”. “Quando o fogo atinge as copas das árvores, a carga de biomassa está mais sujeita ao vento e liberta energias ainda superiores, tornando o combate quase impossível”.

Além disso, os caminhos e estradas impedidos tornam o combate inicial a incêndios mais lento e difícil, além de poder tornar mais arriscado o trabalho dos bombeiros, afirmou. “Todo o esforço é pouco para se fazer essa limpeza”, vincou, referindo que, no caso do Pinhal Interior, apesar de não ter sido tão afetado pela intempérie como Leiria ou Marinha Grande, apresenta uma orografia que torna o risco de incêndio maior.

Figueiró dos Vinhos pede intervenção do Exército para reduzir risco de incêndio

O presidente da Câmara e o comandante dos bombeiros de Figueiró dos Vinhos pedem a intervenção do Exército para ajudar a desobstruir caminhos florestais e limpar florestas face ao maior risco de incêndio criado pela tempestade Kristin.

“Estamos bastante apreensivos relativamente à época [de risco de incêndios] que aí vem, porque não temos meios enquanto concelho dizimado por esta tempestade. Há muita estrada, muito caminho florestal, muitas árvores caídas”, disse à agência Lusa o presidente da Câmara de Figueiró dos Vinhos, Carlos Lopes.

O autarca explicou que o município tem feito “um esforço muito grande com sapadores ao serviço da Câmara” para limpar caminhos e floresta, mas revelou temer que, sem outros meios, o território não chegue ao verão “na situação que seria recomendável”.

“Quando a tutela determina prazos para limpezas rápidas, não estou a ver como irá acontecer sem intervenção de entidades nacionais. Por isso, lanço este pedido de apoio. O território não tem recursos humanos que possam deixar o terreno outra vez desimpedido deste tipo de pólvora”, afirmou Carlos Lopes.

O autarca, que sentiu o apoio do Exército após a passagem da tempestade Kristin que terá afetado mais de mil casas naquele concelho do distrito de Leiria, gostava de voltar a ver as Forças Armadas mobilizadas “para esta fase”. “Não há nestes concelhos condições para cumprir as limpezas, seja pela parte pública ou privada. Era de bom tom que fossem mobilizados recursos de todo o país para estas áreas desprotegidas”, disse.

Carlos Lopes recordou que a maioria dos proprietários são idosos ou não vivem no concelho e admitiu que começam a concentrar-se “alguns barris de pólvora” por Figueiró dos Vinhos, um dos municípios mais afetados pelo incêndio de Pedrógão Grande, em 2017.

Para dar um exemplo da dificuldade de dar resposta às necessidades, o autarca recordou que o município lançou uma hasta pública para a limpeza de 30 hectares de árvores da mata do município onde “não ficou uma árvore de pé” e que o vencedor não garante que consiga “remover com os meios que tem o material lenhoso nos próximos meses”, num concurso que priorizava a rapidez da intervenção.

O comandante dos Bombeiros de Figueiró dos Vinhos e presidente da Federação dos Bombeiros de Leiria, Jorge Martins, afirmou à Lusa que em todos os momentos que pôde tem vindo a alertar para esta situação em diferentes instâncias regionais e nacionais ligadas à proteção civil. “Já com as estradas limpas, temos dificuldades nestas zonas para combater os incêndios. Assim, é uma dificuldade acrescida”, vincou.

Jorge Martins partilhou da preocupação de Carlos Lopes face ao verão que se aproxima e considerou que a atual situação pode pôr em causa a segurança dos operacionais, além de haver condições para o incêndio progredir com mais intensidade e velocidade, face ao combustível caído e seco. “Estas zonas têm um historial muito grande, os incêndios costumam ser complicados e, quando arrancam, arrancam com violência. Com obstrução de estradas, o risco será maior e o incêndio irá propagar-se muito mais rapidamente”, alertou.

Também Jorge Martins, que enalteceu o trabalho do Exército na desobstrução de vias e recuperação de habitações no concelho depois da passagem da Kristin, considerou que seria “importante, nesta fase, os militares darem apoio, até porque têm material para isso”.

Ferreira do Zêzere longe da normalização dois meses após depressão Kristin

Dois meses após a tempestade Kristin, também o concelho de Ferreira do Zêzere continua longe da normalização, com prejuízos que podem chegar aos 150 milhões de euros e atrasos nos apoios a condicionarem a recuperação, segundo o presidente da câmara.

