Quem são os donos da dívida pública nacional?

As famílias são hoje um dos principais credores do próprio Estado, segurando quase 18% de toda a dívida pública, três vezes mais do que há dez anos. Mas ainda não são os maiores.

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  • A composição dos credores de Portugal mudou significativamente nas últimas duas décadas, com os estrangeiros a deixarem deter 72% da dívida pública em 2008 para menos de 30% no final do ano passado.
  • As famílias foram a grande surpresa, sendo atualmente responsáveis por 17,8% da dívida pública nacional, mais do que triplicando o seu peso em cerca de uma década.
  • O banco central, as famílias e os bancos formam hoje um triângulo interno que segura mais de metade de toda a dívida do Estado.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

O Estado tem hoje uma dívida superior a 275 mil milhões de euros, um valor equivalente a quase 90% de tudo o que a economia nacional produz num ano. É uma montanha de dívida que o Estado acumulou durante décadas.

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Do outro lado da equação estão diferentes perfis de credores cuja relevância mudou de forma radical nos últimos 25 anos, segundo dados publicados esta quinta-feira pelo Banco de Portugal, revelando não apenas as cicatrizes de várias crises, mas também o papel crescente das famílias no financiamento do próprio Estado.

Durante a primeira década deste século, a dívida pública era, em boa parte, um negócio de estrangeiros. Em 2008, os investidores não residentes detinham 72,4% do total da dívida portuguesa, praticamente três em cada quatro euros emprestados ao Estado vinham de fora do país. A entrada de Portugal na Zona Euro, em 1999, tinha feito baixar os juros e tornado a dívida nacional um destino atrativo para capital internacional, especialmente de bancos e fundos de investimento europeus.

Essa fatia caiu de forma dramática nas duas décadas seguintes, apesar de os não residentes a continuarem a ser os maiores credores individuais do Estado português ao deterem 47,2% do stock da dívida pública no final de 2025, uma liderança que, por si só, mostra quão dominante foi outrora a sua posição. E foi precisamente essa dependência “excessiva” dos estrangeiros que se revelou perigosa para a República.

As famílias passaram a deter 17,8% da dívida pública no final de 2025, mais do que triplicando o seu peso no stock da dívida da República em pouco mais de uma década.

Quando a crise financeira global de 2007-2008 abalou os mercados e as dúvidas sobre as finanças públicas europeias dispararam, os investidores estrangeiros desfizeram posições a uma velocidade que deixou Portugal sem acesso ao financiamento de mercado, e forçou o pedido de resgate à troika em 2011.

A saída dos estrangeiros abriu espaço para um novo protagonista que ninguém esperava: o banco central. Em 2009, o Banco de Portugal e o Banco Central Europeu (BCE) detinham apenas 0,36% da dívida pública nacional, uma fatia residual, quase irrelevante. Mas o arranque dos programas de compra de ativos do BCE a partir de 2015, o chamado quantitative easing, mudou tudo.

A instituição liderada então por Mario Draghi, e depois por Christine Lagarde, passou a comprar obrigações do Tesouro dos Estados-membros em grande escala para estimular a economia da Zona Euro e travar a deflação. O resultado foi uma viragem histórica: o banco central chegou a ser responsável por 26,3% do stock da dívida das administrações públicas em 2021 — hoje é responsável por 21,8% de toda a dívida pública portuguesa, mais do dobro que todas as famílias juntas.

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Mas a grande surpresa desta história são as famílias. Em 2012, no pior ano da maior recessão portuguesa em 40 anos, os particulares detinham apenas 5,4% da dívida pública, uma presença modesta, sobretudo através de Certificados de Aforro e Certificados do Tesouro.

Mas a combinação de juros de mercado historicamente baixos, que tornaram os depósitos bancários pouco atrativos, com a decisão do Estado de oferecer remunerações competitivas nos seus produtos de poupança, mudou este panorama.

Com os Certificados de Aforro a pagarem taxas muito acima dos depósitos nos anos de subida das taxas de juro do BCE, entre 2022 e 2024, os portugueses subscreveram o produto em massa e as famílias passaram a deter 17,8% da dívida pública no final de 2025, mais do que triplicando o seu peso em cerca de uma década.

Os bancos domésticos seguiram o caminho oposto. Em 2010, as instituições financeiras residentes detinham 21,5% do stock da dívida pública, um peso significativo que refletia a lógica dos bancos portugueses de aplicar em dívida soberana, considerada segura.

Porém, a crise da dívida soberana europeia e os requisitos de capital impostos pelos reguladores foram empurrando os bancos para fora deste mercado, e o papel das compras do BCE foi absorvendo grande parte da procura. No final de 2025, os bancos residentes tinham menos de metade da fatia de 2010: apenas 10,3% da dívida pública nacional, menos do que as próprias famílias.

O banco central, as famílias e os bancos formam hoje um triângulo interno que segura mais de metade de toda a dívida do Estado, numa estrutura muito mais diversificada.

O retrato atual da dívida pública portuguesa revela uma base de credores profundamente diferente da que existia há 25 anos. Os estrangeiros, que chegaram a ter quase três quartos do total, ficaram-se pelos 27,8% no final de 2025 – se bem que permanecem como o maior grupo individual, mas longe da hegemonia de antes.

O banco central, as famílias e os bancos formam hoje um triângulo interno que segura mais de metade de toda a dívida do Estado, numa estrutura muito mais diversificada e, na perspetiva de muitos economistas, menos vulnerável a fugas repentinas de capital estrangeiro como a que precipitou a crise de 2011, dado que mais de 72% do stock da dívida da República está nas mãos de nacionais e do banco central.

A dívida pública portuguesa está a cair – em percentagem do PIB, chegou ao pico de 132% em 2014, após os anos de austeridade, e terminou 2025 abaixo dos nos 89,7% – mas continua a ser, por cada cêntimo, um espelho da história económica do país, com cada crise a deixar a sua marca nos detentores: os estrangeiros que fugiram com a troika, o banco central que chegou com a bazuca do BCE, as famílias que descobriram os Certificados de Aforro como alternativa à poupança bancária.

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