Turismo açoriano em sobressalto com fim dos voos da Ryanair no fim de semana

  • Lusa
  • 27 Março 2026

A companhia aérea irlandesa já tinha anunciado, no final de 2025, que deixaria de voar para os Açores no final de março, um cenário que está a preocupar os empresários do arquipélago.

O fim da operação da companhia aérea de baixo custo Ryanair para os Açores, neste fim de semana, preocupa os empresários do arquipélago, que temem quebras de visitantes, num território onde o turismo é um importante pilar da economia.

A Ryanair anunciou no fim de 2025 o fim da operação para os Açores a partir de 29 de março (domingo), devido às taxas aeroportuárias e à tributação ambiental europeia. Segundo o ‘site’ da companhia, os últimos voos de e para o arquipélago são feitos no sábado (Lisboa — Terceira — Lisboa e Porto – Ponta Delgada — Porto).

Em janeiro, o presidente executivo da companhia aérea, Michael O’Leary, disse, em entrevista à agência Lusa, que a Ryanair iria encerrar a base nos Açores no fim de março, rejeitando qualquer possibilidade de recuo, o que efetivamente aconteceu. O Governo Regional (PSD/CDS-PP/PPM) ainda tentou, sem sucesso, que a companhia mantivesse a operação na região, iniciada em 2015.

Em fevereiro, a secretária do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, Berta Cabral, informou que o executivo estava a “trabalhar” com a TAP e com a SATA — as outras companhias com rotas comerciais regulares para o arquipélago – para colmatar a saída da Ryanair e a fazer “diligências” para levar outras companhias para a região a “médio prazo”.

Também o presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro, disse este mês que o executivo está a avaliar alternativas de promoção para responder ao vazio deixado pela transportadora irlandesa. “Estamos a trabalhar para representar, na boa economia do mercado, soluções que, na verdade, resolvam os vazios. E que encontremos as alternativas relativamente à valorização de uma estratégia de promoção do destino turístico Açores”, afirmou.

O Grupo SATA revelou já no início do ano estar a avaliar como poderá “contribuir para mitigar eventuais constrangimentos” para turistas e residentes. “A SATA acompanha com atenção a decisão da Ryanair de cessar as suas operações nos Açores, reconhecendo o impacto que esta saída poderá ter na mobilidade dos residentes, na conectividade do arquipélago e no setor do turismo”, adiantou na altura à Lusa fonte oficial do grupo de aviação açoriano, que não voltou agora a prestar declarações sobre o tema.

O certo é que, com a saída da Ryanair, se ouvem preocupações no meio empresarial açoriano, sobretudo de áreas dependentes do turismo, como hotelaria, restauração, alojamento local, empresas de ‘rent-a-car’ e de animação e atividades turísticas, atendendo à grande importância que o setor tem para a dinamização económica da região.

Ainda em fevereiro, durante a BTL 2026 – Better Tourism Lisbon Travel Market, em Lisboa, o presidente do executivo regional considerou que a aposta na autenticidade, na identidade histórica e na qualidade da experiência o é fator da consolidação do arquipélago como “destino turístico de excelência e de eleição”.

Bolieiro referiu que o rendimento previsto com este setor em 2019 apontava para 104 milhões de euros e, atualmente, “esse valor atinge os 206 milhões de euros, o que representa um aumento de 97%”. Com a saída da Ryanair, os empresários temem mudanças. A Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada (CCIPD) estima que provoque uma redução anual do Produto Interno Bruto (PIB) regional entre 1,5% e 1,7%, numa quebra até 104,5 milhões de euros.

Considerando que “o turismo representa cerca de 20% do PIB regional e que a Ryanair é responsável por uma quota estimada entre 7,5% e 8,7% do total das dormidas turísticas”, a saída da companhia poderá traduzir-se “numa redução do PIB regional entre aproximadamente 90,1 milhões e 104,5 milhões de euros por ano, o que corresponde a uma diminuição estimada entre 1,5% e 1,7% do PIB previsto para 2026”, adiantou a CCIPD.

Saída da Ryanair com impacto na Páscoa no alojamento local dos Açores

A saída da Ryanair dos Açores já está a ter efeitos no turismo, com mais de metade das unidades de alojamento local a registarem taxas de ocupação abaixo dos 50% para a Páscoa e um terço sem reservas, alertou esta sexta-feira a associação.

Em declarações à agência Lusa o presidente da Associação de Alojamento Local (ALA) dos Açores, João Pinheiro, disse que “a Páscoa será o primeiro teste” ao turismo açoriano, após o fim da operação da companhia aérea de baixo custo Ryanair para os Açores, neste fim de semana. “Já estamos a ter impactos”, alertou João Pinheiro, sublinhando que haverá unidades que “não vão ter um único cliente” durante o período da Páscoa.

Segundo um inquérito realizado pela ALA, “mais de 50% dos associados têm uma taxa de ocupação abaixo dos 50%” para a Páscoa, enquanto “cerca de um terço não regista qualquer reserva”. João Pinheiro disse à Lusa que a saída da Ryanair terá como consequência direta a redução do número de lugares disponíveis para o arquipélago, afetando não só o alojamento local, mas também restauração, comércio e outros serviços.

Atualmente existem nos Açores 4.600 unidades de alojamento local distribuídas pelas nove ilhas, com um total de 26 mil camas, o que representa 62% da capacidade de alojamento do arquipélago açoriano.

“E, sem este dinamismo económico através do alojamento local, que representa mais de 60% das camas e cria um rendimento extra às famílias e alavanca os outros setores, vamos ter uma redução na economia e nos impostos. Acho que, neste momento, não estamos num momento de maturidade do destino Açores”, apontou.

O presidente da ALA considerou que, “sem uma estratégia eficaz” para o turismo e para a mobilidade aérea, o arquipélago poderá perder competitividade face a destinos concorrentes como o Algarve, a Madeira ou as Canárias, que continuam a captar companhias aéreas e beneficiam de maior oferta de voos. “Estamos numa posição geográfica que até nos podia favorecer num contexto de instabilidade internacional, devido à guerra, mas não estamos a aproveitar essa oportunidade”, lamentou João Pinheiro.

O responsável disse que o impacto poderá agravar-se nos próximos meses, revelando “muita preocupação” com o ritmo de reservas para a época alta, entre maio e setembro, que “não está a ter o mesmo ritmo dos últimos anos”.

“As nossas pequenas e médias empresas são muito frágeis a nível de tesouraria, porque temos a mais alta sazonalidade do país. Trabalhamos muito no verão para fazer face à quebra enorme que existe na época baixa. E, se há alguma alteração da taxa de ocupação e na receita nos meses mais altos, vamos ter dificuldades de tesouraria das empresas que têm custos fixos e altos”, alertou.

O presidente da ALA admitiu que “muitos empresários” do alojamento local possam colocar as suas unidades à venda ou para arrendamento a longo prazo, “se não houver efetivamente um investimento no turismo”.

“Os empresários vão ter de ser proativos e não deixar acontecer como o nosso Governo [Regional] está a deixar acontecer. É preocupante que esteja a ocorrer [a saída da Ryanair] num momento como este”, sustentou, acrescentando que o setor teme um “contraciclo” no turismo açoriano. “Sem investimento e sem resposta estratégica, vamos assistir a uma retração da economia local, com impacto no emprego, nos rendimentos das famílias e nas receitas fiscais”, apontou.

A associação antecipou, ainda, que a redução de lugares disponíveis poderá pressionar os preços das viagens, tornando os Açores “menos competitivos” face a outros destinos turísticos. “Perspetivo um grande impacto na economia açoriana direta e indiretamente, porque vamos ter só a TAP e a SATA a voar nas épocas baixas. E isso poderá fazer uma pressão enorme no preço. E,os nossos concorrentes mais diretos, como Madeira e Canárias, com todas as companhias a voarem para lá, serão um destino sempre muito mais competitivo do que voar par aos Açores”, vincou.

A Ryanair ligava o continente português aos Açores com voos de Lisboa e do Porto para as ilhas de São Miguel e Terceira. A saída da transportadora irlandesa acontece dias depois da operação “Last Call”, que incluiu a realização de buscas pela Polícia Judiciária (PJ) em “vários locais da administração regional”.

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