“A presença do Estado no território tem sido constante, mas as respostas concretas aos danos ainda não se materializaram. É urgente disponibilizar soluções financeiras e instrumentos práticos que permitam recuperar infraestruturas, apoiar famílias e empresas e garantir a normalização do concelho”, disse à agência Lusa Bruno Gomes, presidente daquele município do distrito de Santarém.

Segundo dados da Câmara Municipal, o impacto direto já ultrapassa os 29 milhões de euros (ME), incluindo cerca de 3,5 ME em infraestruturas municipais, 19,6 ME no setor empresarial e 2,1 ME em IPSS e associações, a que acrescem cerca de 4 ME solicitados por privados e freguesias. “Estes valores representam apenas uma parte da realidade. Se incluirmos habitações, património municipal e o setor florestal, estimamos que os prejuízos globais possam ascender a cerca de 150 milhões de euros”, indicou o autarca.

No âmbito dos apoios, foram submetidas 715 candidaturas à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDRLVT), das quais cerca de 72% já foram analisadas. Nos apoios até 5.000 euros, a taxa de análise ultrapassa 97%, mas apenas à volta de um terço foi pago, totalizando cerca de 150 mil euros, enquanto nos processos de maior valor ainda não há pagamentos registados. “É prioritário agilizar os pagamentos às famílias e garantir apoios a fundo perdido para micro e pequenas empresas, que continuam com a sua capacidade produtiva afetada”, defendeu Bruno Gomes.

Apesar da estabilização das situações mais críticas nos primeiros dias após a tempestade, o concelho enfrenta ainda constrangimentos relevantes, nomeadamente ao nível das comunicações, com mais de mil pessoas sem acesso a internet fixa e instabilidade na rede móvel, bem como condicionamentos em vias e equipamentos públicos encerrados. “Estamos ainda longe da normalização total. As intervenções de maior dimensão, como taludes, vias e coberturas, dependem de apoios e de processos exigentes, o que condiciona a sua execução”, explicou.

A tempestade teve um impacto transversal no território, com danos em habitações, rede viária, tecido empresarial e equipamentos públicos, incluindo o Cine-Teatro, Piscina Municipal, Centro Cultural e escolas, tendo sido realizadas mais de 2.500 intervenções no terreno. “Cerca de 85% da população foi afetada, sendo que ao nível da energia e telecomunicações a afetação foi praticamente total”, referiu o presidente da câmara.

Os setores mais atingidos foram a indústria e a agricultura, com impactos prolongados, mantendo-se ainda empresas e explorações agrícolas sem condições para retomar a atividade. “Existem empresas e explorações que ainda não recuperaram a sua capacidade produtiva por falta de condições infraestruturais, o que continua a penalizar a economia local”, alertou.

Ao nível social, o município registou impactos significativos, com agravamento de fragilidades e efeitos psicológicos nas populações, tendo sido mobilizadas equipas técnicas, voluntários e apoio intermunicipal para resposta de proximidade. “A resposta da comunidade foi notável, com empresas e voluntários a ajudarem no terreno, incluindo apoio gratuito de empresas de construção que contribuíram para resolver situações urgentes”, destacou.

O autarca sublinhou ainda a capacidade de resposta do concelho, apontando como principais fatores de sucesso a articulação entre entidades, o investimento na proteção civil e a proximidade às populações. “Conseguimos estabilizar rapidamente situação graças à cooperação entre serviços, agentes locais e comunidade, o que demonstra a importância do investimento contínuo na proteção civil”, afirmou.

Para o futuro, Bruno Gomes defende o reforço da resiliência das infraestruturas críticas, nomeadamente nas áreas da energia e comunicações, e maior preparação para fenómenos extremos. “É fundamental reforçar a robustez das redes críticas e continuar a preparar o território, as instituições e a população para eventos desta natureza”, considerou.

A reposição das principais vias deverá ocorrer nos próximos três meses, mas a recuperação integral do concelho deverá prolongar-se ao longo de 2026, dependendo da concretização dos apoios e das intervenções planeadas, declarou.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Pinhal Interior teme verão difícil. Autarcas pedem ajuda do Exército para reduzir risco de incêndio

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião